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Jesus não é homofóbico. Já a escola…

Publicado em Por Murilo Araújo


Maverick Couch e sua polêmica camiseta. Foto: Reprodução

Um belo dia você acorda feliz, pronto para ir à sua aula, e na hora de se arrumar, escolhe aquela camiseta linda e diva, que você usa nos dias em que está a fim de exercer o seu direito de dar pinta e alfinetar gente preconceituosa.

Fica feliz de pensar que na sua escola, ou na faculdade, já não é necessário usar uniformes, entrar nos padrões, ficar igual a todo mundo… É um lugar onde se pode ser diferente, manifestar o pensamento e identidade até através da roupa que usa, aproveitando toda a liberdade inerente a um espaço evoluído onde se faz educação. Bonito, né? Só que não é bem assim que as coisas funcionam. Principalmente se a sua tal camiseta revolucionária resolver provocar conservadores cristãos com a frase “Jesus não é homofóbico”.

E seria muito bom se isso fosse apenas uma suposição pra encher o saco dos Malafaias espalhados por aí. Eles nos acusam de perseguição, mas, infelizmente, a homofobia de alguns cristãos não é inventada. Há alguns dias, em Ohio, nos Estados Unidos (e eu não me espantaria se a notícia viesse do Brasil), o estudante homossexual Maverick Couch, de 16 anos, foi proibido de entrar na escola onde estudava por vestir uma camisa com a tal frase. Como se não bastasse, ainda foi ameaçado de suspensão.

Eu, como bom católico (e gay melhor ainda), poderia fazer um enorme discurso sobre teologia inclusiva e falar o quanto a administração de uma instituição dessas está equivocada em não acolher uma mensagem tão “profética” e tão inclusiva. Mas pagãos, filhos de santo, adeptos de quaisquer outras religiões, agnósticos e ateus não têm nada a ver com isso. Sem falar que a questão também não é de fé.

O problema todo envolvido nesse caso é de liberdade, tanto de crença quanto de expressão. E principalmente, uma questão de compromisso com educação de qualidade. Me corrijam se eu estiver errado, mas até onde me avisaram, a função de uma escola é formar cidadãos melhores, críticos e conscientes, que respeitem as diferenças e que procurem um mundo mais decente pra todas as pessoas.

Na contramão disso, justamente num espaço em que se deveria gerar e incentivar debates dos mais diversos tipos, um ponto de vista desviante e provocativo é proibido. O diretor da escola de Maverick ainda tentou se justificar dizendo que a frase seria de “natureza sexual”, “indecente e inapropriada ao ambiente escolar”. Após a abertura de uma ação judicial, a escola tentou disfarçar o totalitarismo e permitiu que o estudante usasse a camiseta, mas apenas em uma data determinada. Os pais do garoto ainda mantêm o processo, a fim de que ele possa estampar suas ideias sempre que quiser.


A primeira coisa que me incomoda nessa ladainha toda é um suposto educador dizendo que uma frase que fala de Jesus tem conteúdo sexual. Me ajudem, porque eu não achei. Ainda assim, mesmo que tivesse, fico me perguntando se não seria justamente a escola o melhor lugar para se debater esse tipo de assunto. Ou vamos ignorar a importância da educação sexual? Ou vamos continuar pensando a sexualidade apenas como relação entre macho e fêmea, preocupados exclusivamente com a reprodução da espécie? Vamos usar o Gênesis para falar de sexualidade?

As coisas estão andando tão tortas ultimamente que começo a me perguntar se não sou eu quem está enganado com relação à postura que escolas têm que assumir no combate à homofobia (assim como a qualquer outra forma de violência). Não acho que faça o menor sentido uma escola precisar de intervenção da justiça para permitir que um aluno expresse o próprio pensamento, a própria identidade.

Por favor, repito, me corrijam se eu estiver errado. Mas se nem Jesus é homofóbico, nem Jesus, que as pessoas nem têm certeza se existe, não acho que seja função da escola assumir esse papel.