e=MC²; Mariah Carey

e=MC²

Mariah Carey

2008 - Universal Music

3 estrelas

Por André Pacheco comentários

Quando saiu o primeiro compacto, “Touch My Body”, muito se especulou sobre qual seria a linha adotada por link-mariah-carey em “e=MC²”. A conclusão mais plausível, pelo menos superficialmente, é que Carey se portou como a verdadeira artista que é ao presentear os fãs com um trabalho único em sua vasta discografia.

Nas misturas escaldantes de melodias morde-fronhas com as ríspidas linhas do Hip-Hop, a fórmula do Pop de Carey faz uma pequena viagem por sua mente. Desde “Butterfly” (1998), Mariah não concebeu algo tão introspectivo e verdadeiro. Nem em “Charmbracelet” (2002), ou no estressante “The Emancipation Of Mimi” (2005), ela pôde estar visivelmente exposta.

Agora sim, ela atingiu o ápice de sua maturidade como compositora e produtora. Claro que as letras não são a perfeição lingüística, o que não é problema, afinal, ela nunca teve a pretensão de ser uma Betty Friedan. Mariah sempre se posicionou perfeitamente como um produto da indústria fonográfica, e não dá sinais que pretende deixar o status, mesmo que lute para não se enquadrar nesse padrão.

Ao começar com “Migrate”, nos assustamos – pelo menos em primeiro momento – com a pesada e nada sutil batida. T-Pain entrou como um trunfo pra deixar a faixa deliciosamente mais sensual, e por que não, sexual. Parecia que estava por vir a segunda parte de “The Emancipation Of Mimi”, mas, como um tapa na cara, ao longo de todo o disco, ficou claro que passado é passado, mesmo que seja um recente.

Os únicos vestígios do último disco se restringem apenas ao título. Plagiando o pai da física moderna, link-mariah-carey substitui energia por emancipação, massa e velocidade da luz pelas iniciais de seu nome. O que, se escutarmos o álbum, não deixa de ter um pouco de relação. A energia de Mariah é igual a uma massa de talento multiplicada pela velocidade em que ela conquista cada vez mais fãs. Tudo isso, ao quadrado.

Em “Cruise Control”, nos imaginamos numa paradisíaca praia caribenha, debaixo do sol escaldante e exibindo o corpo bronzeado. A melodia do Reggae remete aos dourados anos quando a música americana era mais eclética e aberta para as influências do terceiro mundo. Com a presença de Damian Marley – um dos inúmeros filhos de Bob Marley – Mariah saiu do feijão-com-arroz e apimentou sua musicalidade com fonemas jamaicanos.

Depois de dançar nas três primeiras músicas, é hora de dar um tempo e cair na cafonice do romantismo. Como se terminássemos de atender ao pedido de tocar seu corpo perdendo o controle, fomos sugados pela melodia de “I Stay In Love”. Nada de muito diferente do que já fez anteriormente. Uma sensação de déjà vu mesclada com o medo de ver a Wanessa Camargo se esgoelando em algum programa dominical tentando atingir as notas de Mariah com essa canção.

Em “Side Effects”, Carey fala sobre o já muito comentado (e falido) casamento que teve por quase quatro anos com Tommy Motolla, que também fora o presidente da Sony Music. Ela nos leva pra um mágico mundo onde a dor parece ser amenizada pela esperança. Uma ponta de influências do Rock contrastando com a sua terna voz, que aqui já não está naquela fase “sou menininha do timbre açucarado”. A ternura de Mariah se parece mais com um pouco de raiva e angústia, mas sem ficar depressiva. Uma mensagem de uma pessoa pronta pra sair da solitária e deixar seus fantasmas por lá. A grave e masculina voz de Young Jeezy deixa a viagem mais psicodélica.

Mirabolante, “I’m That Chick”, revigora os anos 90 com um quê de anos 80; a voz de Carey se mostra mais baixa e feminina do que o normal em um refrão grudento e dançante. “Love Story”, mais uma parceria com Jermaine Dupri, tinha tudo pra ser o carro-chefe da produção, se não fosse pelos vocais forçados e inúteis de JD ao léu entre a melodia contagiante e madura; um erro, que pode ser facilmente desprezado ao se fazer o mesmo com as frustradas tentativas de Dupri em ser mestre de cerimônias.

“I’ll Be Lovin’ U Long Time” é a responsável pelo momento túnel-do-tempo. “Last Kiss” e “Thanx 4 Nothin’” funcionam mais como conteúdo baldio do que como faixas que merecem respeito e o nosso tempo como ouvintes; não que elas sejam ruins, muito pelo contrário, são ótimas, mas não combinam com o álbum.

“O.O.C” (abreviação de out of control) faz jus ao nome. Ou você se descontrola caindo aos seus pés e vangloriando essa faixa diferente de quase tudo que Mariah já fez, ou a odeia a ponto de desejar arranhar a parte do CD em que ela está alocada. Com batidas cosmopolitas, é uma boa pedida pras pistas, com direito a coreografia ensaiada exaustivamente em frete ao espelho. Solte a diva dentro de você e se esbalde numa música onde os famosos agudos de Mariah interagem tão bem com seus graves, mais parecendo instrumentais a vocais.

“For The Record” se mostra como uma das maiores surpresas, primeiro, por ter sido apresentada em alguns poucos segundos na propaganda do perfume de Mariah – lançado ano passado; e, segundo, por ter vocais mais secos mesclados num instrumental surreal e basicamente R&B contemporâneo. Na letra, Mariah brinca com o nome de algumas de suas músicas preferidas do passado, como “My All” (de “Butterfly”) e “Underneath The Stars” (de “Daydream”, lançamento de 1995).

Pra terminar a viagem pelo universo paralelo criado por Carey – que agora não cabe mais ser chamada de Mimi – esbarramos em duas obras-primas da música negra atual norte-americana. Em “Bye Bye” temos uma letra simplória, porém, repleta de verdades e poesia da alma; é melodia excessivamente robusta e saudosista. Ela fala sobre o amor universal, o sentimento puro que sentimos pelos amantes, família e amigos. “I Wish You Well” vem com forte presença do Blues e do Gospel, intercalando – chegando a parecer um pouco hipócrita – versículos da Bíblia.

link-mariah-carey fez mais que a fórmula do sucesso, ela estripou sua essência em quatorze faixas; paradoxalmente, mostrou o poder de sua voz sem se exceder em berros e desafetos. Chorou suas mágoas, sempre na esperança de dias melhores. Se diverte, tem o corpo tocado, perde a noção, chora o casamento falido, lembra da ausência de seu pai e ora aos céus sua inabalável fé.

Agora, ela açucarou mais o mel, deu tudo de si e teve visões; sem precisar abrir nenhuma bebida pra se divertir ou vestir alguma marca francesa pra se sentir mais segura. Ela se embriagou em seu próprio talento, que a cada disco – mesmo com alguns fracassos – se emancipa mais de um mercado sempre igual.

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