Ser brega é ser feliz
Por Yhury Nukui comentários
Sou noveleiro desde que me conheço por gente. Quando pequeno já dava meus pitacos sobre as novelas da Globo, pois não há quem chegue perto de suas grandes produções. Há tempos não via algo como “Cheias de Charme”, trama das sete horas, que tem seu último capítulo marcado para esta noite.

Nos últimos anos, as novelas deste horário caíram na mesmice: “Aquele Beijo” (2011), “Morde e Assopra” (2011) e a terrível “Tempos Modernos” (2010) estão aí pra provar isso. O que acontecia porque a emissora estava trabalhando sempre com os mesmos autores, que emendavam trabalhos e, mesmo com uma audiência bem considerável, não traziam nada diferente para nossas casas.
Mas eles já começaram a trabalhar na renovação de seus criadores e deram uma novela das sete para os estreantes Filipe Miguez e Izabel de Oliveira. E assim veio “Cheias de Charme”, uma trama irreverente, que inovou ao colocar três empregadas domésticas como protagonistas. Pode soar estranho, mas mesmo que as “Marias” tenham tido destaque em diversas produções da emissora, nenhuma vez elas foram as personagens centrais!
E a novela mostrou mais que a história de Maria da Penha, Maria do Rosário e Maria Aparecida. Foi uma abertura para um gênero que, até então, era visto com maus olhos pelo público: o tecnobrega.
Gaby Amarantos, que ganhou fama depois de uma versão de “Single Ladies”, passou a aparecer em alguns programas de tevê, mas ainda não tinha conseguido sua grande chance. Em “Cheias de Charme” ela, não só ganhou a maior oportunidade de sua vida cantando o tema de abertura, como viu sua carreira dar uma reviravolta: triplicou o número de shows mensais e acabou indicada ao Grammy Latino por Artista Revelação e Melhor Álbum de Raiz, com o “Treme”.

“Cheias de Charme” misturou diversos gêneros da música brasileira e as participações especiais não me deixam mentir. Foram mais de vinte artistas, entre eles: a própria Gaby Amarantos, Marcelo D2, Banda Calypso, Ivete Sangalo, Alcione, Zezé Di Camargo e Luciano, Preta Gil, Michel Teló, Luan Santana e Paula Fernandes.
A produção da trama acertou em cheio ao apostar na mistura da ficção com a realidade. As Empreguetes, grupo formado pelo trio principal, teve seu primeiro videoclipe, “Vida de Empreguete”, vazado na internet antes mesmo de ser exibido na tevê. Gravado às escondidas na casa da vilã Chayene (Claudia Abreu), uma cantora de eletroforró, o grupo acabou preso e diante de uma enorme manifestação acabou sendo solto – depois disso o sucesso não parou.
Não posso deixar de mencionar o talento de Claudia Abreu na pele de Chayene. Toda atrapalhada, a vilã soltou diversas gírias que nos divertiram a todo momento: “Curica”, “Quede meu chero”, “Pense numa patroa boa!” e “Frango” foram algumas delas. A novela também revelou uma atriz de prato cheio, Titina Medeiros, que interpretou Socorro, ou S.O.S, como é chamada por Chayene.
“Cheias de Charme” se despede da tevê com gostinho de quero mais – um spin-off, pfvr – e com uma audiência que deu inveja em muita novela das nove. Algo que não se via desde “Da Cor do Pecado” (2004), outra trama das sete que, inclusive, é reprisada pela Globo atualmente. Como o título diz, ser brega é ser feliz. O tecnobrega está no Brasil há anos e agora ganhou seu espaço, que permaneça e seja respeitado.
Um adeus a Chayene, Penha, Cida, Rosário e Socorro: um quinteto que divertiu minhas noites por quase seis meses. Vou sentir saudade!





