Santa Hipocrisia
Por Fernanda Monteiro comentários

Se o julgamento de deus no juízo final dependesse apenas do discurso das pessoas, o céu com toda certeza teria um problema de superlotação. Quando tem imagem, citação e musiquinha no Power Point, então, aí é que podemos dizer que a salvação já pode ser impressa num certificado de qualidade do cristão.
Sabe, eu não vim falar de igrejas, de rituais institucionalizados. Eu vim falar de pessoas. E de um determinado tipo de pessoa – que infelizmente tem se multiplicado mais rápido que lêndea na cabeça de criança. São os maus-fiéis, ou fiéis-de-ocasião.
Por favor, percebam que isso aqui não se trata de uma crítica à fé ou a qualquer prática religiosa. Ao contrário, é mais uma manifestação de vergonha por aqueles que tratam a fé e os valores religiosos como uma espécie de cachecol: se você precisa, se enrola nele até o pescoço; mas muito convenientemente joga-o no fundo da bolsa quando a coisa esquenta e finge feliz que ele não está ali.
Eu não sou religiosa, e creio que isso mesmo me dê o direito de ficar duplamente revoltada com o que vejo diariamente, porque volta e meia as pessoas curtem me apontar como perdida, pecadora e toda sorte de adjetivos que tem como único objetivo me desqualificar na portaria do reino de deus. Mas veja bem, quem carrega um apelido como Profana não deve ser boa coisa mesmo. Então, só me resta esperar pra ver se esse Jesus vai passar mesmo por aqui na volta, que daí eu bato um papo com ele pessoalmente e vejo qual é.
Mas o que me entristece, é o tanto de maldade que há nas pequenas atitudes cotidianas, a mesquinharia, a mentira gratuita, o prazer em falar e fazer o mal, e jurar de pés juntos que não é isso! A satisfação que o ser humano demonstra em prejudicar o outro, mesmo que isso nem vá lhe trazer algum benefício. Sem falar no quanto as pessoas tendem a reclamar de sua má sorte, quando muitas vezes não passa de comodismo ou incompetência, e daí precisam puxar os outros pra baixo apenas pra não se sentirem sozinhos por lá, na merda.
Por esses dias rolou um clima engraçado lá em casa, e meu pai contava certa conversa que teve com um colega de trabalho, que se recusou a tomar uma cerveja com ele depois do expediente porque estava “cumprindo a penitência da Quaresma”. Mas conta o meu pai que esse mesmo colega passou o carnaval em Salvador tocando o terror em todos os sentidos que as palavras CARNAVAL + SALVADOR possam oferecer a um folião. E daí? Bem, e daí você AGORA vai lembrar de deus e de penitência? É assim que funciona, então? Fé sazonal.
Assim como tantas outras pessoas que passam o ano inteiro falando mal dos vizinhos, maltratando os mendigos, guardando o troco a mais, tramando pra ser promovido. E aí não come carne na Semana Santa que é para simbolizar o sacrifício.
Como disse uma querida amiga numa mesa de bar há menos de uma semana: “meu amigo, quer fazer um grande sacrifício? Vá visitar uma tia solitária, doe um prato de sopa”.





