Por Luccas Belfort comentários
Bi-on-ic, adj: Que faz uso de partes do corpo artificiais, principalmente as eletromecânicas. Ter habilidades humanas comuns aumentadas por uso e ajuda de tais dispositivos. Originário da década de 60, derivado de BIO- [vida, humano] e eletrônico.
A definição acima está na primeira página do encarte de “Bionic”, o novo, e talvez mais polêmico disco de Christina Aguilera. Dessa vez, o bafafá gira em torno de dois fatores cruciais: a cantora está absolutamente exposta (sexual e vocalmente falando) e decide se aventurar no universo eletrônico, coisa que, no cenário pop atual repleto de Gagas, Rihannas e Ke$has não é mais nenhuma novidade.
Ainda na fase de produção, “Bionic” já chamava a atenção. A cantora declarou ter trabalhado com nomes da cena alternativa como Ladytron, Sia, Goldfrapp, Santigold e M.I.A. para construir um álbum divertido, futurista e que explorasse sua voz e estilo em formas nunca vistas antes.
O primeiro burburinho veio no clipe de “Not Myself Tonight”. O primeiro single foi injustamente apedrejado pela mídia especializada ou não por conter referências óbvias à Madonna e por copiar descaradamente a revolucionária Lady Gaga.
Foi declarado: Christina não estava inovando coisa nenhuma, estava apenas nos apresentando o que a gente ouve todo santo dia nas rádios. O que acontecera com as faixas indie exaustivamente prometidas e com a guinada na vida artística deixada no ar?
“Not Myself Tonight” pode ser chamada de dançante, provocativa, sexual e blá blá blá. Mas, o melhor adjetivo para descrevê-la: ERRO. O single, produzido por Polow Da Don – produtor hypado responsável por hits como “Baby By Me” do emagrecido 50 Cent e “Love In This Club” do Usher – contradiz todo o trabalho inovador que Christina prometeu fazer nos dois anos que antecederam o lançamento do disco. “Not Myself Tonight” é mais do mesmo.
É uma pena, a música escolhida como carro-chefe de “Bionic” não representa o potencial das outras músicas do material, muito menos o esforço em buscar a inovação que a cantora empenhou ao trabalhar num projeto que significasse uma renovação no seu estilo e pra sua voz. Enquanto “Bionic” como um todo representa a renovação, “Not Myself Tonight” é apenas uma adaptação da obra ao mercado atual.
Também temos um álbum composto por músicas coerentes com o look de Christina e a arte do material gráfico. Seu futurismo não é aquele digital, representado por alta tecnologia e todo aquele clichê que a gente tem sido exposto ultimamente. Aguilera construiu algo mais mecânico e industrial, a mesma visão que tínhamos nos anos setenta, bem representada no filme “Blade Runner”. O que é muito interessante! É como se Baby Jane, o alter ego de Christina que apareceu na fase “Back to Basics”, nos mostrasse sua concepção de como estaríamos atualmente.
Outro fato curioso, é que enquanto as canções agitadas são inundadas de sintetizadores, efeitos eletrônicos, vozes robôticas e batucadas; as baladas são tranqüilas, leves, orgânicas e compostas apenas de instrumentos e a bela voz da moça. Pode parecer incoerente ou estúpido essa sequência que interrompe bruscamente as músicas de “sijogar” para um bloco de cinco faixas lentas e nada eletrônicas, mas essa é, de longe, a maior sacada de “Bionic”.
Por quê? Simples! Biônico é o humano com partes do corpo eletrônicas. Christina passa as dez primeiras faixas se auto-afirmando robótica e poderosa, inabalável, até sermos surpreendidos por “My Heart”, um fofo diálogo entre Jordan e Max – esposo e filho de Aguilera, respectivamente. A partir daí, escutamos faixas que representam o lado humano, e consequentemente mais vulnerável. É o principal contraste entre a vida humana e a vida robótica, a mais simples justifiva do titulo da obra. Essas músicas, como Christina mesmo disse, são “o coração do álbum”, e agora nós entendemos o que ela quis dizer.
E se as baladas são o coração, “Elastic Love”, “My Girls”, “Monday Morning”, “Bobblehead”, “Vanity”, “Birds Of Prey” e “Bionic” são a cabeça. Criativas, são as que mais apresentam diferenciais e esforço em criar um som novo e pulsante para uma cantora pop mainstream.
“Glam”, “Prima Donna”, “I Hate Boys” e “Not Myself Tonight” são os pés que levam para o lado mais comercial do disco, o que provavelmente foi imposto pela gravadora como condição para que a loira conseguisse lançar o projeto. E nem é preciso dizer a que parte do corpo feminino podemos atribuir “Woohoo” e “Sex For Breakfast”.
Talvez Aguilera veio dizer que “Bionic” não é um trabalho pra ser levado tanto a sério. Todas as faixas fluem bem. São grudentas, como todo bom e velho pop, porém sem aquela clichezada que a gente não está cansado. É, evidentemente, um passo perigoso para uma cantora cujo último trabalho de inéditas foi baseado nas sonoridades de meados do século passado, mas prova que qualquer risco pode ser tomado quando o trabalho é bem feito.
O mais impressionante, é que Christina Aguilera deixa claro que o quê a motiva a continuar trabalhando é a possibilidade de se reinventar sempre. Ela também não quer ser melhor do que nenhuma outra cantora, não quer roubar os holofotes de ninguém. E o melhor de tudo: ela deixa claro que, se quisesse, conseguiria numa boa, sendo biônica ou retrô.
Resenha originalmente publicada em 07/06/2010.





