“No hype, no glass, no pretense. Just me, stripped”
Por André Pacheco comentários

Lembro como se fosse ontem. Tinha 17 anos há pouco completados, juntei uma grana e fui à loja de discos da minha cidade. Naquela época, a gente ainda comprava CDs em lojas só de CDs, e em alguns casos, tinha que esperar um bom tempo pro material aparecer nas prateleiras. Isso quando não rolava uma encomenda. Baixar discos completos? Um sonho distante numa época onde a banda larga era cara e não difundida. Comprar pela internet? Era outubro de 2002, estávamos aprendendo a confiar nisso ainda.
Cheguei em casa quase bufando depois de sair apressado, nem lembro se peguei o troco. “É R$39,90. Embrulha pra presente?”, disse a vendedora. “Não!”, respondi. Peguei um estilete pra tirar aquele plástico difícil de abrir, deitei na cama, coloquei o disco preto no meu discman e com muito cuidado manuseei o encarte. Dei um sorriso, tinha todas as letras naquele papel prateado repleto de fotos. Apertei o play. Como na abertura de um thriller dramático, a voz de Christina Aguilera surgia entre palavras distorcidas e sobrepostas. Começava a minha jornada por “Stripped”.
Há 10 anos, a cantora lançava o seu segundo disco – antes dele, veio um especial de natal e um em espanhol, mas nada que fosse assim uma Brastemp. “Stripped” era aguardado pelos fãs e pela crítica. Os primeiros, que era meu caso, queriam saber o que viria da garota liberta de uma garrafa e cheia de atitude pro pouco tamanho. A crítica, pronta para destilar qualquer meia dúzia de palavras ríspidas, estava ansiosa em conferir todas as faixas depois da pulsante e sexual “Dirrty”, o single de estreia. Christina Aguilera conseguira se limpar da maldição do segundo álbum ao confeccionar algo único.
Naquela altura da minha vida, cada palavra cantada, em forma de poema ou prosa, servia como um refúgio. “Stripped” foi por bons anos uma válvula de escape, um paraíso perdido numa cabecinha cheia de dúvidas e dogmas católicos. Os ordinários dramas da adolescência, que hoje parecem tão superficiais, dum rapaz gay confuso numa cidade de interior estavam todos ali. É impressionante a conexão que acabamos criando com obras fantásticas e categóricas. É impressionante o quanto “Stripped”, feito por uma mulher tão distante da minha realidade, me roubou o coração numa única tocada.
Hoje, aos 27 anos, escuto o material com a mesma vivacidade da época. Não porque continuo encarando a vida como um adolescente sonhador, mas porque assim como na vida, “Stripped” traz à superfície dores e reflexões em cada uma de suas 21 faixas. Os problemas não deixam de existir, isso nunca, eles apenas vestem outras fantasias pra nos atormentar. O que deixa de existir é a imaturidade de outrora. Aí que está a magia do disco, ele é atemporal, não apenas musicalmente, mas também em sua essência. Uma essência puramente desnuda, longe de qualquer bestialidade conservadora de se envergonhar do corpo e do que ele pode proporcionar. Afinal, as nossas carnes são apenas armaduras de almas frágeis, porém eternas.
Literalmente, presenciei a nudez humana quando estava deitado na minha cama naquela tarde quente de 2002. O coração pulsava a cada palavra lida no papel prateado, a cada melodia deliciosamente tocada. As faixas vão de encontro à alguma experiência vivida ou, por que não, pelo futuro guardada. “Can’t Hold Us Down” é sobre subjugação. “Walk Away” nos traz um amor frustrado num blues forte. “Fighter” vem com riffs nervosos. “Beautiful” ensina a se amar em poucas palavras. “Cruz” segue a estrada de tijolos amarelos pra esperança. “Soar” abre as asas rumo ao céu. “The Voice Within” ensina a escutar o coração. “Keep On Singin My Song” é uma lição de perseverança.
Fechei o encarte após algumas lágrimas intercaladas com sorrisos marotos. Tirei o disco delicadamente do discman e o coloquei na caixa de acrílico, àquela época sem nenhum arranhão. Guardei na estante ao lado de outros CDs. Fora o meu primeiro contato não apenas com o segundo álbum de Christina Aguilera, mas com o meu coração. A primeira vez que me senti bem comigo mesmo, sem amarras e sem as preocupações do que estaria por vir anos mais tarde, ou até mesmo algumas horas depois. Não haveria nenhuma dor que não pudesse ser acalentada, desde que eu não tivesse vergonha de visitar os mais profundos abismos da minha alma. Mas pra isso, eu deveria estar sem pretensões e alegorias, apenas nu.





