O orgulho conveniente em ser brasileiro

Por Yhury Nukui comentários

Editorial
Na falta de uniforme reserva, Magno Prado competiu com uniforme cheio de alfinetes. Foto: Reprodução

Foram mais de dois bilhões de reais investidos para que o Brasil mostrasse um desempenho satisfatório nos Jogos Olímpicos de Londres – ou pelo menos representasse bem o país que será sede das próximas Olimpíadas, em 2016.

Mas, o que se viu nesta primeira semana completa do evento esportivo é que o COB (Comitê Olímpico Brasileiro) e a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) fizeram sobrar promessas e faltar ações. A situação do Brasil nas Olimpíadas é, no mínimo, vergonhosa – não por culpa dos atletas, longe disso, mas pela falta de incentivo, tanto do governo, quanto da torcida brasileira.

Ora, falta de incentivo, Yhury? Não foram mais de dois bilhões investidos? Sim, este foi o valor exorbitante gasto pelo governo para que o Brasil alcançasse pelo menos quinze medalhas, segundo previsão do COB, e temos somente a metade disso. A resposta para a falta de incentivo é mais do que clara. Sem mencionar supostos desvios, que acontecem em tudo que é feito por aqui e, principalmente, quando o assunto é o esporte, o investimento está sendo feito em lugar que não deveria – só não enxerga quem não quer ver.

Fala-se muito em estádios com tecnologias avançadíssimas, estruturas das mais elegantes, mas falta o principal: o atleta. Um campo de futebol do mais alto escalão não fará com que um jogador tenha um desempenho melhor. Falta investir em profissionais qualificados nas escolas primárias, local onde uma criança tem seu primeiro contato com o esporte. Na Ásia, América do Norte e Europa há uma grande valorização desta área, o que justifica a China, Estados Unidos e Reino Unido entre os três mais bem colocados no quadro de medalhas dos Jogos Olímpicos deste ano.

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Mauro Vinicius da Silva foi chamado de burro por uma torcedora brasileira, enquanto era aplaudido por britânicos. Foto: Reprodução

Entretanto, o que me motivou a fazer este artigo não foi apenas a falta de incentivo por parte do governo, mas da torcida que, na maioria das vezes, é famosa por seu “calor” em quaisquer que sejam os eventos – o que muitas vezes pode atrapalhar, como no caso das Olimpíadas. Falta, e muito, para que o brasileiro saiba se portar em grandes eventos esportivos como esse. Para ilustrar, vou utilizar um fato reportado pela Revista Época na tarde de domingo (05):

“O saltador Mauro Vinicius da Silva, de 25 anos, disputava a final olímpica do salto em distância. Segundo ele, estava difícil acertar o salto. Depois de queimar sua segunda tentativa, pisando na faixa proibida, a torcedora resolveu expor a sua opinião para quem quisesse ouvir: “Burro!”, gritou.”

A ofensa da torcedora, no entanto, não se sobressaiu sobre as palmas do povo britânico que incentivava o brasileiro a cada salto, para que ele pudesse dar o melhor de si ao seu país. Papel esse que deveria ter sido desempenhado pela torcedora que, provavelmente não entende absolutamente nada sobre atletismo e escolheu ofendê-lo.

Editorial
Cesar Cielo se desculpou por dar “apenas” uma medalha de bronze ao Brasil. Foto: Reprodução

Um dos grandes defeitos da maioria dos brasileiros é seu orgulho – conveniente – em ser brasileiro. Se o atleta alcança a medalha de ouro, fazem questão de exaltá-lo, mas se compete com alfinetes no lugar do zíper para não ser desclassificado, já que não possuía um uniforme reserva, dizem que ele “não fez mais do que a obrigação”.

Cesar Cielo chegou a se desculpar – sim, DESCULPAR – por ter dado “apenas” uma medalha de bronze ao Brasil. “Eu dei tudo que podia, mas não saiu a medalha de ouro. Peço desculpas. Era o que eu tinha [para dar]. Vou tentar melhorar. Espero que todos entendam essa mensagem”, disse.

Durante a manhã desta segunda-feira (06), o ginasta Arthur Zanetti encheu o Brasil de orgulho ao receber o ouro inédito na apresentação com argolas – mesmo não sendo o grande favorito da prova. Mas, independente ou não da medalha, deveria ser visto pelo Brasil como um herói.

É uma pena! Em um país onde só o futebol recebe um incentivo “adequado”, ter atletas do hipismo, atletismo, ciclismo e natação em uma Olimpíada precisa ser visto como uma vitória. Só se falam deles nas vésperas deste evento esportivo e nenhum investimento é exibido nos anos que antecedem a competição.

Se os atletas chegaram lá, foi por mérito e muitas vezes, com pouco ou nenhum apoio ou investimento. Estão nas Olimpíadas e fazem questão de exaltar seu orgulho em representar o Brasil – seja em primeiro, segundo, terceiro, vigésimo ou quinquagésimo lugar. O mínimo que se espera de um torcedor é que o apoie incondicionalmente e veja o esforço que fez o atleta chegar lá.

Quando este artigo foi fechado, o Brasil possuía duas medalhas de ouro, uma de prata e cinco de bronze.

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