Ah, mas é só uma piadinha

Por André Pacheco comentários

Não quero parecer aqueles chatos, que apontam o dedo e saem patrulhando o “trabalho intelectual” dos outros com o tal do “politicamente correto”. Apesar que, sendo bem sincero, essa expressão é só uma invenção do pessoal que não quer largar o osso de continuar destilando o seu ódio disfarçado de humor. O que eles chamam pejorativamente de “politicamente correto”, prefiro chamar amistosamente de respeito.

Porque sim, as piadas são um discurso, refletem a maneira que a sociedade vê determinado grupo social e lida com eles. Piadas são parte de uma dominação ideológica, não à toa são passadas de pais para filhos. Uma piada não é só uma piada, é carregada de sentimento e de história. Eu considero o humor uma ótima maneira de analisar as relações de poder.

Alguém aqui já ouviu uma piada sobre um homem, branco, rico e hétero? Ah, mas tem piada de loira. Tem, de loirA. Mulher, gênero feminino, que possui vagina e é vítima constante de violência pelo simples fato de ser o “sexo frágil”. Eu nunca ouvi uma piada, ou vi um vídeo de “humor”, que falasse “loirinho burro”.

Navegando ao léu, cheguei ao vídeo “Vlog do Fernando”. Num primeiro momento, apenas achei tosco. Era alta madrugada e demorei pra me tocar que o vídeo era uma ação – ou seja lá o que for. Mas, continuei considerando de gosto duvidoso, não me apetece ver alguém de uma geração passada dizendo mil e umas sobre a minha pelo simples fato de não gostar das coisas como estão.

Poderíamos começar uma ótima discussão de como o mundo está menos pior hoje do que antes, e de que a maioria dos nossos problemas foram deixados de brinde pelos nossos avôs. “Então, cada um na sua, a minha geração tá aqui tentando arrumar as cagadas da sua, por isso, respeite a minha juventude que eu respeito a sua experiência”.


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Pois bem, deixando de lado o “probleminha” da idade, me chamou atenção a maneira como Fernando se refere a nós, os mais novos. “Seus viadinhos de merda!”. Ora, por que seus “viadinhos de merda”? Por que o Fernando não falou “seus heterozinhos de merda”? Porque, para o Fernando – e para a maioria dos grandes humoristas desse país – o viadinho é tão xingamento quanto merda. Ser viadinho é ruim. Ser um viadinho de merda, é pior ainda. Isso é um discurso homofóbico, que – pasme, você que abomina o “politicamento correto” – dá sustentação para algo mais forte. Como, por exemplo, “viadinho tem que morrer”. E morrem, aos quilos, anualmente nesta linda e hilária nação chamada Brasil.

Continuando no canal responsável pelo “Vlog do Fernando”, caí no “Vlog do Harry Potter”. O vídeo começa com o ator falando algo mais ou menos assim: “faz mais de vinte anos que eu matei aquele viado aidético” ao se referir ao assassinato do arquirrival de Potter. Na mesma sentença, ligada ao inimigo, temos matar, viado e aidético. De muito bom gosto. E, sem nenhum sentido a mais. Afinal, é só uma piada, e eu estou ficando louco e paranóico a ponto de achar que tem a ver com “era meu inimigo por ser viado, e além de tudo tinha aids, por isso o matei”. Como se não bastasse a velha ideia vendida por grupos conservadores nos anos 80 de que gay e aids são sinônimos.


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No mesmo vídeo, por volta do minuto quatro, o Harry Potter responde uma pergunta de seus fãs. “O que você acha dos filmes que contam a sua história?”. Ele, ao criticar, diz que não gostou por causa do ator escolhido. Adivinha qual o predicado usado para caracterizar o ator? Homem? Hétero? Branco? Rico? O filme foi ruim porque o ator é viadinho, basicamente. Não por ser um ator ruim, mas por ser viadinho. Ou seja, se alguém é viadinho, logo, qualquer coisa que ela faça tende ao fracasso.

E assim vamos nós, continuando a manter as coisas do jeito que estão. Afinal, o direito de alguns de humilhar e diminuir um grupo social inteiro – para conseguir palmas e ovações – é mais importante do que a sobriedade mental e a vida dos viadinhos. Dos negrinhos. Das mulherzinhas. Dos doentinhos. De todos os merdinhas da sociedade. Risos.

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