Mulheres, calem a boca
Publicado em Por André Pacheco

Sim, vocês todas devem se curvar diante de mim – um ser humano do gênero masculino – pois sou superior. E sabe de onde eu estou tirando os argumentos para sustentar a minha superioridade? Da bíblia. E não me venham com chorumelas feministas mesquinhas, a palavra do senhor é universal e não pode ser contestada.
Tem alguma dúvida? Vá em Efésios, capítulo 5, versículo 22: “As mulheres sejam submissas a seus maridos, como ao Senhor”. Okay, você pode refutar assim: “este trecho diz marido e eu não sou a sua esposa”. Então pulemos para Primeiro Timóteo, capítulo 2 e versículo 12: “Não permito à mulher que ensine nem que se arrogue autoridade sobre o homem, mas permaneça em silêncio”.
Está no livro sagrado, e não há como refutar. Se eu for em uma loja e a vendedora me informar um determinado preço, posso claramente dizer que quero pagar mais barato. E aí dela se ir contra mim, e aí dela mais ainda se estiver menstruada – “Quando uma mulher tiver a sua menstruação, ficará impura sete dias. Quem tocar nela durante esse tempo ficará impuro até o pôr-do-sol” (Levítico 15:19).
Eu tenho total prerrogativa de tratar um grupo inteiro à margem, afinal, eu tenho o meu direito constitucional de pensar o que eu quiser baseado nas escritas que eu julgar mais sábias. E dane-se a Constituição Federal de 1988 e qualquer cláusula da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Dane-se. Eu sigo a bíblia sagrada. E uso a máxima: “nem toda a verdade está na bíblia, mas tudo que está na bíblia é verdade”.
Amanhã mesmo estou encomendando uma série de outdoors que espalharei pelo Brasil inteiro. Colocarei as três passagens acima citadas depois de um garrafal “E assim disse DEUS:”. Ponto final. Se a justiça mandar tirar, é porque ela está tomada pelo feminismo fascista que quer ir contra o estilo de vida que eu prego e acredito. O que eu acredito é o certo, e a mulher escolheu ser mulher. É uma opção ser do gênero feminino, que nascessem homens, ora pois.
Não aceito que ninguém vá contra mim, e quero espalhar aos quatro cantos – e aos berros – a minha superioridade masculina. Se a mulher apanha em casa, é porque mereceu. Com certeza ela não se calou para o seu marido, ou quis – veja bem a que ponto chegamos, irmãos – trabalhar e ter independência. A família nuclear – conhecida como papai, mamãe e uma penca de filhos – está desmoralizada. A mulher se vê até no direito de fazer um curso superior, disputar uma vaga no mercado de trabalho comigo e eu não posso nem dar uns tapinhas que tem uma lei específica protegendo-as.
As mulheres mundanas querem ser um grupo privilegiado. Até um dia mundial específico elas têm. Um dia no ano e elas se acham as donas do pedaço. Alguém precisa lembrar que a palavra está lá, escrita há milhares de anos e não aceita reintepretação. Alguém precisa lembrar que foi a Eva quem tentou o pobre Adão com a maçã e toda a humanidade foi banida do paraíso. Como punição elas agora sofrem a dor do parto, e eu acho pouco. Por mim, elas já iriam diretamente para o inferno.
Apesar que, pensando bem, inferno pior que a Terra não tem. Afinal, tirar direitos e incentivar o ódio – e como consequência colocar todas as mulheres em situação iminente de perigo – já é uma punição e tanto. Mas isso não me basta, preciso jogar na cara, fazer marchas e espalhar outdoors para que a minha vida tenha um pouco mais de sentido e que o meu medo de cair em tentação seja menor. Por isso, calem a boca todas as mulheres, eu preciso me reconhecer como homem enquanto segrego vocês.





