Deve ter cota pra tudo nessa vida, menos pra babaca

Por André Pacheco comentários

Limitar o debate das cotas a uma questão individual, ao drama de um pequeno grupo, é vazio. Por que não ir do outro lado do muro?

Você leu esta matéria da Veja? Chamada “O drama de estudantes – e famílias – afetados pelas cotas”, o texto foi publicado ontem, dia 30. Se não leu, leia. E vem comigo que o assunto aqui é “tenso”. Na verdade, é chato. Mas, sejamos sinceros? É bem necessário.

Dilma Rousseff
Dilma Rousseff sancionou Lei das Cotas em agosto. Foto: Reprodução/Roberto Stuckert Filho

Essa discussão sobre as cotas tá em pauta há um bom tempo. Desde que entrei na Universidade – pública, só pra deixar registrado – em 2004, já ouvia falar sobre isso. E sempre foi o mesmo lenga-lenga que estampa a matéria da Veja. Não quero entrar na discussão da linha editorial da publicação, porque não é o caso aqui. Mas se antes a abominação das cotas era somente por elas serem raciais – o que eu também sou 100% a favor – agora todo o discurso contrário e infundado vai por elas também serem sociais.

Sancionada em finais de agosto pela presidente Dilma Rousseff, a Lei das Cotas reserva 120 mil vagas da Universidades Federais para alunos oriundos da rede pública de ensino. É metade das vagas do Oiapoque ao Chui. E tem mais, a lei diz que será mantida uma porcentagem para alunos negros, pardos ou índios, mas dependendo da proporção deles em cada estado. Nada mais justo. Mas, se é justo, por que tem tanta gente contra? Há argumentos contrários, como em todo bom debate, mas você já pensou em tentar ir além nessa discussão?

Primeiro, tem a tal “melhoria da educação básica”, que nada tem a ver com a reserva das vagas. Educação básica não é responsabilidade do Governo Federal, e sim dos Estaduais e Municipais. O MEC apenas lança as diretrizes e repassa as verbas, além de avaliar como a coisa tá indo. Tá indo mal? Tá, e como! Mas cobre educação de qualidade no ensino fundamental e médio do seu prefeito e do seu governador. Até onde eu sei, as escolas federais de ensino médio, por exemplo, vão bem, obrigado – mesmo com a greve.

Segundo, e muito importante, é o argumento que as cotas vão piorar o ensino nas Universidades Públicas. Balela! Quem já sentou a bunda no banco duma federal sabe muito bem que nota no vestibular e aquela bagagem toda adquirida só pra passar não faz a mínima diferença. Repito: Não faz a mínima diferença. Falo isso por experiência própria, e em dois cursos distintos. E no mais, se o aluno está com problema em tópicos do ensino médio, taca ele numa tutoria que em no máximo dois semestres a gente resolve isso.

Claro que temos que melhorar o nível do ensino desse país. Não só o nível, mas o ensino como um todo. Escola deve preparar a pessoa pra vida, pro mundo, não pra decorar tabela periódica ou outras coisas que só terão aplicação prática em situações específicas. O básico tem que ser ensinado, e só. O que a escola deve, é criar uma parcela significativa da população com senso crítico e capacidade de interpretação. Por favor, deixemos de pensar que investir em educação é apenas gastar horas em decoreba pra conseguir aquela vaguinha bacana naquela faculdade “grátis”.

Porém, o que mais me chamou a atenção na matéria da Veja está na maneira como o tema foi abordado. Limitar o debate das cotas a uma questão individual, narrando o drama de um pequeno grupo? Por favor, isso é vazio. Se for assim, basta mudar de lado e falar dos dramas das várias pessoas que nunca puderam sequer sonhar com uma Universidade Pública. Ou, por que não pautar as pessoas que estão alegres por poderem entrar?

A gente vive num país dividido, onde a renda é mal distribuída – e com isso, as perspectivas de ascensão social são pequenas. Um reflexo disso está nas mesmas Universidades Públicas, que ganharam o status de um “fantástico mundo frequentado pela elite”. De todas as aulas que eu frequentei, por exemplo, eu contava no dedo quem veio de escola pública, e pior, quem era negro. E sim, só pra esclarecer, eu estudei em escola particular a vida toda, e justamente por isso, eu sei que no Brasil a meritocracia é um sonho distante da maior parte da população. Eu tive chance de viver a meritocracia, mas grande parte da população deste país, não. E nem sabe do que se trata, seja na teoria quanto na prática.

A meritocracia não deve ser um produto disponível apenas nas prateleiras acessíveis à classe média. Se é pra existir o “eu consegui, porque eu me esforcei”, que exista levando em conta as diferenças sociais e raciais do Brasil. Que tenhamos cotas pra pobres, negros, pardos e índios, já passou da hora. Só não pode é ter cota pra babaca.

Fechar

Contato ou mande um email para contato[at]vestiario.org

Nome
Assunto
captcha