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Até que a morte os consagrem

Publicado em Por Wesley Muniz

Não é de hoje que quando um grande nome, outrora esquecido, se ausenta definitivamente da existência física, surge uma grande massa, maior do que a originalidade fanática, dizendo que “sentirá saudades”.
Whitney Houston
Foto: Divulgação

A morte é o fenômeno mais natural que o ser humano pode temer, mas nunca poderá ser evitada. Ela é considerada o último estágio de uma unidade biológica conhecida como “ser vivo”. Mas ao contrário do que muitos insistem em pensar, ela é também um estágio para a manutenção da vida. E apesar da não existência do corpo físico, ela sempre vai trazer lembranças, isso se a pessoa não se deixou cair na insignificância – o que é quase impossível.

Mas a morte é apenas um dos temas tratados neste texto. O resto fica por conta da hipocrisia que domina tanto os hits parades, a mídia e, principalmente, os pseudofãs dos grandes nomes da música que morrem após anos fadados na amargura. Para algumas grandes estrelas, o fim acaba sendo, literalmente, o último suspiro de sucesso.

Não tenho o direito de questionar o sentimento de ninguém, mas quero deixar aqui uma pequena lembrança de que quando alguns grandes nomes nos deixaram recentemente, o sentimento de caça às bruxas que assolava todos os cantos do entretenimento simplesmente foi substituído por um súbito respeito não visto por anos. É a máxima, morreu virou santo.

Michael Jackson não foi o primeiro, mas provavelmente é o caso mais gritante do abandono. Doente e recolhido em sua casa, já não fazia mais shows, mesmo preparando um retorno triunfante e exaustivo com 50 apresentações marcadas em Londres para meados de 2009. Na mídia, o seu nome estava sempre envolvido em escândalos, e era comum ouvirmos chacotas quanto a sua sexualidade, aparência, além de outras acusações descaradas.

Falido, o Rei do Pop só mantinha a alcunha porque a indústria ainda precisava sobreviver com as polêmicas. Mas a sua morte repentina causou comoção pública e o inimaginável aconteceu. Todos os seus inquisidores voltaram para dentro de seus armários, e de quebra, clamando aqueles que antes caçavam a o amarem por toda eternidade. Resultado? Michael vendeu mais do que a maioria dos artistas em ascensão naquele mesmo período. A indústria aproveitou a sua imagem para todos os tipos de uso possíveis.

E Amy Winehouse? Na maioria do tempo que figurou nos holofotes, a mídia esqueceu completamente todas as críticas positivas feitas anos antes de ela entrar na total decadência devido ao uso de álcool e drogas. Winehouse se transformou, depois de 23 de julho de 2011, num dos grandes exemplos da música internacional e a sua imagem passou a ser imaculada.


Com Whitney Houston, morta no último sábado, 11 de fevereiro, foi a mesma coisa. Neste fim de semana, o mundo passou a amar a cantora, a sentir pesar por seu falecimento e a santificar a sua voz. Até mesmo alguns fãs, que separavam a sua existência em antes – carregada de sucessos como “I Will Always Love You”. Alguns, que até aquele momento pensavam ser degradante demais considerar público o gosto pela cantora, foram tomados por orgulho.

E só de imaginar, que algum tempo antes, o quanto ouvi de piadas compartilhadas online e offline devido aos anos imersos nas drogas.

Nos próximos dias, semanas e meses, e quem sabe até mesmo anos, ouviremos em todos os becos de ruas e vias de redes sociais um falso amor sendo proclamado, compartilhado e curtido. Seja com Whitney, Amy ou Michael. Seja com algum outro artista que venha a falecer depois de anos sendo taxado e jogado para escanteio. Porém, o maior alvo desses sentimentos nunca poderá ouvir tais declarações.

Eu dedico este humilde texto a todos aqueles que morreram ouvindo um “não” e sendo alvos de chacotas, mas não puderam ter a chance de ouvir um “sim” antes de que a melhor amiga, a Dona Morte, os viessem buscar deixando como presente a consagração. #RIPInsiraAquiONomeDeAlgumArtistaQueVocêNuncaAmouEmVida