Faça amor, não faça Serra
Por André Pacheco comentários
Pra prefeitura de São Paulo, Haddad ganha com 56% dos votos válidos. E de nada adiantou Serra jogar baixo, alimentar o medo duma administração petista e financiar a contra-informação.

“Queimem ele! O candidato do kit gay!”, disse uma voz em alguma igreja de porta de botequim perdida por algum grotão conservador. “Despreparado!”, berrou o coronel politiqueiro duma região onde o IDH é europeu. “Haddad vai descontinuar esse programa, senhora!”, alertou a atendente de telemarketing enquanto assustava alguém do outro lado da linha. Mas não adiantou a campanha do medo. Após oito anos, a prefeitura de São Paulo deixa de ser da panelinha Serra-Kassab.
Quando cheguei de mala e cuia aqui ano passado, fiquei impressionado com algumas coisas. Um transporte público relativamente bom, ruas até que arborizadas, pessoas apressadas e focadas no trabalho, um serviço de saúde público melhor que o de Minas. Não que seja a cidade perfeita, mas em comparação a outras metrópoles do Brasil, está anos-luz à frente. São Paulo é o centro do Brasil. “A cidade do dinheiro, vá lá e fique rico”, me disse um tio enquanto me dava um tapa nas costas e desejava boa sorte pouco antes da minha partida.
Mas em pouco tempo, todo esse esplendor que tinha São Paulo foi pro beleléu. É muito fácil achar que está tudo muito bom quando se mora em bairros historicamente privilegiados pela administração pública. “Ou vocês acham que essa cidade é uma maravilha? São Paulo é além do mundinho mágico da Vila Mariana!”, expôs um professor durante uma aula na pós-graduação na Belas Artes. “Isso aqui é um pequeno Brasil, com áreas extremamente ricas fazendo fronteiras com bolsões de miséria”, completou o pensamento. “São Paulo também tem as favelas”, me veio à mente. Porém, ao contrário do Rio, as favelas daqui ficam escondidas entre os prédios, e só lembramos de suas existências quando misteriosamente alguma amanhece carbonizada.
Hoje, dia 28 de outubro, no segundo turno das eleições municipais, parece que São Paulo resolveu dar um voto de confiança pra mudança. Não a São Paulo dos pinheiros ou das marianas, mas principalmente a São Paulo sem metrô, sem saúde, sem árvores, a São Paulo de longe, que queima e é segregada. A última gestão do PT ainda causa certo repúdio, dá pra notar em qualquer esquina um tom de asco pra Marta Suplicy. Mas o medo de entregar a prefeitura nas mãos de Haddad foi menor do que o medo da possibilidade de continuar as mesmas políticas atuais.
O pupilo de Serra, Gilberto Kassab – que era do DEM e fundou um partido esquizofrênico – deixa o Palácio do Anhangabaú com impressionantes 48% de rejeição. Também pudera. Ele proibiu tanta coisa na cidade, além de declarar guerra das mais variadas, indo de bancas de jornal a sopas comunitárias pra moradores de rua. “São Paulo ficou mais cinza nesses últimos oito anos”, me disse uma amiga certa vez. Não sei como era a cidade antes, mas de fato, ela não respira alegria. Talvez por isso, creio eu, que toda a arte da campanha de Haddad tenha usado cores, texturas e formas de vários tipos.
Quando a campanha e as primeiras pesquisas começaram, levei um susto. O conservador ligado diretamente à seita de Edir Macedo, Celso Russomanno, parecia já preparar a decoração do gabinete. Não pensei em outra coisa sequer “São Paulo se livraria de Kassab pra se entregar a esse cara? O que esse povo daqui é, masoquista?”. Nem tanto. Russomanno só estava à frente por causa da rejeição a Serra e do fato de Haddad ainda não mostrara a que veio. Simples assim. Começou a campanha e o embate de propostas pra que o discurso moralista e vazio de Celso não vencesse.
No segundo turno, José Serra fez o que ele sabe fazer de melhor. Jogar baixo, alimentar o medo duma administração petista e financiar a contra-informação. Basta lembrar da campanha pra presidência em 2010 e toda a algazarra criada em cima de temas tabus e de direitos de minorias. Mulheres? Gays? Pobres? Negros? Mais uma vez foram os bodes expiatórios de Serra. Mas a diferença de hoje pra dois anos atrás, é que não só o PT, mas o eleitor médio, está vacinado. O PT se preparou, fez propostas, estudou a cidade. O eleitor médio fica a cada eleição mais maduro e preocupado com o que de fato lhe serve.
Outro fator, não podemos esquecer, são as redes sociais. Serra mentiu? Tá aqui o post no meu mural. Russomanno se embolou e não apresentou proposta alguma? Veja esse vídeo no YouTube. Tudo relacionado à eleição repercutiu mais que em 2010. As pessoas discutiram, falaram, postaram, se indignaram. O eleitor médio, não apenas o de periferia, não comprou as falácias. Pra que se preocupar com um kit gay se em São Paulo falta amor? Regiões que antes eram de um azul forte, ficaram um pouco mais vermelhas.
A eleição de Haddad parece ser mais que o fim da era Kassab-Serra. Pode também ser a prova cabal, o golpe de misericórdia após a eleição de Dilma pro Governo Federal, que o sonho de um Brasil sitiado por uma glória repressiva está cada dia mais distante. Não adiantou os gritos de apoio de Malafaia e de Edir Macedo, e é bem capaz de ter atrapalhado mais que ajudado. O sonho de Serra em continuar uma política que privilegia apenas alguns bairros de São Paulo, que humilha ainda mais a parcela mais segregada na “locomotiva do Brasil”, não acontecerá pelo menos nos próximos quatro anos.
Bem-vindo Haddad, que a cidade que eu escolhi pra viver, não pra ganhar dinheiro e ficar rico como pensou meu tio, fique mais alegre e menos carbonizada na sua gestão.





