Por André Pacheco comentários
Lançado em 1997, “Butterfly” apresentou ao público uma, por assim dizer, nova Mariah Carey. Após dois discos bem-sucedidos e elogiados, e uma carreira de, até então, sete anos seguindo a linha de melodias românticas, ela surgia com uma musicalidade mais pulsante e menos adulta. Era a virada, pessoal e profissional.
Carey já vinha apresentando mudanças significativas na maneira de produzir, compor e cantar – como na faixa “Fantasy”, de 1995. Mas em “Butterfly”, a transformação foi brusca. Tudo foi diferente, e como a história não deixa mentir, passou a ser para ela e também para a leva de divas glicosadas que vieram depois. Beyoncé, Jennifer Lopez, Christina Aguilera e tantas outras pegaram carona no voo de “Butterfly”.
Na vida pessoal, paradigmas da estrela também se romperam. Ela se separou do marido e mentor Tommy Motolla, e resolveu experimentar a liberdade artística que buscou desde o debute em 1990. É justamente sobre a separação e os sentimentos – positivos e negativos – sentidos naquele momento, que Mariah resolveu batizar o seu sétimo disco. A escolha do nome não poderia ser mais prudente.
O primeiro single, “Honey”, não foi apenas um flerte com o hip hop. Foi um trabalho de duas vias, uma mistura do ríspido das ruas com o doce do R&B. Mariah largou os vestidos longos e a atitude de dama imposta pelo marketing da Sony, e partiu para o ataque como uma femme fatale. Se na faixa há uma referência descarada ao orgasmo, no clipe, vemos uma cantora no auge de sua sensualidade e sexualidade.
Na produção, a dobradinha com Walter Afanasieff se repetiu na maioria das composições, só que com uma roupagem diferente. Walter, produtor de origem brasileira, foi responsável por clássicos como “Hero”, e trabalhou com Carey desde o seu primeiro disco. A faixa-título, a adocicada “Whenever You Call” e a reflexiva “Close My Eyes” são as mesmas baladas açucaradas, só que um tom a mais na amargura. Enquanto as primeiras falam da dor de deixar alguém partir, a terceira reflete sobre os caminhos seguidos na vida – e há um sutil flerte com o suicídio. “My All” traz os violões latinos e se tornou uma das faixas definitivas da cantora.
Para fechar, em “Outside” – composta em uma de suas crises de identidade na adolescência – ela faz uma reflexão duma sociedade que obriga as pessoas a escolherem um caminho único. Branca ou negra? Por ser uma mistura, ela sempre se sentiu isolada e sozinha. Talvez nisso que esteja o brilho de “Butterfly”, na ausência de um porto seguro e nas oscilações entre o puritano e leviano – no fim, fica a metáfora da transformação e da autoaceitação.





