A Parada precisa parar?

Por Murilo Araújo comentários

Parada Gay de SP
Foto: Reprodução

No domingo, 10, foi dia de Parada Gay em São Paulo, e a semana que se seguiu a ela foi palco dos mais diversos debates sobre homossexualidade, homofobia e luta política. Desde os mais conservadores (inclusive alguns gays), que criticam a iniciativa o quanto podem, até os que comemoram incansavelmente o seu sucesso – passando por aqueles que estão mais preocupados em saber se a Avenida Paulista tinha 270 mil ou 4 milhões de pessoas.

Nessa conversa toda, têm me interessado particularmente os clichês repetidos por uma parcela considerável da comunidade gay, que insiste em repetir que a Parada virou uma grande micareta e perdeu o caráter político; que as pessoas só vão ao movimento pular e fazer “pegação”, e que isso só reforça para a sociedade o estereótipo de que gay é promíscuo.

Eu não sei se tenho opinião formada sobre a Parada Gay (este texto, por sinal, terá mais incertezas do que afirmações, é bom considerar). Mas escuto este mesmo discurso dia após dia, e fico me perguntando se as pessoas realmente pensam dessa maneira, se realmente problematizam a questão, ou se estão apenas repetindo uma eterna ladainha relativamente conservadora, que por vezes parece até ser meio higienista. “Somos gays, mas somos limpinhos. Chega dessa algazarra de Parada Gay”. Tenho a sensação de que a “condenação” da Parada tem girado sempre em torno dos mesmos argumentos, e a coisa não aprofunda, fica rasa.


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Gosto do exercício de trocar as afirmações pelas perguntas. Em vez de afirmar que a parada perdeu o caráter político, creio, neste momento, ser mais relevante questionar: o que é isso a que estamos chamando “caráter político”? A festa, o escândalo, a pegação, o beijo a céu aberto não tem nada político? Para ser político tem que ser sério, calmo, tranquilo e comportado?

Acho problemático. Isso me lembra bastante o discurso de gente como Bolsonaro e afins, que diz que “tudo bem ser gay, só não precisa se escandalizar, querer ser mulher ou então ficar de agarramento por aí, porque isso é uma vergonha”. Ou seja, tudo bem você gostar de alguém do mesmo sexo, contanto que permaneça dentro do seu armário, sem dar pinta, para não ofender o conforto heterossexual da sociedade. Coisa de gente que condena as bichinhas afetadas, que detesta afeminados, reproduzindo um terrível preconceito heteronormativo. Em outras palavras, uma tremenda internalização de homofobia.

Em vez de afirmar que a parada só reforça o estereótipo de gay promíscuo, vejo que seria mais interessante problematizar: que estereótipo é esse? Quem é o responsável por ele? Porque, parando para pensar, será que as paradas gays são frequentadas apenas por um monte de gente querendo pegação alucinadamente? Lá não tem ninguém querendo casamento, ninguém namorando? Não tem ninguém preocupado com a causa política? Nada?

Ou será que estas pessoas todas, que também estão lá, são exatamente as pessoas que não são entrevistadas pelos jornalistas que fazem as coberturas da parada gay? Onde estão os casais, onde estão as lésbicas, onde estão os militantes da parada? Vivemos num país onde a imprensa não quer colocar nada em debate. Assim sendo, presta-se apenas ao serviço de reforçar os estereótipos, nas novelas, nos programas de humor ou nos jornais.

E ainda assim, mesmo que estas pessoas todas não sejam representadas, é necessário problematizar também o falso moralismo dessa sociedade que está cheia de gente nada comportada, mas que condena tanto a famigerada promiscuidade. Só os gays são assim? E mesmo que sejam, qual é exatamente o problema? Penso no movimento de feministas, mulheres transgressivas que põem os seus peitos proibidos à mostra nas ruas, para gritar pelo direito de serem donas dos próprios corpos. No nosso caso, proibido é o beijo, proibido é o afago, proibido é o nosso corpo inteiro, trancado dentro da opressão dos armários: não seria hora de transgredir também, e colocar o nosso beijo à mostra, para brigar pelo direito de fazermos também com os nossos corpos aquilo que quisermos?

Não questiono que apenas a parada não dá conta de todos os problemas. É apenas um dia, e a luta pela igualdade de direitos precisa ser uma luta cotidiana que nem todos assumem. Ainda assim, acho importante repensar as questões que nos levam a deslegitimá-la com tanta veemência em nossos debates cotidianos. Pode até ser que a Parada Gay não seja a melhor das nossas estratégias. Resta ainda saber se isso faz dela uma estratégia desperdiçável, ou se ainda é válido colocar a alegria e a festa das cores para fora do armário, afirmando o orgulho de ser isso que todos dizem ser vergonhoso, nem que seja por um dia apenas.

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