A influente, porém patética, Rihanna
Por André Pacheco comentários

Não, eu não sou uma pessoa puritana. Muito pelo contrário, às vezes chego a soar libertino do tanto que me posiciono a favor da liberdade individual. Por exemplo, no meu ver, o Estado ou nenhuma instituição religiosa tem o direito de dizer se a mulher deve ou não levar uma gestação até o fim. Também defendo que a pessoa deveria ter o poder de decidir se quer ou não se drogar à vontade – e a gente sabe que essa coisa de guerra às drogas traz mais dor de cabeça que resultado positivo. Se você quer fumar dezenas de cigarros de maconha ou cheirar tantas carreiras de cocaína, nem eu nem nenhum órgão poderíamos impor uma decisão contrária.
Isso é um princípio da democracia. E isso também não quer dizer que eu incentive o aborto e faça vista grossa pras implicações que o ato pode trazer para a mulher, o mesmo eu digo sobre as drogas. Não, eu não fumo maconha, tão pouco cheiro carreiras e mais carreiras de pó. Larguemos a mão de achar que só porque alguém tem uma opinião mais aberta quanto a temas tabus, que ele tem que viver aquilo o tempo todo. O seu posicionamento social sobre um assunto, não necessariamente é o seu posicionamento pessoal e a sua escolha.
O mesmo vale para quem quer se casar com alguém do mesmo sexo. O mesmo vale para você que quer pegar um avião amanhã com destino à felicidade. Mas, infelizmente, não vivemos num mundo democrático de fato e a sua prima não poderia interromper uma gestação de forma legal – exceto se for estuprada ou o bebê for anencéfalas, direitos conseguidos com muita briga – ou o seu irmão gay não pode se casar no civil com o companheiro de mais de anos. Mas, ironicamente, é lhe dado a escolha de poder pegar um avião com destino à felicidade, desde que claro, essa felicidade não seja aborto, drogas ou casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. E junte ao destino proibido várias outras coisas. E eu continuo batendo na tecla que devemos ampliar o cardápio de destinos, seja aqui no Brasil ou nos Estados Unidos.
Porém, para tudo nessa vida, temos que ter um limite. Você pode se drogar, mas não precisa sair usando mil e uma substâncias o tempo todo e na frente de todo mundo. Também não é legal publicar as imagens de um fim de semana muito louco nas suas redes sociais. O ato de se drogar é, fazendo uma analogia, como a sua vida sexual. Isso diz drespeito apenas a você, é uma decisão sua. Vida sexual não é igual a relacionamento. Você tem um namoro público, mas não sai por aí trepando em qualquer esquina para tudo e todos assistirem, e muito menos sai por aí subindo os seus vídeos picantes. Claro, algumas pessoas o fazem, e vivem disso, mas não é a maioria.
Onde a Rihanna entra nessa história? Bem, a cantora entrou numa vibe estranha. Ela quer pagar de revoltada, bagaceira, porra louca. No bom português, ela se vende com um belo de um “tô cagando pra sua opinião”. O que de certa forma, faz sentido. Rihanna está fazendo uma cagada atrás da outra. Talvez agora, num prazo curto, os seus atos ignorantes não tragam resultados negativos. Afinal, algumas coisas ainda chocam, e o choque, meu caro leitor, vende muito. O dueto duplo com Chris Brown pode ter rendido frutos positivos, mas e depois? Quais os respingos disso para a carreira e vida pessoal dela? É algo a se refletir.
Madonna, no começo dos anos 90, era o sexo em pessoa. Foi “Justify My Love”, depois o disco “Erotica” e por fim o livro “Sex” – que, só para deixar registrado, é um obra linda do ponto de vista estético. Naquele momento, salvando o que o mundo experimentava de pós-revolução sexual e crescimento amargo do puritanismo num Ocidente assombrado pela Aids, uma Madonna explícita causou rebuliço. Todos falavam, todos comentavam, todos queriam ver os peitos da Rainha do Pop. Mas, algo não ia tão bem assim. A imagem da cantora começava a ficar manchada e a sua carreira poderia entrar num declínio sem volta.
Não é interessante para nenhuma figura pública ter o seu nome ligado apenas à polêmica. O que Madonna fez? Deu um tempo da mídia e lançou depois o “Bedtime Stories”, um disco mais leve e recheado de baladas. Não que o sexo foi tirado da jogada, ele apenas não foi o foco principal. Continuamos a ter uma Madonna sensual, com certo ar de levianidade e pronta para o ato. E tínhamos outras opções de destinos à felicidade.
No caso de Rihanna, o que temos hoje além de polêmicas? Você poderia responder que temos uma carreira que até agora vai bem, obrigado. Mas, de uns tempos para cá, o que anda sustentando a imagem da cantora? O foco principal é numa Rihanna musical ou numa Rihanna com pinta de revoltada? Nós não vemos uma mulher madura, ciente das consequências de suas escolhas e do impacto que isso pode causar. Afinal, estar na famosa lista da Time como uma das 100 pessoas mais influentes do mundo traz responsabilidades. Querendo ou não, a embaixadora da juventude e cultura de Barbados tem um peso no mundo, arrasta multidões e dita comportamentos.
Rihanna não é mais apenas Robyn Fenty, ela é uma marca, uma corporação. Empresas, até onde eu sei, têm – e procuram prezar a nível de marketing principalmente – por algo chamado responsabilidade social. Qual o papel dela na vida de uma comunidade? Qual a mensagem que elas passam? Quem elas ajudam? Infelizmente, Rihanna não vem se portando com cautela quando o assunto é algo mais delicado, como o consumo de drogas. Não é apenas fumando um cigarro de maconha ou cheirando uma carreira de cocaína que ela vai dizer para as pessoas que devemos mudar o pensamento padrão sobre drogas.
Não é apenas o dar de ombros que vai mostrar uma atitude de contestação, ou que vai trazer para os jovens uma maneira mais positiva de encarar as liberdades individuais. Toda ação tem uma reação, e, infelizmente, as patéticas atitudes de Rihanna só acrescentam mais peso num mundo cada mais influenciado pelo discurso conservador. Não é só a carreira dela que está em jogo nesse bate e volta, e sim, sem querer soar alarmista, toda uma geração que está sob a sua tutela. Se drogar publicamente ou fazer um dueto com o seu agressor não são atitudes libertárias, são atitudes que trazem à tona uma mulher sem consciência da real importância que a influência de sua imagem possui. Sem consciência não há espaço para o debate e para a evolução, sobra apenas espaço para uma larica rápida depois da festa.





