Cantor ganha cover em “Glee” e ofende ator. Onde está a humildade da indústria?
Por Yhury Nukui comentários

Desde maio de 2009, quando o piloto de “Glee” foi ao ar, a série tornou-se sensação. Foram mais de nove milhões de telespectadores, suficiente para que ela voltasse a ser exibida em setembro do mesmo ano.
Cantores, bandas e grupos começaram a ver a série com bons olhos, afinal, abriria portas com seus inúmeros covers. A banda Journey que o diga. Depois do sucesso de “Don’t Stop Believin” na versão Glee, que na época tornou-se a faixa mais vendida de todos os tempos no iTunes – recorde que já não pertence à eles – e ocupou o quarto lugar na Billboard, enquanto a versão original, de 1981, ficou com o nono.
O fato fez com que Deen Castronovo, bateirista da Journey, viesse à público e agradecesse Ryan Murphy e sua trupe por trazê-los de volta ao mainstream, como fez em entrevista para a Folha de São Paulo:
Eles nos colocaram de volta no mapa. Estávamos indo bem, mas isso nos colocou no topo de novo.
Mas aí vocês me perguntam: “Por que esse artigo só agora?”. Bem, nos últimos dias, o recém-chegado nos charts americanos, Gotye, não tem poupado críticas ao cover de sua música, “Somebody I Used To Know”, feito no décimo quinto episódio da terceira temporada da série. Vale ressaltar que a faixa já era hit no Reino Unido e em outros países, mas o sucesso da faixa nos Estados Unidos deve-se parcialmente à “Glee”.
Ok, até aí tudo bem, já que ele não é obrigado a morrer de amor pelo cover. No entanto, o belga-australiano, que atualmente ocupa o topo da Hot 100 na Billboard, foi além e ofendeu Darren Criss, intérprete do personagem Blaine e um dos responsáveis pela faixa.
Foi inteligente ter dado a música para dois homens, mas aquele xilofone no refrão no cover é ruim, como também é na versão original, mas isso só me faz odiar ainda mais esta versão e achar Darren Criss um c***o”, disse ele. Mas depois da repercussão dos fatos, tentou contornar a situação.
Agora me digam, se era pra ofender alguém do elenco, não seria melhor que não tivesse liberado a música para a série? Como por exemplo fez o Kings Of Leon, em 2010, quando não disponibilizaram “Use Somebody” – o que tomou repercussões gigantescas e culminou em Ryan Murphy acusando o baterista da banda de homofobia, depois de algumas declarações que não soaram muito bem na imprensa.
Ou até mesmo o Coldplay que se negou, mas acabou se rendendo e deixando suas músicas ao dispor. “Fix You”, do álbum “X&Y” (2005), foi usada em uma bela cena no começo desta temporada. Mas ofender, como fez Gotye ou até mesmo o guitarrista Slash, do Guns N’ Roses, quando disse que “Glee é pior do que “Grease”, não os levarão para lugar algum.
Se antes, quando de fato era “moda”, “Glee” era admirada pelas pessoas, agora muitos já começam a julgar o cover antes mesmo dele acontecer. Mas, o que não se pode negar, é que a série da FOX gera enormes lucros para a emissora e abre portas para dezenas de cantores. Quer alguns exemplos?
“We Are Young” da banda fun. foi lançada como single em setembro de 2011, mas chegou ao topo apenas em março, alguns meses depois da faixa ter sido apresentada na série. E o The Wanted? Que não representavam nada nos Estados Unidos até o cover de “Glad You Came” explodir nos charts.
Exemplos maiores? Temos também. Quando Britney Spears foi homenageada com um tributo, lá no segundo episódio da segunda temporada, não só os covers foram muito bem-sucedidos no iTunes e Billboard, como muitas faixas da musa ressurgiram nos charts. “I’m Slave 4 U”, “…Baby One More Time”, “Toxic” e até mesmo “Gimme More” – que não foi usada pela série – foram algumas das faixas originais que subiram no iTunes apenas com a prévia do episódio.
A coletânea de Britney, “The Singles Collection”, lançada em 2009, também voltou aos charts da Billboard depois da grande audiência da série. “Teenage Dream” – que vendeu 214 mil downloads na primeira semana – gerou tanta repercussão que até Katy Paerry decidiu apresentar a faixa com Darren Criss durante um evento em 2010. E você acha que isso não gerou ainda mais vendas para ela?
De acordo com o Music and Money, um site especializado na indústria fonográfica, ter uma música em “Glee” faz com ela tenha uma audiência de 11 a 24 milhões de pessoas nos Estados Unidos, sem contar em outros países.
A série paga cerca de 9,1 centavos por cada download no iTunes de determinada música ao cantor original e seus respectivos compositores, fazendo com que eles ganhem de quatro mil e quinhentos até dezoito mil dólares com a faixa, isso apenas na primeira semana.
No entanto, inúmeros covers de “Glee” permanecem por várias semanas, mesmo depois do episódio ter sido exibido na tevê, como é o caso de “Forget You” – originalmente interpretada por Cee Lo Green – na voz de Gwyneth Paltrow, que já vendeu mais de 600 mil downloads legais. Se uma canção da série toma proporções gigantescas e torna-se um “smash hit” das rádios, passando a tocar por meses, os responsáveis pela faixa podem ganhar mais de oitocentos mil dólares nos primeiros nove meses.
Para produzir um único disco da série – eles já possuem doze álbuns e cinco EPS lançados – são gastos um milhão de dólares apenas com royalties nos Estados Unidos. E ainda existem pessoas que acreditam que isso não traz retorno aos intérpretes originais? Se não trouxesse, Glee não seria o oitavo maior artista com mais vendas digitais na história da música, não teriam quebrado recorde dos Beatles e não teriam emplacado a 200ª canção na Hot 100 há exatamente uma semana.
Para um artista como Gotye, que começou agora a esquentar nos charts da Billboard americana, declarações como essas podem ser vistas de modo negativo, fazendo com que ele seja conhecido apenas com “Somebody I Used To Know”. Falta humildade – e muita – não só pra ele, que só foi usado aqui como uma ligação, mas para outros inúmeros artistas da indústria que se sentem os reis e estão bem longe disso.
Talvez ele passe a ser alvo de brincadeiras da série, como foi o caso de Miley Cyrus com “The Climb”, ainda na primeira temporada, ou então será ignorado como aconteceu com o ator Drake Bell – uma pausa para você procurar no Google e lembrar quem ele é – que declarou em uma entrevista não querer nenhuma de suas músicas em “Glee”, porque “eles pegam grandes canções e fazem algo sem brilho algum. Meu ouvido dói de ouvir uma música que cresci amando, sendo cantada por um grupo de crianças gritando”.
A questão é: Ryan Murphy, Brad Falchuk ou Ian Brennan já demonstram interesse pelas faixas dele? Artistas acabam perdendo grandes oportunidades por não saberem ficar quietos na hora que deveriam.





