01
A depressiva de Higienópolis
Por André Pacheco comentários
Criada em berço de ouro numa tradicional família judaica de classe-média alta, Ádima Laura Stein Hamburguer de Hazan espera, pacientemente, o seu grande amor, ou pelo menos, a sua volta. Desde quando foi largada no altar com apenas 21 anos, e humilhada perante os pais, avós, primos e colunistas sociais dos principais jornais de São Paulo capital, Ádima não aguentou o tranco e se fechou para o mundo. Enquanto ia cada vez mais para o fundo do poço, ela se tornava uma comedora compulsiva de doces e fumante inveterada. Não dispensava uma dúzia de cupcakes e um cigarro de filtro vermelho enquanto olhava apática, todos os dias e no mesmo horário, o trânsito no cair da tarde da movimentada Avenida Angélica. Com o peso no mundo nas costas, e nos quadris, essa moça linda de rosto é “A depressiva de Higienópolis”.
O meio dia daquele segundo domingo de março nunca seria esquecido por Ádima. O longo vestido branco, caprichosamente bordado com cristais Swarovski, e as rosas colombianas, dispostas delicadamente em arranjos ao longo de uma exuberante tenda, pareciam anunciar que a sua nova vida ao lado do bem quisto noivo começaria com o pé direito. Apenas parecia, tudo foi um desastre.
Os ilustres convidados, incluindo também antepassados que já foram dessa para a melhor, presenciavam atônitos cada lágrima derramada para cada minuto da ausência do noivo. Isso porque, como manda a tradição judaica, o rosto da noiva estava coberto. Foi choro pra lá de metro para que pudesse ser percebido de longe por todos. Ah, o rabino! Não poderíamos esquecer o rabino Herodes Raviv trazido diretamente de Israel pela família da noiva com todas as despesas pagas. Os presentes acompanharam em tempo real o abandono de Ádima. Não só os presentes, diga-se, um ou outro convidado com os dedos a postos narrava o fato com detalhes na rede social de microblog Twitter. Depois de tanta preparação, e de um apartamento relativamente luxuoso mobiliado com peças também relativamente luxuosas no não pouco relativamente luxuoso bairro de Higienópolis, lugar onde Ádima nasceu, cresceu e se fez mulher.
Até o micvê, um banho com a pretensão de purificar a alma da noiva antes do casório, a nossa musa tomou. Sem contar a fome durante a interminável espera no altar, que parecia destruir o corpo – naquela época um pitel. A tradição pede que os noivos não se alimentem no dia do sim, e isso talvez explique a compulsão por açúcar iniciada com quase um cento de bem-casados que seriam servidos aos convivas na recepção. Foram quase um cento de bem-casados devorados sem alguma parcimônia. Talvez mais de um cento, foi tanta volúpia na comilança que seria pedir muito que alguém conseguisse contar. Ádima estava destruída, se sentindo a pior mulher de Higienópolis. Logo ela, linda e de classe média alta, abandonada pelo homem que ela tanto amava. Pobre menina rica!
Ádima Laura Stein Hamburguer de Hazan entrou em um estado de espírito tão lastimável, que uma certa cantora de sucesso internacional poderia muito bem fazer um disco inteirinho inspirado nessa fase regada a cupcakes, músicas da Mary J Blige e ao box completo de “Sex And The City”, visto e revisto de cabo a rabo. Ela divagava que nunca mais iria encontrar alguém como o noivo fujão, que, para piorar ainda mais a situação da nossa protagonista, se casou poucos meses após o abandono. Disposta a dar um basta na solidão, cogitou chamar um xamã para fazer uma fogueira na chuva – e olha que chuva em São Paulo não era coisa pouca naquela época do ano – para voltar ao bendito altar e trocar as alianças.
Porém, por mais que o seu coração estivesse nos confins da melancolia, a principal causa da obsessão de Ádima em ter o rapaz de volta tem, de certa forma, uma explicação plausível. Uma secreta explicação plausível, para ser mais exato.
- O resultado deu positivo – disse a segura e rouca voz do outro lado da linha.
- Fodeu! – exclamou a mulher com o olho tão arregalado que daria para ver a sua alma.
Além de abandonada no altar, Ádima também seria mãe, e mãe solteira. A sua mãe, que gostaria que a filha tivesse um filho nos moldes tradicionais, afirmou – depois de passado os sermões e os sustos – preferir que a filha fosse, na verdade, mãe viúva, não uma mãe solteira. Afinal, é melhor imaginar que o pai do neto está morto do que fugido. A honra de Ádima, quem lavaria? Qual sobrenome de pai o filho, com pinta de bastardo, carregaria? Para uma tradicional família judia de classe média-alta de Higienópolis, ter uma filha mãe solteira era inimaginável. Um infortúnio! E pior, para a mesma família, além de mãe solteira-viúva, Ádima seria uma mãe solteira-viúva-gorda. “Gorda e depressiva, a inglória da cidade!”, berrou o pai, não o do bastardo, mas o de nossa musa, durante uma discussão acalorada no jantar.
Ádima, então, resolveu tomar uma decisão drástica, e de certa forma, por mais que não pudesse expor, contra a sua vontade. Daria o filho, ou a filha – mas a preferência era de uma criança dotada de pingolim e de saco roxo – para a adoção caso o dito cujo do noivo-pai-fujão não reaparecesse e recomeçasse tudo de onde foi parado.
- Mas ele já está casado, mãe – afirmava pesadamente enquanto expelia um denso trago na sacada do duplex localizado próximo as Avenidas Angélica e Higienópolis.
- Faça-o voltar, que ele se separe, você não pode criar esse filho sozinha.
- Não é algo de meu poder, já tentei de tudo! – era o quinto cupcake naquela conversa.
- Você não criará essa criança sem pai, daremos para a adoção – disse com certa frieza a Senhora Stein Hamburguer de Hazan.
- Já decidimos isso, não quero falar sobre esse assunto mais – sexto cupcake.
Foram tantas ligações feitas, emails enviados e, acreditem, até telegramas. No Facebook, Ádima não mandou mensagem alguma pois “o safado deu block!”. A resposta sempre vinha com sonoros e harmônicos cricrilos. Ela fez de tudo para ter, ao menos, uma explicação. Parafraseando um sucesso não-famoso de Simony, Ádima foi lá, bateu, ligou e deixou recado na postal. E a barriga ficava cada vez maior, era o bebê e as calorias transformadas em tecido adiposo avisando a que vieram. Um detalhe, o cigarro continuava, mesmo com a recomendação médica de zerar o consumo de nicotina por pelo menos nove meses – quiçá para toda a vida.
Cada ligação não atendida e email não respondido aumentavam ainda mais a depressão de Ádima. O silêncio eterno do noivo-fujão colocava a sua autoestima indiretamente proporcional ao seu tamanho. E ainda tinha o bebê, outro problema que não poderia ser deixado de lado. “O que fazer com a criatura?”, divagavam os pais de nossa musa todas as noites. Há muito as igrejas aboliram as libertinas rodas dos enjeitados, onde as mães solteiras abandonavam os seus recém-nascidos. Deixar em uma lata de lixo? Por mais que a criança não fosse bem-vinda naquele lar, uma rejeição deste tamanho não é algo da personalidade de Ádima.
- O que é isso minha filha? O chão está todo…
- Estou parindo, mãe! – interrompeu Ádima aos berros enquanto o líquido proveniente de suas entranhas molhava o exuberante tapete persa da sala de estar da família Stein Hamburguer de Hazan.
- Ele não é lindo, mãe?
- É, minha filha – suspirou a mãe de Ádima que agora era avó de um pequeno bastardo rechonchudo.
Ádima foi surpreendida, no momento do parto natural num hospital caríssimo com nome de um famoso cientista, com o instinto de maternidade. Quando pegou a pequena cria no colo pela primeira vez, toda a dor causada pelo noivo-fujão foi substituída por uma necessidade incrível de proteger a tão frágil e agraciada criatura. Afinal, ela sabia como a rejeição doía, não poderia nunca fazer isso com uma vida carregada ao longo de nove meses, mesmo que não tivesse se prontificado tanto no início a levar essa gravidez com ferro e fogo. Ela encontrara o seu grande amor, desta vez sendo corajosa e mantendo longe as inconstâncias, os doces e a nicotina. O seu único grande amor agora é o pequeno e gordinho garoto chamado carinhosamente de Grammiel.