Salvem o Jorge, não salvem a anta

Por André Pacheco comentários

São Jorge
Reprodução

E lá vem mais uma polêmica envolvendo aquele assunto chato pra caramba chamado religião. Um pouco antes da estreia da nova novela das oito – ou das nove, não sei qual o nome oficial a Globo tá usando – “Salve Jorge”, na última segunda-feira, dia 22, uma cambada de desocupados seguidores da seita de Edir Macedo resolveram colocar as manguinhas mais uma vez de fora.

Numa página no Facebook chamada Exército Universal – um nome que me faz pensar que a última coisa que esse povo parece gostar mesmo de pregar é a paz – os caras começaram a chamar todos os fiéis pra boicotarem a novela por causa do nome. “Salve Jorge” teria alguma coisa a ver com alguma outra coisa de alguma dessas religiões afro. Religiões estas, não custa nada lembrar, sempre como alvo de ódio gratuito da trupe “universariana”. Afinal, algo bem comum pra eles é causar discórdias, chutar santas e intrometer na política – pra asco da democracia. Mas, basicamente, a briga deles intercala contra os macumbeiros e contra os gays. É pedra pra tudo quanto é minoria.

A outra crítica dos militantes da Universal é que a trama também incentivaria o lesbianismo. Como se as mulheres fossem todas começar a colar velcro só porque a Tammy Gretchen dá o ar de sua graça. Faça-me o favor. Ninguém acorda sapatão porque viu na tevê outra sapatão. Se fosse assim, eu acordaria um excelente tenor depois de assistir meu DVD “Pavarotti & Friends”.

É viado? Toma pedrada! É filho de alguma entidade e vai pro terreiro? Toma pedrada! Ouse postar uma frase de Chico Xavier no seu mural do Facebook e veja se não vem pedrada. E, ironicamente, se você levantar uma palavra sobre qualquer pouco direito constitucional que algum desses grupos deveriam ter, lá vem a bordoada de falatório onde se escuta o bordão da “liberdade de expressão”. Liberdade de expressão é diferente de liberdade de difamação.

Davi, aquele rapazote da bíblia que derrubou um tal de Golias, deve tá um orgulho só de ver que virou tendência. Ainda mais tendência num país que era conhecido até alguns anos como uma terra do sincretismo. Um país onde se era comum comungar na igreja católica e tomar banho de manjericão pra espantar o mal-olhado. Um tempo que não volta mais graças às seitas que se fantasiam de Davis, saem por aí jogando suas pedras e comprando canais VHF, UHF. E o que sobra pra riqueza religiosa desse país é alguma palavra que começa “f”.

Mas aí nessa história do boicote a “Salve Jorge” – que na minha opinião não deve deixar de ser vista pelo nome, mas pela trama mesmo, porque vamos convir que o estilo Glória Perez já cansou e deveria ter ficado pra sempre na Índia – acontece algo mais esdrúxulo ainda. Em seu blog pessoal, Edir Macedo fez um post perguntando se os telespectadores vão assistir São Jorge ou Davi. O seu canal, a Record, está reprisando a série bíblica “Rei Davi”, que teve relativo sucesso de audiência no começo deste ano.

Sim, a emissora do bispo tá reprisando uma produção recente só pra fazer picuinha com “Salve Jorge”. Não me assustaria nada se a direção do canal começasse a usar a série da mesma forma que o SBT usa “Chaves”, como uma espécie de quebra galho pra segurar a audiência.

De certa forma, é até aceitável que Edir Macedo lance mão de uma produção bem das capengas pra tentar salvar o seu canal de uma bancarrota financeira, principalmente depois de amargar quedas significativas na audiência. Mas, ao meu ver, antes fosse só o nível técnico e subjetivo da programação os responsáveis por certo repúdio à Record – nível que também está presente no R7 e na Record News. A falta de respeito incentivada ao rebanho da Igreja Universal por si só já garantiria um ou outro pulo de canal e falta de apego à grade. Talvez nem todos os brasileiros sejam tão abertos aos engodos de Macedo e ainda carreguem um certo sincretismo. Ou talvez, seja apenas São Jorge lutando contra as pedras dos falsos profetas.

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