Por um mundo em que o ex da Adele possa amar a quem quiser
Por Murilo Araújo comentários

Se as pessoas se encantam tanto pelas maravilhosas músicas de Adele, se usam tanto a voz da cantora para embalar as próprias crises, se têm tanta vontade de chorar e cortar os pulsos quando a ouvem, deve ser porque sentem muita verdade naquilo que ela canta. E é exatamente essa a razão. Não é novidade para ninguém que a maior parte das composições da diva britânica surgiu das profundas decepções que ela viveu em uma carreira amorosa não tão bem sucedida quanto a artística.
E mesmo que ninguém saiba muitos detalhes de cada uma dessas decepções, uma das histórias é relativamente mais famosa: todo mundo já ouviu ao menos alguma coisa do que foi o romance que a fez compor as principais faixas do álbum “21”. Nos últimos dias, porém, tem sido divulgada uma biografia não autorizada da cantora que promete revelar outra dessas histórias. Neste caso, a desilusão que teria servido de inspiração para as composições do primeiro disco, “19”.
Segundo o autor do livro, este primeiro romance teria sido com um rapaz bissexual. Diga-se de passagem, até aí também não há nada de novo. A própria Adele menciona em seu site oficial um pouco do que foi esse romance: “[A música] Daydreamer é sobre um rapaz por quem me apaixonei. Ele era bissexual e eu não consegui suportar isso. Todas as coisas que eu desejava de um namorado, ele nunca pôde me dar. Eu realmente tinha ciúmes dele, e era preciso competir com garotos e garotas”.
O que aparentemente seria novidade na biografia é a história de uma traição não mencionada até então. O autor conta que o tal ex-namorado teria resolvido acabar com a magia do relacionamento ao ficar com um dos amigos gays da cantora. Isso mesmo, Adele teria sido trocada por um homem. O livro até chega a narrar casos da sua infância e adolescência, mas esse é o principal foco dos relatos. Por sinal, é em cima disso que tem sido construída toda a sua publicidade.
Talvez essa seja mesmo uma história com muitos motivos para ser contada – e cantada, coisa que Adele já faz divinamente. A única coisa que me intriga nessa confusão de bafões é que as pessoas têm deixado de lado qualquer outra coisa para se incomodar exclusivamente com a sexualidade do rapaz. É o assunto mais comentado quando se fala da biografia. A traição deixa de ser o maior dos problemas; o problema é ter sido traição de um homem com outro homem. Ter sido traída por um amado e um amigo não deve ter sido a parte mais difícil para a cantora; difícil deve ter sido ser trocada por um homem.
Li no Twitter o seguinte comentário: “agora dá pra entender as músicas da Adele: não basta ser gorda e corna (sic), tem que ser traída com outro cara ainda”. Quer dizer, não basta ser fora dos padrões de beleza, tem que namorar um cara fora dos padrões de sexualidade também… Não deve haver humilhação pior.
Se bem que, por outro lado, consigo pensar também em quem deve achar mais digna (ou menos indigno) uma traição com alguém do sexo oposto do que com alguém do mesmo sexo. Sou capaz de prever os comentários: “melhor ser trocada por um homem do que por outra mulher, porque aí eu sei pelo menos que o problema não é comigo, é com ele”. Um misto de machismo com homofobia, eu diria. Porque se o homem trai com uma mulher, não é porque ele é infiel ou coisa do gênero, é porque a namorada tem algum problema; se ele trai com um homem, quem tem problema é ele. O problema de gostar de pessoas do mesmo sexo. Se você pensa assim, um conselho: se liberta, amiga. E liberta as outras pessoas também. É um bem que você faz à sociedade.
E que fique claro que não estou defendendo ou condenando a postura do ex-namorado de Adele. Não pretendo analisar casos isolados, nem ser um guardião da moral e dos bons costumes. Me incomoda exclusivamente a mania das pessoas de patrulhar a sexualidade alheia sempre que pode, às vezes fazendo isso de modo disfarçado, como se estivesse se preocupando com outra coisa. Neste caso, a homofobia fica escondida atrás de uma espécie de defesa da fidelidade. Mas se o pivô da suposta separação fosse uma mulher, mesmo que alguma amiga muito próxima, talvez não houvesse tanto comentário, talvez o livro permanecesse restrito às estantes de alguns fãs, talvez nem fosse escrito ou publicado.
Também não estou questionando se a história é verdadeira ou só mais uma ficção criada para vender. Esta é outra questão. Me preocupo com o que tem surgido em torno da sexualidade do ex-namorado de uma cantora famosa. Até que algum dia alguém descubra que a história é falsa (se for falsa), muita coisa já terá sido destilada sobre o quanto é bizarro um homem ficar com outro homem. E isso é muito problemático. Por mais filho da mãe que esse cara seja, ele merece viver num mundo em que possa gostar de quem quiser, pegar a quem quiser, sem ninguém ter nada a ver com isso. Ele merece, a Adele merece, eu mereço… todo mundo merece.





