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Eu sou RICA!

Publicado em Por Fernanda Monteiro

Arte
Arte: André Pacheco

Outro dia minha irmã chegou em casa transtornada. Bullying. De novo. Mas dessa vez eu me senti especialmente incomodada com a situação, e não é apenas porque ela é uma criança de onze anos, e nem porque quem está fazendo isso é outra criança com a mesma idade. É, principalmente, porque agora se trata de um novo argumento.

Não é mais o “gorducha”, “baleia”, “rolha-de-poço” e derivados – que sabemos atingir a tantos pelo mundo afora mas que, francamente, pelo menos até aqui já ensinamos ela a superar. É algo que pareceu incomodar bem mais.

Estou aqui pensando que tem algo muito errado na nossa sociedade, um problema bem grandão nas prioridades do núcleo familiar. Estou aqui pensando que a família brasileira está lutando firmemente contra cenas de beijo gay, enquanto seus filhos estão na escola dizendo aos outros – no caso, à minha irmã – que podem inventar o que quiserem; podem mentir e tecer histórias, porque suas famílias têm dinheiro e eles nunca serão castigados.

EU SOU RICA! – berrou a menina no colégio.

E, por favor, se alguém aí, por um segundo, pensar “ah, isso é coisa de criança!” pelo-amor-de-deus nem se dê ao trabalho de deixar isso nos comentários, porque eu vou botar seu nome na macumba. Sabe, não é como se fosse um filme da Lindsay Lohan, não é o pré-vestibular e suas picuinhas em busca de status (o que já é grave, em certa medida, mas fatalmente já traz a carga de muitos anos de exposição a maus exemplos).

É uma CRIANÇA, de 11 ANOS, com um perfeito senso de impunidade. Da corrupção que o dinheiro exerce sobre outras pessoas.

É verdade que criança não tem maldade? Se for, com quem essa criança aprendeu esse discurso desprezível? ( ) com os pais ( ) na escola ( ) na TV ( ) todas as alternativas ( ) nenhuma.

Eu quero saber com quem eu tenho que reclamar. Porque dói, sabe, ver a sua irmã de onze anos chegar em casa chorando porque simplesmente não sabe o que fazer. Porque disseram pra ela que não importa o que ela diga, a sua palavra não vale nada. Porque afirmaram que, não importa o que aconteça, o castigo não virá. “Porque eu sou rica!”.

Então, nesse momento eu não sei se: a escola tem que acompanhar mais de perto o “way of life” das crianças, o núcleo familiar; se os pais estão omissos ao que as crianças estão aprendendo na rua (e na escola!); se as crianças devem mesmo ter seu tempo de exposição à televisão e à internet rigorosamente controlados, bem como o conteúdo ao qual têm acesso; ou se algumas pessoas simplesmente nascem ruins, aqui e ali, não importa de onde venham ou que tipo de educação elas recebam.

Parece a mim a fórmula do Frankenstein, um retalho complexo de fatores biológicos e sociais que precisa de uma atenção digna da sua importância, do seu impacto; e se ainda não há uma receita que nos permita tratar isso de forma imediata, é urgente que se comece a trabalhar nela, com todos os setores envolvidos.

Mais cedo ou mais tarde a minha irmã vai esquecer isso, superar, partir pra outra, enfim. A minha preocupação não é o trauma que isso causa nela, porque podemos lidar com fantasmas. É o trauma que a propagação desse contexto causa para a sociedade, esse circo bem montado com prioridades cada vez mais falidas, enquanto negligenciam problemas mais urgentes, que estão dentro da nossa casa.