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Tem mulher vilã sim e se reclamar vem duas

Uma novela cheia de felicidade não anda e dá sono, por isso precisamos de vilões para esquentar o campo de batalha. Mas por que os amamos tanto?

Jean Carlos Gemeli
Eduardo Myr/Vic Matos

A novela “Império” ainda nem havia terminado e os comentário da qual iria substituir já iniciaram. Durante as chamadas da novata, era possível ter em uma análise quase feminista: apenas mulheres eram destaques, apenas mulheres tinham voz, apenas mulheres eram vilãs, apenas mulheres. O folhetim em questão é “Babilônia”, que em dois capítulos já havia colocado a cara no sol.

Tem mulher vilã sim e se reclamar vem duas
Eduardo Myr/Vic Matos

Colocou tanto o rosto à tapa, que sofreu boicote de público. A audiência na primeira semana ficou em torno de 27 pontos. Primeiro, Beatriz (Glória Pires), uma vilã com vida sexual ativa, mesmo casada. E segundo, um casal de lésbicas idosas com beijo já no primeiro capítulo. O resultado foi a transformação, já na terceira semana, do visual da novela. A arte, que antes era de tom sombrio, agora é “mais alegre”. As chamadas, que antes eram focadas nas vilãs, agora são na mocinha característica.

“Babilônia” segue um modelo que vem sendo transformado nos últimos 20 anos. Esse novo padrão empodera a representação de mulheres que são independentes, que trabalham em bons cargos e que têm uma vida fora do padrão “Dona de Casa feat. Esposa Perfeita”.

Não bastava ter uma vilã. Tinha que ter duas. Inês (Adriana Esteves) pode até parecer uma aprendiz de vilã, mas ela esconde muitos segredos, e vai que vira o jogo. Lembra da virada sensacional em “A Favorita”? Se quiser, tem até vilã bônus. Consuelo (Arlete Salles) está sendo chamada como a “vilã evangélica”. A personagem que destila veneno da mais alta classe de Família Tradicional Brasileira.

Os autores e produção de uma telenovela se baseiam no zeitgeist – esse “espírito do tempo” de uma época e lugar – para que as tramas não fiquem descoladas da atual realidade. E por se alimentarem de temas do cotidiano, utilizam outros como por exemplo. Violência doméstica, aborto, anorexia, para colocar o assunto em debate público. Isso que chamamos de “merchandising social”.

É nesse contrato social velado que entra a representação das vilãs. Para o mestre em comunicação, Anderson Lopes, quando elas falam “aquelas verdades” nós amamos ainda mais. “O foco das vilãs está na personalidade delas. Em geral, as protagonistas muito boazinhas são puras e desprovidas da atitude, da força e daquilo que mais se destaca nas vilãs. Elas são destemidas,” diz.

O poder das telenovelas

No Brasil, elas são tratadas como paixão nacional, e grande parte da população para tudo e acompanha o desenrolar da história. E por ser considerada uma “obra aberta”, recebe alterações devido à resposta de público, que possui interação imediata com o folhetim. A novela ainda tem o poder de amplificar a mídia como instituição formadora de opinião, coloca temáticas em debate no espaço público e (des)constrói identidades e ideias. A força da palavra narrada tem alcance de manipulação, fazendo hegemonizar de visão massificada. Quem impera no segmento é a Rede Globo, com o seu arco de cinco novelas na grade usual, contando com a reapresentação de “Vale a Pena Ver de Novo”. A emissora detém com facilidade o primeiro lugar do Ibope durante a “Novela das nove”, que tem transmissão diária de segunda-feira à sábado, após o “Jornal Nacional”.

Para Anderson, a estrutura do melodrama baseia-se no manequeísmo do bem versus mal, que é difícil de ser quebrado. No entanto, se analisarmos as duas telenovelas de João Emanuel Carneiro, é visível esse rompimento e a realização de alterações nas tramas que causem dúvida sobre o caráter verdadeiro de um personagem em suas ações.

“A Favorita”, por exemplo, com as personagens Flora (Patricia Pillar) e Donatela (Claudia Raia), deixou a audiência questionando quem era a mocinha, e quem era a vilã, até mesmo pelo uso das cores branco e preto no figurino de ambas. “Foi somente no 56° capítulo que o público ‘desmascarou’ a verdadeira vilã: a assassina Flora,” lembra Anderson.

Já “Avenida Brasil”, que além de ter sido um sucesso de audiência, foi também de experimentação – elevou o “núcleo pobre ao posto de protagonista”. Rita/Nina (Débora Falabella), a mocinha justiceira oscilava entre vingança a qualquer custo e mocinha apaixonada que, em alguns momentos, se deixava entregar à Jorginho.

Tem mulher vilã sim e se reclamar vem duas
Eduardo Myr/Vic Matos

Mas se as vilãs são tão malvadas assim, por que amamos tanto? Bia Falcão (Fernanda Montenegro), de “Belíssima”, era praticamente uma válvula de escape dos nossos sentimentos vergonhosos. Odete Roitman (Beatriz Segall), de “Vale Tudo”, era o lado B de todos nós.

É aquilo que procuramos esconder, e temos medo reconhecer uma Laura (Cláudia Abreu), de “Celebridades”, em nós. É aquela ousadia de Clara Medeiros (Mariana Ximenes, de “Passione”, posta em prática. É o pecar sem culpa de Sandrinha (Adriana Esteves), em “Torre de Babel”. Mas isso tudo só é “aceito”na ficção, pois na realidade há limites morais que nos impedem.

E o fato de gostarmos tanto também está ligado à humanização dessas vilãs. Pelo contexto histórico, os vilões são o oposto do que se poderia entender por belo. Anderson explica que “no começo da literatura/cinema/teatro, apresentavam estes antagonistas, em grande parte, como monstros, de face horrenda, grotesco, que causavam nojo não apenas por suas ações, mas na sua própria existência”. Por isso, se deixarmos eles cada vez mais “desejados” pela aparência e pela sensualidade, contribui para aceitarmos, ou pelo menos entendermos, as ações deles.

O mestre Anderson exemplifica com o conceito de Projeção-identificação: “aquele momento em que você vê o personagem e se identifica com ele pelas ações, história de vida, problemas enfrentados e tenta compreender o que o levou a cometer todas aquelas atrocidades,” conta. Em Babilônia, o personagem de comparação é Inês (Adriana Esteves). Ela foi humilhada quando adolescente por Beatriz (Glória Pires), e por isso comete suas vilanias.

Outro exemplo recente é a personagem de Danny Bond (Paolla Oliveira) na minissérie “Felizes Para Sempre?”. Anderson diz que era claro a manipulação dela a todos, mentia, tinha uma ambição cega e cometia atos condenáveis com a protagonista Marília (Marília Fernanda Cândido), em quem confiava e amava. “A punição moral da vilã foi amenizada por sentimentos de empatia: o público viu a figura humana da personagem (e um amor genuíno dela com Marília) ao experimentaram algo que é possível somente pela estética televisiva, pela projeção-identificação,” conta.

As vilãs
Elas causaram, ganharam espaço na tevê e serão sempre lembradas.
Odete Roitman
“Vale Tudo”
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Rainha soberana no quesito vilã, Odete rica esculachando os “pobres” brasileiros.

Sandrinha
“Torre de Babel”
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A primeira personagem vilã de Adriana Esteves teve um marco importante e fez a carreira da jovem atriz ganhar atenção de todo o país.

Laura
“Celebridade”
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Quem assistiu a novela, não vai esquecer fácil a surra que Maria Clara deu em Laura no banheiro. Cada tapa na cara era uma comemoração.

Nazaré Tedesco
“Senhora do Destino”
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A inesquecível Nazaré deixou como marca a famosa escada e a tesoura. Sem falar nas frases épicas: “Eu sinto de longe o cheiro de couro”.

Bia Falcão
“Belíssima”
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Melhor frase de Bia: “Pobreza pega”. A personagem foi mais uma marcante na carreira de Fernanda Montenegro.

Flora
“A Favorita”
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Aquele jeitinho debochado de falar conquistou todos. Uma das vilãs mais lembradas da Globo

Clara Medeiros
“Passione”
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A cena final bem planejada matando Saulo na cama. Isso sim é uma viúva negra.

Tereza Cristina Velmont
“Fina Estampa”
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Sem o maior semancol, Tereza Cristina é a típica vilã rica esnobe, que fala mal de pobre.

Carminha
“Avenida Brasil”
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Uma das mais recentes, caricatas, e admiradas vilãs. Ganhamos uma vilã que uniu todas as tribos como o Norvana. E não é que ela tinha até torcida?

Os vilões são monstros, porém humanos. Tudo há um motivo aparente, eles possuem traumas, angústias, tristezas. Um bom vilão está estruturado psicologicamente em função do histórico de vida, e suas virtudes, dele com objetivos bem definidos. Logo, eles são repugnantes, mas compreensíveis. Podemos entender a inveja de Nazaré Tedesco (Renata Sorrah), mas queremos a força e o caráter de Maria do Carmo (Susana Vieira).

Convenhamos, é difícil sermos 100% bom ou mau. Há sempre um jogo de opostos. Então quando assistimos as vilanias, entra outro fator importante. A autojustificação. “Ainda bem que não sou assim”, sabemos que eles estão errados, e não queremos ser como eles.

Se tivesse muita felicidade, não renderia história, muito menos um folhetim de 180 capítulos. “Babilônia”, a criação do trio Gilberto Braga, Ricardo Linhares e João Ximenes, está colocando a prova todos esses conceitos batidos de “fazer novela”, e ao mesmo tempo continuar relevante com o público cativo. Os autores prometem não mudar o enredo por causa do boicote. “Vai ter muito gay, mas vai ter muito imbecil retrógado homofóbico,” diz Ricardo Linhares.

Afinal, como borbulhou nas redes sociais: relação abusiva, romantização do estupro, violência doméstica, assassinatos, tudo okay. Agora, duas senhoras que se amam há anos e querem casar, não pode, desliga a TV, faz panelaço.

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Edição #23
Pelo direito de ser extremista
Editorial

Pelo direito de ser extremista

Murilo Araújo

Nessa vida, a gente precisa de algumas radicalidades. Uma das que escolhi pra mim é fazer tudo que estiver ao meu alcance pra que discursos violentos não tenham mais lugar nesse mundo. Não teremos nenhuma “tolerância” com aquilo que nos agride.

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