O pop colocado na balança
Publicado em Por Luccas Belfort
Como eu sei que vocês, leitores fiéis do Vestiário, estão todos por dentro dos últimos acontecimentos no mundo pop da última semana, imagino que vocês também leiam outros sites, construam opiniões próprias e tenham maturidade suficiente para saber diferenciar o que presta e o que deveria ir pro limbo intelectual.
Dois acontecimentos foram muito importantes para eu refletir e decidir escrever esse artigo. Primeiro, o novo clipe da Lady Gaga, “The Edge Of Glory”, lançado na última quinta-feira. Depois, o show que deu início à nova turnê mundial de Britney Spears, horas mais tarde. Ambos os acontecimentos representam muita coisa na carreira das duas, e repercutiram de forma polêmica pela internet no último final de semana.
Tudo porque o clipe de Gaga decepcionou muito – convenhamos, é muito fraco! – e Britney estava mais uma vez subindo aos palcos para cantar os seus sucessos. O estopim para que minha mente incansável começasse a filosofar sobre os rumos que a música pop e os blogs especializados estão tomando, foi o comentário de um fã da Gaga – criativamente autointitulado Little Monster – após a visível decepção pelo novo vídeo: “E a Britney que é tão gorda que não consegue subir um degrau?”. Depois desse, ainda li uma chuva de insultos à Britney, chamando-a de gorda, desequilibrada, zumbi, “Zumbritney”, e por aí vai ladeira abaixo.
Horas mais tarde, 9 entre cada 10 blogs e sites de cultura pop comentaram as fotos e vídeos do novo show de Britney de uma forma bastante curiosa. A maioria – chequem no Google e depois comentem aqui se eu estiver mentindo! – fizeram algum tipo de piada ou comentário sobre a forma física da cantora.
Dançou direitinho todas as coreografias, inclusive a original de “I Slave 4 U”? Sim, mas tá gorda! Fez um esforço mínimo e regravou os vocais de todas as músicas pra fingir um playback melhor? Sim, mas tá gorda. Sorriu, acenou, abraçou fãs e fez piadinhas? Sim, mas tá gorda.
E só isso que importa. Britney acertou no palco mas errou na soma de calorias. Gaga – e seu inflado ego – estragou uma música poderosa com um clipe chulé, mas tá com um corpão de dar inveja! De repente, passamos a ignorar o trabalho e classificar o bom e o ruim como magro ou gordo. Desde quando a música, a arte performática e, por que não, o poder comercial de um artista está diretamente ligado a sua forma física?

Aliás, desde quando Britney Spears pode ser considerada uma mulher gorda? Mulheres que estão lendo, por favor, me digam que vocês não concordam com isso. Não gosto de admitir que hoje a boa forma física é mais importante que o talento e a visão artística. Acho triste, muito triste, que a imprensa influencie uma geração a, literalmente, pesar o artista antes de classificar a sua arte.
E pior, acho uma lástima que, diante da frustração óbvia, certos fãs tentem se basear na forma física de Britney para enaltecer um trabalho da Lady Gaga. Queridos, se a Britney de 2001 estivesse aqui, com um corpão incrível e super desenvolta em escadarias, o clipe da Gaga continuaria uma grande porcaria.
Eu posso até não ser um blogueiro influente no cenário pop atual, mas tenho minha consciência limpa por saber criticar a obra de qualquer cantora sem apelar para seus atributos físicos. E sou magro.





