Born This Way
Lady Gaga
2011 - Universal Music
5 estrelas
Publicado em Por André Pacheco
A maior qualidade de “Born This Way” é o seu maior fardo. Lady Gaga carrega o peso do mundo em suas costas, e por méritos próprios. Ela trabalhou a sua carreira minuciosamente para que os holofotes estivessem sobre ela. Se transformou num pastiche, e nunca deixou de se assumir como tal – de forma sutil e indireta, mas se assumiu.
Agora, ela – desculpe o uso inapropriado da linguagem – esfrega isso na cara da sociedade. Com “Born This Way” parece que a cantora resolveu ir além de apenas dançar ou reclamar da fama recém-conquistada. O mundo é, quer goste ou não, dela. A mídia, o frisson e os burburinhos são os seus reais little monsters.
Estamos de frente com a nova Madonna – por mais que comparações desse tipo empobreçam qualquer embasamento, é impossível não recorrer a tal, principalmente se considerarmos Madonna como uma personagem da Cultura Pop. Stefani Joanne Germanotta não é o tipo de artista que senta em seu trono e “rebus sic stantibus”. Para manter as roldanas girando, ela escolhe vivenciar o personagem caricato que conhecemos como Lady Gaga.
É isso que traz a mágica à “Born This Way”. Lady Gaga é a maior farsa que já vimos na música. Uma mentira, uma construção bem arquitetada para estar em evidência, um kitsch. Ela é o quadro dos nossos dias, uma sociedade perturbada e sem personalidade.
Musicalmente, temos um disco distorcido, sem linearidade e, algumas vezes, irritante. Das quatorze faixas da versão regular de “Born This Way”, cinco se salvam. As outras nove não passam de notas e compassos experimentais sem sentido e vazias. Ponto para Lady Gaga. Ela confeccionou algo essencialmente desprezível, mas mesmo assim, funcional. E, sem arrogância, ela tem total ciência do quanto o seu segundo disco está aquém do que deveria ser.
“Yoü And I” e “The Edge Of Glory” fecham o material com maestria. Enquanto uma brinca de ser uma baladinha progressiva com pitadas de country, a outra vai de encontro à decadência radiofônica do fim da década de 1980. “I’m on the edge of glory”, chora. A paixão narrada em “Judas” e em “Highway Unicorn (Road To Love)” nos mostram a complexidade do amor, nos apaixonamos por figuras estranhas e seguimos, às vezes, por estradas folclóricas.
“Born This Way”, a primeira música de trabalho, já adiantou o que iríamos encontrar. Lady Gaga está no caminho certo justamente por não pertencer à escola Madonna, Bowie ou Beatles. Ela é suficientemente corajosa por se assumir como o único membro de uma linhagem superior do Pop, definida por ela. Mas, há a redenção ao nos chamar para compartilhar o mesmo DNA comportamental.
“Não se esconda, seja uma rainha”, ordena. Sim, seremos – e somos – esse emaranhado de personagens que as regras nos obrigam a interpretar. Rainhas, reis, escravos, traidores, centauros, dramáticos e caricaturas. Nascemos, assim como você Lady, humanos. E nos transformamos, assim como você Gaga, em máquinas.





