Se você quer que a Gina vá embora…
Por André Pacheco comentários

Nunca aquela tradicional marchinha de carnaval de duplo sentido fez tanto sentido. “Se vocês querem que a Gina vá embora…” não deve sair da cabeça dos manda-chuvas da Rela Gina, empresa proprietária dos tradicionais palitos Gina. De acordo com matéria publicada no site da Época Negócios na tarde do último dia 23, a mais nova coqueluche do Facebook, a “Gina Indelicada”, deve ser retirada do ar.
Em pouco mais de 15 dias, a página passou do um milhão de likes. Um número absurdamente assustador, até mesmo para o “criador” da personagem, um estudante de 19 anos. A mesma Época diz que o diretor-presidente da marca foi pego de surpresa por esse sucesso, e também, como era de se esperar, pelo uso indevido da marca. Dentro dessa polêmica toda, temos dois pontos importantes pra discutir.
As marcas, sejam as grandes ou aquelas pequenas que poucos conhecem, gastam uma boa energia para fazer parte do nosso cotiano. Rios e mais rios de dinheiro são torrados com publicidade, por exemplo. Em alguns casos, a marca se torna tão íntima das pessoas, que trocamos o nome da mercadoria por seu nome – exemplo é que não falta, ou você fala palha de aço? Ou, como no caso da Gina, vai além do nome e a imagem toma um papel tão importante quanto. A simpática ilustração usada por anos se tornou parte da cultura popular. Palitos? Lembra logo daquela mina loira, a Gina – se é que a modelo se chamava assim mesmo.
O caso do Facebook é só um exemplo disso. Alguém se lembra de uma comunidade no Orkut chamada “Eu tenho medo da Gina”? Pois bem, o que essa empresa do interior de São Paulo conquistou é algo que várias marcas querem – e, pelo que se sabe, sem ela gastar muito com publicidade. Até arrisco em dizer que a Gina é esposa do simpático senhor da Quaker. A sorte também ajudou bastante.
Vivemos num contexto capitalista. Todo mundo quer ganhar grana, certo? Uma das das coisas que garantem isso, é justamente a propriedade intelectual. Nesse mundo materialista em que vivemos, o que faz alguém – ou uma empresa – investir em inovação, é justamente o fato de ter uma certa proteção garantida por lei de que tudo que foi por ela criado, até mesmo uma mina loira estampando a caixa de palitos. Se alguém se apropria da propriedade de outro para gerar grana – ou buzz, que também é uma forma de ganhar em cima daquilo que não é seu – temos um problema. Um problema ético, moral e jurídico.
É o caso da página “Gina Indelicada”. Conseguir reunir um milhão de pessoas em torno de um único conteúdo, acaba se tornando de forma natural um modelo de negócios. O conteúdo passa a ser uma ponte de ligação para publicidade e outras formas de faturamento. Neste caso, pela própria matéria da Época, o dono da página está vendendo camisetas* com a personagem que pertence a um empresa – sem autorização desta – e estaria aberto a vender conteúdo patrocinado.
De um lado, temos a liberdade de criação, de remixar as ideias – sejam elas públicas ou não – um dos principais predicados da internet. Criar novas releituras para personagens do cotidiano que fazem parte de nossa história. O criador da página nada mais fez que conferir uma personalidade a Gina – antes uma fria moça com sorriso congelado na embalagem de palitos. Personalidade esta sarcástica, engraçada e inteligente. Nunca mais, depois da “Gina Indelicada”, você olhará para essa caixa de palitos da mesma forma – o que também abre uma outra discussão, já que a marca tem uma estratégia de marketing traçada. Do outro lado, o direito à propriedade intelectual.
Se a página vai continuar ou não, isso ninguém ainda sabe, e a empresa está numa situação complicada. Pode faturar muito fazendo uma lucrativa parceria com o “dono da ideia”, já que um milhão de fãs engajados em um conteúdo é o sonho de qualquer estrategista em mídias sociais. Ou, o que é a minha aposta, entrar com um processo judicial, seguindo a lei, e pedir a retirada do conteúdo do ar. Se teremos ou não a nova Gina online na próxima semana? Porque vamos convir, sem nenhum investimento de fato, a empresa já tem uma presença digna de palmas no Facebook. Que os donos da marca não se prendam apenas à lei e percebam que a internet potencializa aquilo que eles buscam desde 1947. Não vá, Gina. Fique!
* As camisetas não são vendidas pelo dono da página “Gina Indelicada”, mas por outra empresa que nada tem a ver com o estudante.





