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Sobre kits, homofobia, evangélicos…

Publicado em Por Hilário Júnior

Não estou aqui para defender o Governo, porque se existe uma coisa que eu abomino é visão cega das coisas. Porém, acho que cabem diversos esclarecimentos a respeito do material “Escola sem Homofobia”, o já famoso “Kit Gay”, patrocinado pelo Ministério da Educação e diversas entidades LGBT.

Para quem está por fora do que está acontecendo, é o seguinte: o ministro da Educação, Fernando Haddad, bancou a confecção de um Kit Anti-Homofobia a ser distribuído em todas as escolas públicas do Brasil. Depois de divulgada tal ação, o Ministério e o Governo Federal começaram a receber inúmeras críticas dos setores mais conservadores da sociedade, leia-se: evangélicos radicalóides e católicos fanáticos.

Antes de tecer qualquer comentário sobre o mesmo, que tal darmos uma olhada em nos vídeos que faziam parte do tal Kit?


Este vídeo está no YouTube e pode ser removido e/ou impedido de ser exibido a qualquer momento

Numa primeira análise, achei o texto do vídeo bom. Mas a narrativa é pobre. Os desenhos? Não vou nem falar. Poderia ser tratado de outra forma, ao invés de desenhos estáticos e uma narrativa parada, atores e algo mais agitado. O das meninas é visivelmente mal feito e o da “Bianca” peca pela repetição.

Antes que me atirem pedras. Eu sou gay e, sim, acho que estética para os jovens de hoje conta muito e vale bem mais do que qualquer outra coisa, então pra que fazer vídeos longos, com uma estética sofrível e mandar pras escolas públicas quando você poderia apostar em algo assim…


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… ou assim:


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Não estou falando para esses vídeos serem usados, mas sim sua estética. Dois curtas-metragens de linguagem ágil, diferentes e que tocam de forma inovadora e sem ser “chocante” sobre o assunto. Vale salientar que ambos são premiados em diversos festivais de cinema no Brasil. “Amanda e Monick” ganhou o Prêmio do Público, no festival Cine-PE.

ONGs, políticos e muita gente da imprensa e militância têm que entender que o jovem hoje é bombardeado a todo o momento por informações diversas. Se a linguagem não for “adequada a esse novo tempo”, o material passa despercebido.

E por que eu estou falando sobre isso antes de qualquer coisa? Por que foi este argumento usado pela presidente Dilma Rousseff, para vetar o uso do material nas escolas. Ela falou que a “qualidade técnica do mesmo era sofrível” e que a “propaganda de uma opção sexual (sic) não pode ser patrocinada pelo Governo”.

O buraco é mais “em cima”

Como tenho absoluta certeza, boa parte dos nossos leitores estão um pouco por fora quanto à política nacional. Por isso, vou tentar resumir e traduzir o que veio acontecendo em nosso país nos últimos dias:

- Há mais ou menos duas semanas, o jornal Folha de São Paulo descobriu que o Ministro da Casa Civil, Antônio Palocci, foi pego com a boca na botija após faturar, só no ano passado, mais de 20 milhões com atividades lobbistas. O problema é que essa atividade é ilegal, e nem a Receita Federal, muito menos o partido do ministro (PT) sabiam dessa atividade… Quiçá a presidente.

- Palocci foi protagonista no primeiro governo Lula do “escândalo” do Caseiro Francenildo. Ou seja, reincidente.

- A oposição (PSDB e DEM) entrou com pedidos de CPI e esclarecimento ao Ministro Palocci. Só que para esses pedidos serem aprovados, é necessário que uma maioria mínima da Câmara e/ou do Senado aprove. A oposição não tem essa maioria. O Governo, sim.

- E quem é do Governo na Câmara e Senado? Pasmem: Anthony Garotinho, Jair Bolsonaro, Gabriel Chalita e boa parte da bancada evangélica e católica, eleitos com os votos dos seus fieis. Coisas da política e da nossa Constituição, ou se governa com a maioria nessas casas, ou o presidente não faz nada. Eis o ônus.

- Uma crise, como foi a do caseiro Francenildo, protagonizada pelo ministro Palocci neste momento, é tudo o que Dilma, o PT e o Governo não querem. Mas parte da imprensa (claramente contra o Governo Lula e também contra o Dilma) e a oposição estão atrás disso.

- Daí vem o “Escola sem Homofobia”, do qual evangélicos e católicos são radicalmente contra. Sabendo que a presidente tem uma postura dura e aprova as coisas que acha certo, os deputados e senadores dessa base “chantagearam”: ou você veta o “Kit Gay” ou vamos votar com a oposição pela abertura da CPI.

Ou seja, ela foi pressionada a fazer o veto, na verdade declarando “padrão técnico” para evitar uma crise no Governo. Ou seja, a culpa, se é que ela existe, antes de qualquer coisa está na “chantagem” dos deputados e senadores das bancadas evangélica e católica. Claro, o Palocci é um pulha, um canalha e um corrupto. Foi erro da Dilma colocá-lo lá? Foi, mais um.

Esse texto foi feito só pra ligar aqui uma luz amarela e chamar a atenção para o seguinte: antes de sairmos atirando pedras no Governo e na presidente – vi gente a chamando de “bovina” no Twitter – que tal nos inteirarmos dos fatos? A culpa é nossa também, enquanto no Brasil políticos como Anthony Garotinho, Jair Bolsonaro e Gabriel Chalita continuarem sendo eleitos, é este o tipo de coisa que veremos. E não esperem aprovação de “casamento gay” ou “Escola sem Homofobia” por tais pessoas.

E, para não perder a oportunidade, também vou contra a nota de repúdio que este site soltou hoje no Twitter e no Facebook. Um pouco mais de calma aí no marketing, é o que eu peço.

Se você se abstém de votar, de conversar e discutir a política do seu país, e até mesmo de ler textos como este aqui, você também se abstém de lutar pelos seus direitos. Até lá – no dia em que isso entrar na cabeça de todo mundo deste país – teremos ainda mais e mais “kits” sendo vetados por “padrão técnico” no Brasil.