Para se emocionar: “A criança da Meia-noite”
Publicado em Por Wesley Muniz
Após a pré-estreia do longa francês “A criança da meia-noite” (La Permission de Minuit), deu para comprovar a delicadeza da diretora Delphine Gleize, a mesma do premiado curta “Estranhas ligações”. No longa, acompanhamos dois temas bastante sensíveis. De um lado, a saúde do garoto Romain (Quentin Challal), portador de xeroderma pigmentoso, uma rara doença genética. E do outro, a sua amizade com o médico, David (Vincent Lindon).
A grande sacada de Delphine, é não usar a doença como o mote principal da história. A saúde de Romain se transforma apenas em um elemento da obra. A relação do paciente com o seu médico é onde se sustenta “A criança da meia-noite”.

Romain não pode se expor ao sol, ou a qualquer tipo de energia que emita radioatividade. Ele é obrigado a levar uma vida noturna e, assim, se adaptar na tentativa de viver como uma criança “normal”. Com humor negro e muito sarcasmo, o menino, bem como a sua mãe, deposita toda a confiança no médico David, como numa relação de pai e filho – o que gera polêmica entre os mais conservadores, por acreditam que o contato médico-paciente não pode ultrapassar as paredes do consultório. A importância de David pode ser equiparada com a do pai que Romain não teve.
Ao chegar na adolescência, e passar por todas aquelas mudanças psicológicas e físicas, Romain se vê em meio a um turbilhão de sentimentos. Porém, apesar de não poder andar de bicicleta com os seus amigos durante o dia, consegue contornar as dificuldades adequando todos os seus hábitos noturnos aos seus desejos. A doença parece não impedir de amar ou paquerar garotas, e quando se apaixona, parece que finalmente sua vida vai ser como a de qualquer pessoa de sua idade. Mas uma notícia pode mudar o seu futuro.
“A criança da meia-noite” é de uma suavidade tão precisa, que se torna impossível não perceber a necessidade de um envolvimento afetivo entre Romain e David. A amizade entre eles deixa o tratamento menos doloroso. O médico também se torna o professor do garoto, exercendo a função de explicar como funciona a vida, e o quão ela não é fácil de se enfrentar – independente se você for ou não portador de uma doença genética rara.





