Se Crô luta contra homofobia, porrãn…

Por Murilo Araújo comentários

Marcelo Cerrado
Foto: Divulgação/Rede Globo

Passeando pela internet outro dia, esbarrei com a notícia de que Marcelo Serrado andou dizendo por aí que Crodoaldo Valério, ou “Crô”, o seu personagem na novela das oito, ajuda a combater o preconceito contra os homossexuais. Minha primeira reação foi provavelmente essa que você está tendo agora, procurar em que site de piadas foi que esse negócio saiu. A ingrata surpresa é que o cara estava falando “sério”.

Fiquei me perguntando sobre o que é que essa gente entende por “luta contra o preconceito”. Porque, pelo que me lembro, antes mesmo do início da novela, o autor Aguinaldo Silva (e quem mais seria?) já dizia que teria um personagem gay, mas que não estava nem um pouco interessado em fazer militância. Queria apenas mostrar “o que o povo gosta de ver”. E eu poderia acabar meu texto aqui. Alguém acha mesmo que um autor que diz isso, está realmente interessado em combater algum tipo de preconceito? Ao que parece, trata-se exatamente do contrário.

Mas Marcelo Serrado, subvertendo as intenções do autor, vê que o seu personagem é um paladino na luta pelo respeito aos homossexuais, e segundo ele, por motivos óbvios. As crianças da escola de sua filha imitam animadamente os trejeitos do Crô, pessoas se fantasiaram de Crô no carnaval, além do fato, “claro de que estamos em 2012 e o preconceito já deu”. Mas ao mesmo tempo, o ator já declarou que não gostaria de um beijo gay por causa da mesma filha, e isso inclui, as crianças da escola que o imitam.

Por favor, uma pausa para poucas risadas. A posição dele é idiota ou é só ingênua?

Observo Crô, do alto de seu topete bem penteado, e enxergo apenas um grande eufemismo no debate sobre o preconceito. O máximo de violência que ele sofre são as grosserias da idolatrada patroa, que não carregam nenhum conteúdo marcadamente homofóbico. Sua sexualidade até é representada, só que sem a dimensão do afeto, do carinho, resumindo-se à grande pergunta sobre quem é o seu amante misterioso. E as grandes apostas vão para o motorista machão que ele vive provocando, e que o Brasil passou a ver como uma grande bicha enrustida.

Penso no teor das piadinhas que os telespectadores fazem todos os dias no horário nobre ao se depararem com esse enredo. Posso mesmo chamar isso de luta contra o preconceito? Ou devo considerar que Aguinaldo Silva acaba incentivando exatamente o contrário?

Haverá quem argumente que nós gays nunca ficaremos satisfeitos com a representação dada na grande mídia. Quando aparece o gay limpinho e heteronormativo, que nunca dá pinta, a gente reclama que ele não existe. Quando aparece a bicha pintosa e afetada, cuja sexualidade se resume a olhar a bunda de todo homem que passa, a gente reclama que é um estereótipo. Mas a questão aqui não é essa.

Não é preciso ir muito longe para sentir como pode ser diferente. A antecessora de “Fina Estampa”, “Insensato Coração”, de Gilberto Braga e Ricardo Linhares, só não teve o beijo gay porque a Globo (para variar) não permitiu. Ainda assim, ela conseguiu prestar o que considero um excelente serviço ao debate sobre a homofobia, com gays dos mais limpinhos aos mais afetados, a novela foi muito além da típica representação caricata e quase assexuada, colocando às caras os afetos, carinhos, amores, crises, armários e até mesmo a luta pelo direito à diversidade.

Vale mencionar especialmente o personagem Alfredo, vivido pelo fofíssimo Miguel Roncato. Um jovem expulso de casa por ser homossexual, e tristemente assassinado pela mesma razão num cruel espancamento homofóbico.

Não estou requisitando aos autores que façam sempre representações de homossexuais militantes e bem resolvidos. Apenas acho que não é impossível começar a tomá-los na sua integridade, nas diversas dimensões da sua vida, com suas crises, emoções, rotinas e inclusive com a sua sexualidade. E que ela não seja o principal ou o único elemento que os caracterize, para que não beire ao exagero. Em palavras mais simples, que personagens homossexuais sejam como todos os outros personagens de uma novela.

Além disso, que autores e atores sejam minimamente críticos com o próprio trabalho. Se não consegue sair da representação preconceituosa e caricata, por favor, não venha me dizer que ele contribui na luta contra uma violência que, na verdade, é até incentivada. Pra cima de mim e de todos os gays diariamente vítimas de preconceito, não, Marcelo. Não, Aguinaldo. Não, Rede Globo.

Se em qualquer instância o Crô ajuda na luta contra o preconceito, porrãn… O que é ser homofóbico, né?

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