O fantástico mundo gay das divas do pop
Por André Pacheco comentários
E dá-lhe tapa cara! Quando uma pessoa indagou Kylie Minogue no Twitter, em junho deste ano, do porquê dela não militar pelo direito dos gays se casarem, a cantora deu uma resposta pragmática. “Você dormiu por 25 anos?”, soltou na lata. Na época, se não me engano, eu até cheguei a aplaudi-la pela resposta. Clap, clap, clap!
Continuo ovacionando Kylie por sua cara e coragem de colocar os gays em seus clipes, turnês. Não apenas Kylie, mas toda uma leva de cantoras que têm neles um público fiel e fonte “eterna” de referências. Mas ao mesmo tempo, sinto um ar blasé nisso tudo. É como se os gays pra elas fossem todos iguais.
Parece que essas cantoras se trancaram há anos numa bolha, habitada apenas por lindos corpos esculturais, seminus e lisos. Nenhum pelo sequer nos rapazes, e sem contar o foco no falo. E só, mais que isso é uma drag aqui e acolá pra preencher a cota. Pois, em suma, o que elas fazem é reforçar o padrão Barbie – tão em voga entre os gays a partir de metade da década de 1990 como forma de mostrar saúde e se livrar, pelo menos visualmente, do fantasma da Aids – como o único aceitável num gueto de perfeição. Se elas militam, é por um tipo apenas.
Você pode dizer que há todo um conceito visual em cima desses trabalhos. E há, não um, mas uma série de conceitos. Poderia passar um parágrafo, ou um texto inteiro, só citando exemplos. Mas vou ser categórico e pular essa parte. Afinal, essas referências têm a mesma base, a mesma estética, a mesma pauta. Muda-se o personagem, talvez uma ou duas peças da fantasia. Porém, é tudo muito grego, muito escultural, muito perfeitamente desenhado e muito sexual.
Não existe nenhuma minoria tão rica de tipos como os gays. Isso é fato. Basta rondar por aí pra notar que tem todas as tribos, todas as cores e todas as formas. É como se os gays fossem um fio invisível que passasse por todos os lugares onde habita um ser humano. Mas, infelizmente, só há uns poucos tipos que ganham atenção especial dessas “divas militantes”. Kylie e Madonna bebem dessa fonte. Lady Gaga, um pouco mais freak, também. Britney Spears, que passa longe de diva e de militante, dá uns golinhos. E tantas outras. Mas essa água tem sempre o mesmo sabor, está sempre pronta prum consumo rápido e alienante.
Vários gays, claro, compram o discurso e fantasiam a perfeição, o que acaba transformando uma comunidade tão rica em aparências, em um grupo culturalmente pobre, focado apenas num padrão. E isso é tanto aqui no Brasil, quanto lá fora; pela globalização a maioria dos gays daqui se inspiram demasiadamente nas mesmas divas tipo exportação Made in US, UK, EU, AU e por aí vai. Talvez isso explique os tais subgrupos que existem no universo gay? Não sei, mas eu percebo uma ligação, pode ser uma relação de causa e efeito ou um ciclo vicioso. Talvez esses subgrupos expliquem por que diabos não há quase nenhuma união pra se tentar conquistar direitos? Vamos pra balada!
O foco do mercado é apenas nos músculos, nas ceras depilatórias e nos falos. Qualquer tentativa de se olhar fora da caixa parece ser rapidamente taxada de recalque.
Não desmereço a importância histórica, nem a carreira, de nenhuma dessas cantoras, principalmente por elas ajudarem a acabar com a invisibilidade gay. Isso é lindo, é importante, é revolucionário. Mas funcionou até um dado momento, pois agora fica apenas parecendo que elas se esqueceram que nem tudo é exatamente igual e padronizado. Não apenas o público-alvo em questão, mas o ser humano em si, é rico em diversidade. Seria legal se elas acordassem e vissem que o universo gay vai além da casa da Barbie.





