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Orgulho de ser besta

Publicado em Por André Pacheco

Não é de hoje que a bancada evangélica vem fazendo faniquito quanto a qualquer reconhecimento do Estado para a comunidade gay. Os motivos, sob uma perspectiva funesta, são até louváveis: estão defendendo a sua crença. Ora, estão mesmo? Até que ponto é interessante levantar uma bíblia, convocar uma marcha e disseminar o ódio?

Na sociedade bem como a conhecemos, há duas coisas suficientemente fortes para fazer qualquer par de olhos brilharem: dinheiro e poder. Ambos andam lado a lado, mas não necessariamente coexistem obrigatoriamente. Você pode ser rico, mas não ter poder. Você pode ter poder, mas não ser rico. Porém, se eles derem as mãos, melhor ainda.

Em um país como o Brasil, onde o povo é majoritariamente alienado e tende a se agarrar no misticismo para sustentar as bases de suas relações sociais, temos um caldeirão cheio para jogadas políticas atreladas à religião. Não sem motivo, uma das maiores redes de televisão pertence ao maior grupo neopentecostal do Brasil. Não sem motivo, vimos a ascensão de políticos pastores a todas as esferas do legislativo e executivo. Não sem motivo, o ataque institucional aos gays parte desses grupos.

É tudo uma questão de poder e dinheiro. Certos pastores pouco se importam com o seu rebanho, e fazem de tudo para disseminar uma ideologia que perpetue ainda mais a influência política, econômica e social. Para eles, o Brasil deve se tornar uma nação evangélica com a bíblia sagrada – traduzida e interpretadas por eles – no papel de Constituição.

A última tentativa disso que eu chamo de “mirabolante plano de enriquecimento rápido e poderio desenfreado” partiu da câmara de vereadores de São Paulo. Há poucos dias da Parada Gay, um político ligado à bancada evangélica entrou com um novo projeto de lei. Ele quer criar o dia do orgulho hétero.

É parte de um discurso maior. E, por mais que pareça, não é uma piada. O dia do orgulho hétero é uma faceta de velhas frases e dogmas. Câncer gay, pedofilia, promiscuidade, atentado à família, fim da liberdade de expressão, patrulha do politicamente correto… São bordões relacionados à comunidade homoafetiva, que escondem um discurso de ódio. Por mais que o exemplo seja clichê, Hitler usou de argumentos (naquela época) plausíveis para a população média da Alemanha e convocou uma caça aos judeus – e também aos gays, ciganos, eslavos.

Atrás de uma ideologia de “apenas defendemos os direitos da família”, a bancada evangélica ataca na linha de frente com frases como “os gays querem privilégios”. O povo, compra o discurso. Afinal, usar de um deus que promete mundos e fundos para uma população sofrida, é um ótimo negócio. A fé é uma arma fortíssima, e usá-la para garantir a supremacia é um investimento lucrativo.

O mais irônico nessa situação toda, é que parte do movimento evangélico faz o mesmo que a igreja católica manteve durante séculos. O que, a história mostra, resultou numa conhecida reforma puxada por alguém chamado Lutero. Eis que o mundo sempre volta para o mesmo lugar. O rebanho só mudou de dono, mas continua sendo besta.