Desde quando pessoas do mesmo sexo não formam casais?
Por Murilo Araújo comentários

“Válido exclusivamente para casal (homem e mulher)”. Essa frase que muita gente julgou inocente – ou nem percebeu – foi motivo de revolta para alguns homossexuais que tentavam aproveitar uma promoção de comida japonesa em um site de compras coletivas hoje. Tinham toda razão.
Tudo bem, podemos tentar entender a postura do tal site, que deve ter disponibilizado a promoção para um homem e uma mulher por suporem que mulheres comem menos, e que dois homens juntos poderiam dar algum prejuízo. Mas até aí há problemas. Primeiro por não considerarem a possibilidade de que fosse um casal de lésbicas. Segundo, porque até essa suposição é fruto de preconceito. Conheço mulheres que são verdadeiras ogras quando se sentam à mesa.
Mas o real problema na história toda foi o uso do termo “casal”. Deve ter gente por aí achando que é um mimimi muito grande a implicância que algumas pessoas – inclusive eu – estão tendo com essa palavrinha usada de modo tão “inocente”. Até porque, vale destacar, o tal site se comportou de maneira muito apropriada: rapidamente pediu desculpas aos clientes que se manifestaram, além de mudar a proposta apresentada. Mas não é essa a questão. Não estou aqui gastando o meu tempo e o de vocês para falar de um problema isolado, ou fazer a caveira de uma empresa.
A questão é outra. Estamos tratando de violências simbólicas que acontecem em expressões mínimas, espalhadas no cotidiano, mas que, no fim das contas, representam um problema muito maior. E assim sendo, não dá para deixar a discussão passar.
Não é a primeira vez que vejo lojas e empresas fazendo ofertas especiais para casais, se referindo sempre àqueles formados por homem e mulher. Ano após ano, somos testemunhas de muitas promoções de dia dos namorados que nunca são expansivas a relacionamentos gays, por exemplo. E desculpem, mas pelo significado que consta no meu dicionário, a partir do momento que sou impedido de usufruir de alguma coisa que outra pessoa pode, estou sendo vítima de uma discriminação – que pode não ser necessariamente ruim, mas que, neste caso, é muito.
Fico pensando: quantos companheiros de longa data não podem ser inseridos como dependentes em planos de saúde ou carteirinhas de clube? Quantos não têm direito à herança ou pensão? Quantos não são autorizados a responder sobre tratamentos emergenciais em hospitais, para companheiros que estejam em grave estado de saúde?
Posso estar parecendo exagerado, indo muito mais longe do que seria necessário, mas é importante se dar conta de que cada uma dessas violências começa no não reconhecimento, ou no suposto “esquecimento”, de que gays também podem ser famílias, uniões, casais. E nestes casos, não dá pra vacilar: deixar passar um “pequeno deslize”, como o desse site, é se comportar como se a busca por reconhecimento fosse uma grande bobagem.
Pelo contrário, a invisibilidade é maior desafio que temos a enfrentar nesta sociedade heteronormativa que, se não nos reconhece sequer numa promoção de comida japonesa, nos reconhecerá muito menos na hora de nos conceder casamento, adoção e tantos outros direitos, ou na hora de nos proteger contra violências mais graves do que esta, que, infelizmente, ainda batem na nossa porta – e na nossa cara – todos os dias.





