Existe vida além do Facebook?
Por Ravel Brasileiro comentários

É engraçado como estamos construindo nossas novas formas de amizade, pelo menos online. Não existe mais isso de que todo mundo que temos nas redes serem nossos amigos, se é que já existiu. Adicionamos as pessoas por que são interessantes de alguma forma: ela parece ser bacana ou mesmo escreve sobre coisas legais. Ainda, adicionamos porque acreditamos que alguém passou no nosso processo avaliativo sexual e pode se transformar em uma potencial rapidinha no fim de semana, evoluir para algo além e etc.
E isso não é de tudo ruim, porque abre um leque de coisas que talvez você não conhecesse por outro meio. É maravilhoso quando você se sente sozinho ou deslocado do mundo e encontra ali pessoas que são malucas exatamente como você. Ou simplesmente esbarrara numa pessoa que você julgue ser um possível relacionamento – a tal da “pessoa legal” que a gente sempre anda procurando. E tem mais. Sabe aquela coisa que você tem a maior curiosidade de experimentar? Então, sempre procurar vai achar alguém no Facebook que tope fazer. Algo do tipo trair o namorado – aquele que você ama – de forma que ele não vá saber nunca ou coisas obscuras que jamais teremos coragem de confessar.
Falando assim parece que é tudo muito bom, mas também pode ser uma merda. Criamos cada vez mais relações pessoais rasas, nossos relacionamentos passam existir somente no tempo que gastamos frente ao computador. Ficamos sabendo cada vez mais de coisas que realmente não queremos saber, já que os nossos interesses na tela do computador nunca são 100% iguais aos da outra pessoa.
Não que é todo mundo que está preocupado em ajudar menininhos com câncer, ou saber quem espancou o cachorro, quem esquartejou o marido, e, sei lá, não está a fim de se interar sobre os novos lançamentos do mundo pop. Porque tem gente que se sente na obrigação de compartilhar tudo, tudo mesmo, sem o menor senso.
Caímos aí numa roda gigante de gostos e pontos de vistas diferentes. Há pessoas que conseguem manter o crivo. Mas o que fazer com aquelas outras que – mesmo que não te acrescentem em nada e te irritem muito – não podem ser excluídas na cara dura por qualquer motivo que seja?
A solução veio com o cancelamento das assinaturas. Fazer isso é uma bênção. Eu paro todos os dias na frente ao computador e repito: “obrigado meu deus por eu poder cancelar a assinatura”. Podemos selecionar o que vemos e não será necessário domar os nossos sentimentos e contar até mil para que não entremos em uma briga com alguém que cospe as coisas na timeline.
Mas daí você também corre o risco de alguém cancelar a sua assinatura. E isso pode ser, digamos, um problema. Você começa a tentar filtrar as coisas que está dizendo, pois “aquela” pessoa que você quer que lhe ache interessante te veja de uma forma mais legal. E, principalmente, que ela nem sonhe em não assinar o seu feed de notícias.
E a partir desse filtro damos vida a nossa persona de internet, o personagem que nos representa tão bem nas redes sociais. Isso não parece imoral, pois de toda forma ainda é você. Aquela foto linda é você, mesmo que tenha sido repetida três, quatro vezes até o melhor ângulo. E aquela resposta bem formulada? Foi você quem deu, ué – mesmo que tenha ido ao Google pra construir o seu argumento um pouquinho melhor. Nossas personas nunca deixam de ser nós mesmos. É um “eu” que eu gosto mais. Um “eu” que é mais safadinho, mais inteligente, mais sagaz, mais irônico quando precisa. Aquele “eu” legal, que controla os sentimentos. Um “eu” que me dá orgulho.
O problema é que esse “eu” é um pouco distante do “eu” no cara a cara, do “eu” mesmo, do “eu” que não é tão bonito como na foto ou que demora um pouco mais pra dar uma resposta sagaz. Acabamos nos frustrando, e também as outras pessoas. Acho que é importante criar um balanço do que eu quero mostrar e do que eu sou de verdade. Temos de ter cuidado com essa tênue linha, onde em qualquer momento todos nós podemos nos perder.
Aprender dia após dia que aquele avatar sobre uma timeline não é sua vida de fato – apenas aceite isso como parte da sua vida, não como ela inteiramente. A vida é além disso! Há tantas outras coisas maravilhosas e legais para se aprender. Gente que realmente é interessante, ou não, fora da fria tela do computador. Saia um pouco do Facebook e veja como algumas pessoas soam desinteressantes na vida real, e aprenda com elas qualquer coisa que seja. Ainda tenho esperança que estejamos conseguindo manter um lugar para que possamos ir quando não quisermos mais compartilhar nossas vidas num site esperando likes.
Porque se não estamos criando essa outra vida, antes chamada apenas de vida, para o nosso verdadeiro “eu”, vamos todos acabar velhinhos na frente de computadores e não sei vocês, mas eu não quero isso para mim.





