Nós queremos beijar na sua sala
Por Murilo Araújo comentários

Já ouvi muita gente falar por aí que o debate sobre o beijo gay na TV é uma discussão que beira o desnecessário. Eu mesmo já achei, principalmente por cansar de ver por aí supostos defensores dos direitos de LGBTs muito preocupados em mandar cartas de repúdio à Globo pela falta de beijo gay na novela, em vez de se manifestar aos governos contra a falta de políticas públicas de defesa da diversidade sexual. Às vezes, trata-se de um tremendo desvio de foco na hora de definir algumas prioridades.
Porém, a gente não pode negar que o beijo contribui. E talvez esteja mais no centro da discussão do que se imagina. Nesta semana, fomos testemunhas da imbecilidade de um jornalista da cidade de Joinville, Santa Catarina, que resolveu implicar com um simples selinho entre dois homens, durando nada mais que 03 segundos, em um vídeo da campanha do candidato a prefeito Leonel Camasão, do PSOL. Em editorial publicado no Jornal da Cidade, João Francisco da Silva chegou ao ponto de classificar o beijo como algo “tão asqueroso quanto alguém defecar em público ou assoar o nariz à mesa”.
Em declarações posteriores, tentando se explicar, o jornalista só piorou a coisa, apelando para o já ultrapassado “até tenho amigos que são”: “Não sou homofóbico, dois dos meus colunistas, que são meus amigos, são gays assumidos. Acho que os gays têm o direito de beijar como qualquer casal hétero, mas não quero que façam isso na minha sala (…) Isso apenas me agride, agride a sociedade e até as pessoas que não têm nada contras os gays”.
É esse tipo de discurso de ódio que me faz rever meus conceitos a respeito da necessidade do beijo gay. Diga-se de passagem, o jornalista João Francisco pode nunca ter levantado sequer uma pena contra um homossexual, mas conseguiu, sem muito esforço, legitimar o discurso de muita gente que espanca, tortura e mata por homofobia. Muitas ações violentas contra bichinhas afetadas ou casais que ousam trocar um pouco de carinho em público ainda são “justificadas” exatamente por essa conversa de que está tudo bem ser gay contando que fique no armário: não saia por aí “exibindo as suas preferências sexuais”.
Vale dizer que essa é uma lógica que poderíamos considerar engraçada, mas que eu acho hipócrita mesmo. Afinal, o que mais temos por aí são héteros esfregando as suas preferências sexuais na nossa cara. Conheço muitos gays que têm nojo mesmo de relações heterossexuais, mas que são obrigados a conviver com isso todos os dias na rua, na exibição exacerbada dos amores dos seus amigos no Facebook, ou em cenas cada vez mais picantes nas nossas novelas.
Por falar nelas, nem precisa ir muito longe. Avenida Brasil (que eu amo, que fique claro) está bem aí, exibindo com uma normalidade incrível um relacionamento poligâmico cuja base não é o amor, mas o dinheiro. Sem entrar no mérito da poligamia, onde está a sociedade conservadora nessa hora? Eu chuto uma resposta: certamente está mais ocupada desejando que a piriguete Suellen trate logo de converter Roni, o gay mais cobiçado do Divino – e da nação brasileira.
Como bem disse o deputado Jean Wyllys, em resposta ao editorial, o beijo gay na TV é pedagógico. Se mostrado de modo legítimo, sem as típicas caricaturas que a gente já cansou de ver na TV, ele coloca um assunto em debate, apresenta a normalidade dos nossos afetos, e deixa muito evidente para gente idiota que um beijo é sempre um beijo: uma demonstração de carinho válida entre quaisquer que sejam as pessoas, quaisquer sejam os seus sexos ou gêneros. Beijo não tem nada a ver com assoar nariz ou defecar em público, menos ainda com sexo no meio da rua – porque já cansei de ouvir gente falar de beijo gay como se fosse isso.
Para quem continua achando que temos coisas mais importantes para discutir do que um beijo numa novela, é bom rever os conceitos. Porque se a gente realmente se preocupa com a violência, é bom lembrar que ela começa pela invisibilidade.





