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Deus e suas armas

Publicado em Por André Pacheco

Responda rápido: qual a diferença entre apontar uma arma para a cabeça de alguém e usar da fé cega como resposta para qualquer evento, natural ou não? Os dois são coação: “Constrangimento eficiente exercido sobre uma pessoa de maneira direta ou indireta, com o escopo de lhe impedir a livre manifestação da vontade. A coação pode ser física ou moral”.

A primeira situação, traumática para quem sofre, pode levar à morte dependendo apenas da boa vontade de quem porta o revólver. A segunda, traumática para a toda a sociedade, vai além e tenta enxergar por trás da cortina. As duas trazem medo, despertam lembranças negativas, retratam como o ser humano não é tão evoluído como acredita.

Continuamos, em nossa essência, medrosos. Possuímos medo por ainda não termos descoberto o sentido da vida. “Quem sou eu?!”, “de onde vim?!”, “para onde vou?!”. Ó, vida. Ó, insignificante e fugaz existência. Ó, deus! Ó, força superior que rege o universo… Você está aí, né?!

O ser humano enxerga na necessidade de se conectar com o místico uma maneira rápida de encontrar as respostas. E, até hoje, depois de inúmeras guerras ou descobertas magníficas da ciências, ainda esbarramos em autointitulados sacerdotes que se dizem especiais. Que, munidos de arrogância, se dizem receptores das verdades de um deus.

A questão toda se concentra na morte. Que soem as trombetas do apocalipse! Que abram o livro da vida! Que matem os infiéis! Que deus nos acuda! O fim começou!

Morte é poder, justamente por fugir ao tátil. Tente explicar a morte. Impossível. A morte desperta na nossa espécie – na verdade, na nossa cultura – sentimentos de incapacidade, incompreensão, medo. A morte é poderosa. Não adianta termos descobertas científicas que provem por A mais B que a fé cega é um atraso, sem resolvermos esse detalhe. A morte nos coage o tempo todo.

Enquanto existir a morte, existirá a necessidade de se armar contra ela. Estamos em guerra com a morte. E, ela sempre vence. Ela é implacável, coerente, coesa, onipotente e onisciente. Mas, não adianta lutar contra, é melhor lutar junto. Assinamos um tratado paz.

Fizemos um acordo com a morte. Demos nome e traços humanos. Dizemos que ela criou o mundo em seis dias e descansou no sétimo. Acreditamos que ela enviou seu filho para nos salvar de sua própria ira. Afirmamos que ela tem regras morais rígidas. Mas, a questão é: o que ela nos dá em troca?

Alguns se aproveitam desse pacto silencioso, feito ao curso da nossa história. Como sequestradores armados até os dentes, os generais do exército da morte empinam seus livros, compartilham seus sonhos místicos, coagem os mais fracos. Qualquer um consegue ser um general da morte, basta ser criativo ou louco. Ou os dois.

Seja uma mulher que profetiza barbaridades como o “Japão recebeu o terremoto como punição por causa da homossexualidade nas forças armadas dos Estados Unidos”. Seja um terrorista islâmico explodindo um centro religioso no Paquistão. Seja um rapaz desatinado que atira em crianças no Rio de Janeiro.

Todos se veem de alma cristalina e generais da morte.