“A guerra está declarada” traz um Romeu e uma Julieta menos egoístas e mais vigorosos
Publicado em Por Wesley Muniz

Um verdadeiro símbolo do romantismo trágico, a história de Romeu e Julieta traz, como todo mundo está careca de saber, dois adolescentes lutando pela possibilidade de viver um grande e único amor, mas acaba com a morte dos dois. A obra de Shakespeare coloca o romantismo e a tragédia no mesmo patamar.
Na década de 2010, quase cinco séculos depois da história ser publicada pela primeira vez, a tragédia do amor ainda se mantém forte. A indústria continua a ganhar dinheiro contanto suas fábulas e crônicas de amores impossíveis. Mas enquanto caímos na mesmice na maioria das vezes, vez ou outra surge uma obra cinematográfica trazida da vida real para um público que vive a vida real.

O longa francês “A Guerra está declarada” (La guerre est declarée, 2011), da diretora Valérie Donzelli, impressiona com a delicadeza em que nos conta uma história de amor de dois jovens recém-casados lutando contra um vilão assustador. Mas, dessa vez, não é a briga de família que ameaça a felicidade. O problema é bem mais próximo do nosso tempo, o câncer.
“Teremos um destino terrível”, assim o casal Roméo (Jérémie Elkaïm) e Juliette (Valérie Donzelli) prevê o futuro após o nascimento do filho Adam. Ao contrário de muitas obras do gênero, Donzelli readaptou o drama original para a atualidade. Numa época onde o casamento é uma opção, e as famílias estão muito mais preocupadas em se manterem unidades do que brigarem com outro clã, saem os Montecchios e os Capuletos. Desastres familiares e suicídios egoístas dão lugar à angústia de um casal, que tenta se manter unido enquanto passa pelo pesado diagnóstico da doença do filho quando completa pouco mais de um ano. “A Guerra está declarada” é uma cinebiografia em favor da vida.
Em uma noite de angústia, o casal decide declarar guerra à doença do filho. A principal arma escolhida é a cumplicidade e o desejo de enfrentar todos os problemas. Assim, como em uma guerra de verdade, eles enfrentam altos e baixos, sempre entrelaçados com um turbilhão de sentimentos decorrentes da realidade. O amor se torna o principal – e talvez o único – conforto.
É uma guerra sem lágrimas, sem egoísmo, e principalmente, com uma pitada impressionante de alegria e esperança. Sim, apesar do tema e do próprio nome do filme, alegria é algo que está presente do início ao fim da obra, e consegue contagiar todos os espectadores. Ao contrário do Romeu e da Julieta originais, agora eles não querem a morte para estarem juntos, e sim, lutar pela vida de um terceiro que dá significado ao amor.





