Glitter
Mariah Carey
2001 - EMI/Virgin
4 estrelas
Publicado em Por André Pacheco
Um dos discos mais injustiçados dos últimos anos, com uma história envolvendo muitas puxadas de tapete, que terminou com Mariah Carey na rua da amargura e duas vezes numa clínica de repouso. Antes mesmo de chegar às lojas, no fatídico 11 de setembro de 2001, “Glitter” foi bombardeado com críticas pesadas, tanto a música como o filme. O longa homônimo, planejado como a grande estreia da cantora como atriz, conseguiu ofuscar parte do brilho deste projeto orçado em milhões de dólares e desenvolvido ao longo de quase três anos.
Em 2001, Mariah estava em seu auge, tanto no profissional como no pessoal. Coroada a cantora da década de 1990, quinze músicas em primeiro lugar nos Estados Unidos, mais de 120 milhões de discos vendidos mundialmente. Responsável por duas escolas na música pop, primeiro vocalmente – ela inspirou todas as grandes divas que vieram após o seu debute – e depois por misturar a doce voz feminina do R&B com as pesadas batidas do hip hop – escute “Fantasy”, lançamento de 1995, com o já falecido rapper O.D.B.
Após um casamento fracassado com o seu ex-mentor na gigante Sony Music, Tommy Mottola, Mariah vivia um verdadeiro conto de fadas ao lado do sedutor e delicioso cantor mexicano Luís Miguel. Tudo parecia ir bem, e se não bastasse tanto doce, a EMI a ofereceu a absurda quantia de 80 milhões de dólares para quatro discos. Casa nova, casamento marcado, disco quase perfeito.
Tirando duas faixas, “Glitter” é uma obra prima do pop, beirando ao excelente. Não esqueçamos que se trata de uma trilha sonora, e como tal, algumas faixas deveriam seguir o filme. “Reflections”, tediosa e focada no piano, fala de uma mãe que abandonou a filha – o que não aconteceu com Mariah. “Twister”, interlúdio usado no longa como ponte entre uma cena e outra, poderia facilmente ser dispensada na prensagem do disco.
Repleto de referências aos anos oitenta, “Glitter” consegue ir além dos clichês musicais que marcaram a década da Aids, da masculinização fashion da mulher e dos excessos de luzes. Mariah Carey foi no gueto, nas ruelas e nos clubes undergrounds da cidade-onde-tudo-acontece atrás de suas referências. Esqueça as rainhas do ABBA ou os muros de Michael Jackson, aqui temos o funk e o primórdio do hip hop, tudo devidamente misturado com pitadas de disco music e encorpadas baladas típicas de Lionel Richie.
Com dois covers e uma quantidade de samples que chega a soar feroz, “Glitter” pode ser taxado como kitsch, mas sem perder o foco no espaço e no tempo. “Loverboy” até parece tediosa na primeira audição, mas a deliciosa batida de “Candy” – do grupo Cameo – envolve em doses homeopáticas. “Don’t Stop” pega emprestado a vibrante batida de “Funkin’ For Jamaica” – do rapper Tom Browne – e ao lado da rouca voz de Mystical traz uma Mariah Carey sexual e pronta para levar seu parceiro às alturas. A ríspida e leviana “Want You”, dueto com Eric Benét, consegue lugar cativo no hall das melhores parcerias de Carey – e olha que são muitas. Já as baladas “Lead The Way” e “Never Too Far” trazem a típica cafonice da cantora, o que não poderia faltar.
Aos 31 anos, Mariah Carey conseguira mais um feito. Fez um disco pessoal, mas casando com a sinopse do insuportável filme. Ela oscilou entre a carência e o sexo, dualidade que marcou a segunda fase de sua carreira – mas nunca tão bem explorada, nem antes nem depois. E, de quebra, entregou dez faixas suficientemente fortes para abrir novos horizontes na música pop, prova cabal é banalização dos anos oitenta e de suas batidas pouco exploradas que vimos de uns tempos pra cá. Pobres críticos, não conseguiram enxergar na época o verdadeiro brilho deste disco, que foi jogado ao chão junto com as duas torres.





