Se a função do cinema é criticar usando a vida como metáfora, então “Medianeras: Buenos Aires na era do amor virtual” (2011), o primeiro longa do diretor argentino Gustavo Garetto, exerce bem esse papel.
Foto: Divulgação“Medianeras”, desde o início, me pareceu profundo e sincero. O lugar onde se passa, uma Buenos Aires em constante crise e falta de organização, me lembrou muito São Paulo, tanto pela sua arquitetura – exuberante e desajeitada – quanto pelo caráter emocional e “virtual” de seus habitantes.
Depois de morar na Europa, já estou na capital paulista há quase dois anos, e confesso que a minha vida nunca foi tão conturbada. Mas, por esse adjetivo não entendo como algo necessariamente ruim. Pois morando aqui, somos praticamente obrigados a viver em constante conflito, seja com a cidade, com a sociedade ou com nós mesmos.
E esse é o ponto crucial, que qualquer ser humano precisa viver. Já que por mais que você viva de ilusões, a metrópole te faz acordar, te dando possibilidades reais, boas ou ruins. Como por exemplo, se apaixonar cedo e quebrar a cara logo em seguida, mas aprender com todos essas experiências e dar a volta por cima. Para depois cair de amores novamente, num looping eterno de construir, amar, fracassar e recomeçar. Esta é a melhor forma que consigo explicar o ritmo em que a cidade te mantém, tudo acontece rápido e acaba mais rápido ainda.
Foto: DivulgaçãoOs personagens de “Medianeras”, Martín e Mariana, parecem engrenagens quebradas da cidade, desistiram diante de algum obstáculo e foram se refugiar na internet. Este era o outro ponto onde queria chegar, o “mal” do nosso século: as redes sociais, o drama, e todo o #mimimi envolvido.
Sou viciado em redes sociais, frequentemente uso como meio para me relacionar e comunicar – isso inclui status de relacionamento no Facebook e xingar muito no Twitter. Entendo que é na internet que tentamos afastar a solidão que a metrópole pode causar, pois é onde encontramos os amigos ou conhecemos novas pessoas de maneira, aparentemente, menos complicada.
Porém, não sei até que ponto esse refúgio se torna insustentável e maléfico, há pessoas que se fecham cada vez mais dentro do universo e não saem de lá nunca. Como qualquer outra coisa na vida, a internet deve ser bem usada, temos que ter domínio sobre ela e usá-la a nosso favor. Caso contrário, se torna uma droga, e os resultados podem não ser legais.
“Medianeras” fala sobre vida que cresceu sem controle, bem como as metrópoles. Mas fala também dessa beleza do fracasso, sobre a esperança, sobre o amor. Mostra que o final pode ser perfeito como nos contos de fadas. Porque numa cidade tão grande, é impossível não existir alguém pra você, nem que você tenha que se desconectar de todos os fios e procurá-lo, como se procura o Wally, em todas os lugares possíveis e sem nunca desistir de achá-lo.
Enquanto buscamos, já podemos ir ensaindo a trilha sonora da nossa próxima paixão.
Ítalo-brasileiro, apaixonado por moda e pela magia de São Paulo. Twitteiro e internet addicted.