E elas, no fim, sempre obedecem
Publicado em Por André Pacheco
Eu já estava, como se diz em Minas, aninhado pra dormir quando a Beyoncé, enfim, lançou o tal clipe da tal música nova. “Run The World (Girls)” depois de toneladas de especulações e teasers veio ao mundo. Confesso não ir muito com a cara da cantora, no máximo “Single Ladies” ou “Crazy In Love”.
Mas, de certa forma, esperava por este vídeo com uma ponta de ansiedade, por mais que eu tenha detestado – e continuo detestando – a faixa. Quer eu goste ou não, seus vídeos são bem feitos, em alguns casos até trazem um conceito bacana. E, claro, as coreografias são de babar. Mas não é o caso de “Girls”. Não mesmo.
No fim das contas, o vídeo de “Run The World (Girls)” é, sem pestanejar, uma grande porcaria. Perda de tempo. Disse no Twitter, e repito: foram cinco minutos jogados fora. Se tivesse dado de ombros e ido dormir, não teria perdido o sono e nem estaria escrevendo este texto agora.
Mas existe o ponto crucial da minha indignação. É a hipocrisia, ou talvez deva chamar de paradoxo, da “cantora do milênio”. Os fãs adoram repetir aos quatro ventos, a própria se vende assim e todos fingem acreditar no discurso de que Beyoncé é feminista. Um expoente de uma nova luta da mulher num mundo, infelizmente, ainda dominado pela (dita) superioridade do homem sobre a mulher. M-e-n-t-i-r-a.
Antes de continuar, quero deixar claro que meu conhecimento sobre o movimento feminista é tão igual quanto o conhecimento de Amy Winehouse sobre qualidade de vida. O pouco que sei se deve a uma conversa aqui e ali com amigas feministas. Afinal, me formei numa universidade pública, e lugar melhor para movimentos de esquerda no Brasil, não existe.
O que sei do movimento feminista, em suma, é que ele busca uma equivalência dos gêneros, não existiria mais opressão do homem sobre a mulher, e nunca existiria da mulher sobre o homem. E, o mais importante que poucos sabem, as pessoas seriam livres de quaisquer amarras comportamentais baseadas na divisão por gênero.
Beyoncé não fez nada de feminista em “Run The World (Girls)”. Ela convoca uma luta contra os homens, e não o diálogo. A arma usada para reverter a situação de submissão é a bunda, mantendo o mesmo paradigma. Mulheres são objetos dos homens, no vídeo representados por policiais – os vigias do sistema. E, a única coisa que o exército revolucionário de Beyoncé faz para poder levar as mulheres à dominação, é dançar.
No fim, a guerreira vestida com as melhores grifes bate continência para o paredão masculino. Eu quase me contorci com tamanha reviravolta. Ela se rendeu! E eu pergunto, “lutou” pra quê? Dançou que nem uma aloprada e convocou um exército para na hora de chegar ao poder, mostrar a mesma submissão que ela dizia lutar contra.

Sim, a continência é um ato mútuo. Independente da hierarquia, deve haver o que no exército é classificado como “sinal de respeito”, porém, algumas ressalvas quanto a ordem do ato. No vídeo, quem presta continência primeiro? E, outro ponto, só as mulheres levaram a mão direita entreaberta à testa. Os homens, não.
A minha birra não é com o clipe enquanto um material promocional. Se é bem editado, bem coreografado e bem cenografado, não é o foco aqui. Eu só queria compreender o discurso da Beyoncé. Se vender como uma feminista que não é, e nunca foi. Convocar uma luta de gêneros e no fim continuar propagando a mulher como objeto de deleite masculino.
Isso, porque, nem citei a cena em que a cantora aparece com duas hienas domesticadas. Um símbolo de uma possível sociedade matriarcal, preso por uma corrente. A mensagem que a cantora me passou? “Mulheres, dancem e abusem da sensualidade, independente dos meios utilizados na luta, vocês sempre serão submissas aos homens”. E o mundo continua sendo nosso, girls.





