USPírito de porco
Publicado em Por André Pacheco
Prendam esses maconheiros!”, esbraveja uma alma alienada nos comentários de um grande portal qualquer. “Estudante tem que estudar, não protestar!”, afirma, sem pestanejar, algum aluno de alguma engenharia muito nervoso com a prova de cálculo da próxima semana. “Morram, fascistas!”, escreve algum blogueiro de capacidade intelectual reduzida que não sabe que fascismo é um regime totalitário de extrema direita – ou finge não saber.
“Pera, o que de fato está acontecendo?!”, poucos se perguntaram desde o dia 01 deste mês, quando um grupo de estudantes da USP ocupou a reitoria da Universidade. Mais uma vez, o brasileiro médio – e a sua alienação típica – prefere ficar na superfície dos acontecimentos, ao invés de tentar compreender o que levou os “filhinhos de papai” a “depredarem o patrimônio público”.
A pauta dos revoltosos é a presença da PM no campus, garantida através de um acordo firmado em setembro. A pauta dos revoltosos não é o direito de fumar maconha no campus, como a imprensa faz parecer. Antes fosse só queimar um baseado a pauta dos revoltosos. A presença da polícia – seja militar, civil ou federal – em qualquer campus universitário é um atentado ao desenvolvimento intelectual.
Não quero entrar no mérito sobre a onda de violência que aflige o campus da USP na Zona Oeste de São Paulo. E tão pouco quero debater sobre o assassinato covarde do estudante Felipe Ramos de Paiva em maio. A questão é outra, e não tem nada a ver com latrocínio, assalto ou sequestro. Tem a ver com o não aparelhamento governista de Universidades Públicas.
Quando entrei no curso de jornalismo em 2007, um professor de Filosofia soltou a seguinte frase: “Se você sair da Universidade do mesmo jeito que entrou, o seu tempo aqui foi perdido”. Por excelência, uma Universidade Pública deve primar pelo ensino, pesquisa e extensão. Também pelo debate. Seja na área de humanas ou exatas, os cursos devem buscar melhorias para todos os brasileiros. Afinal, um aluno universitário é caro para os cofres públicos.
Em abril de 2008, o campus central da Universidade Federal de Minas Gerais presenciou algo típico dos ingratos tempos da ditadura. Um estudante foi preso e outros dois ficaram feridos por causa de um debate sobre a legalização da maconha no Instituto de Geociências. A Polícia Militar de Minas Gerais desceu o cacete por causa de uma debate! Ora, se em uma Universidade não se pode debater um assunto que diz respeito a todos, onde mais se poderia discutir isso?
Ontem, 08 de novembro de 2011, a Tropa de Choque da Polícia Militar do Estado de São Paulo invadiu o CRUSP – o alojamento da USP. Ninguém entrava, ninguém saia. Estudantes, que em sua maioria não têm dinheiro para estudar e dependem da assistência estudantil, foram tratados como delinquentes.
Se alguém entrou numa Universidade Pública e só se preocupa com o feijão-com-arroz ministrado na sala de aula e em conseguir um emprego maravilhoso que lhe pague um salário altíssimo após a formatura, desculpe, mas ele não é digno de nenhum centavo público investido nesta formação. Um aluno de Universidade Pública tem o dever moral de devolver algo para a sociedade.
Um aluno de uma Universidade Pública tem a chance de estar em um ambiente propício ao debate, à mudança de mentalidade e – no mínimo – à possibilidade de enxergar através da cortina. Não se pensa em um mundo diferente e mais democrático com a presença e o patrulhamento ostensivo do braço repressor do Estado. Ou você acha que a Polícia Militar é boazinha e está preocupada apenas em acabar com assaltos e assassinatos no campus da USP?





