Por André Pacheco comentários
Ela era uma das lolitas mais comentadas nos Estados Unidos no final da década de 1990, servia ao público com músicas Pop glicosadas e tinha a “função” original de ser um modelo de comportamento. Mas, definitivamente, esses dois últimos predicados não eram a verdadeira link-christina-aguilera.
Depois de um disco debute bem-sucedido, o estrondoso sucesso na releitura de “Lady Marmelade” – para o longa e musical “Moulin Rouge” – e extensas (e até cansativas) comparações à link-britney-spears, Aguilera entrou em um momento íntimo, compôs suas próprias canções, definiu qual a linha musical que adotaria, refez sua imagem e desnudou-se completamente em “Stripped”.
Num disco que pode parecer pornográfico, a julgar pela capa e o compacto de estréia, “Dirrty”, ela mostra toda a versatilidade e beleza de sua voz. Músicas que contam a pequena e cativante história de uma garota que se fez mulher na frente dos holofotes; faixas produzidas com o intuito de mexer com o ouvinte, causando-lhe uma retórica sentimental que vai de problemas familiares à questões sexuais.
Christina flerta com o Rock em “Fighter” e “Make Over”. Mostra a sensualidade de suas raízes latinas em “Infatuation”. Ginga com o grosso Hip-Hop e Lil’ Kim na feminista “Can’t Hold Us Down”. Mas, basicamente, o disco é todo inspirado no R&B em suas variantes e precedentes. Não que ela aproveitou a ondinha do Pop negro, apenas usou seu gênero preferido e mais adequado para seu timbre.
Todos os produtores e parceiros foram bem selecionados, como Alicia Keys, que empresta os dedos e graves nas harmônicas notas de “Impossible”. O Gospel manda um alô em “Soar” e “Cruz”. “Walk Away” é formada por um denso Blues.
E, como era de se esperar, o público e a crítica receberam (depois que o frisson causado pela nova e apelativa imagem de Christina entrou em coma) de braços levantados para o céu – assim como ela na foto da capa – suas novas empreitadas numa musicalidade menos jovial e mais prudente. “Stripped” vendeu algo em torno de 11 milhões de cópias pelo mundo.
Ao lado de Linda Perry, Aguilera produziu a melhor – e mais aclamada – faixa de “Stripped”. “Beautiful” começa singela, num tom próximo à lamentação; com o passar do tempo, a tristeza de ser subjugado pela aparência exterior toma forma mais raivosa, mas sem perder a candura. A letra é universal, as batidas empolgantes e repletas de auto-estima.
“The Voice Within”, a décima oitava faixa, possui cativante e cristalina melodia num poema maduro e que expurga todos os seus traumas. Em trechos que parecem uma adulta Aguilera encontrando com ela criança, confortando-se em seus próprios braços a dor causada pelos maus tratos do pai, que são explicadas e choradas na próxima faixa, “I’m OK”.
As lembranças de uma infância tumultuada e traumática são acompanhadas de um vocal mais ríspido e abafado, lamúrias infantis nos primeiros segundos e um violão acoplado à sintetizadores. Tudo isso para dar o recado que ela está bem, e os traumas ficaram pra trás no passado que ela não faz a mínima questão de reviver.
Pra finalizar, a presunção convidativa de “Keep on Singin’ My Song”. Sem cair em imódica arrogância e autoconfiança, link-christina-aguilera avisa que vai continuar cantando a sua música, com ou sem o respaldo dos que se dizem entendedores do nada erudito e lúdico mundo Pop; pois, afinal, ela não se despiu para os outros, e sim, para se enxergar melhor como artista e mulher.





