Vestiário

O melhor site de cultura pop e lifestyle gay do Brasil.

Será que estou em um relacionamento abusivo?

Com o sucesso do vídeo “Não Tira o Batom Vermelho”, da youtuber Jout Jout, muito se tem para falar sobre relacionamentos abusivos.

Artur de Francischi

Até pouco tempo, não conhecia a Julia Tolezano. Ou melhor, a youtuber brasileira Jout Jout. Uma amiga compartilhou um vídeo dela no Facebook, fui assistir e pronto. Lá estava eu fazendo maratona de Jout Jout no computador. O jeito simples e divertido de falar da moça, sem muita pretensão e sem tabus, foi arrebatando corações na internet.

Mas foi com um vídeo mais sério, postado em fevereiro deste ano, o “Não tira o batom vermelho”, que a jornalista por formação, ganhou a atenção de muita gente. Nele, Jout Jout discorre sobre relacionamentos abusivos e como identifica-los. Até o momento, o vídeo já possui mais de 500 mil visualizações.

Este vídeo está no YouTube e pode deixar de ser exibido a qualquer momento

“Eu resolvi fazer um vídeo sobre relacionamentos abusivos, porque é uma coisa muito recorrente, mas geralmente você não sabe que está num relacionamento abusivo. Uma parte de você sabe, mas você meio que não sabe ao mesmo tempo,” explica Jout Jout logo de início.

A Mestre em psicanálise pela Universidade de Buenos Aires, Anna Carolina Nogueira, concorda que pode haver uma negação da própria pessoa em reconhecer que se está em um relacionamento deste tipo. “Um bom motivo para não perceber é porque a pessoa não quer. Não quer admitir que aquele relacionamento seja abusivo, porque isso seria encarar a possibilidade de um fim”. E se para quem está de fora daquela relação, terminar é a única decisão viável, para quem está dentro dela não é tão fácil, pois isso implica tatear o escuro. Ou melhor dizendo, não existem garantias de que o que está sendo deixado para trás é realmente tão ruim quanto parece.

“Não é óbvio que o sofrimento envolvido em permanecer nele seja maior que o de perdê-lo, justamente porque não sabemos o que se está perdendo, do que se está abrindo mão”, explica Anna Carolina.

Além do medo da perda, é possível que todos os tipos de relacionamentos anteriores da pessoa abusada tenham sido marcados por dor, sendo essa a única realidade que ela conheça. “A pessoa que está naquela relação pode não perceber, também, porque simplesmente não conhece nada diferente daquilo. Pode ser que todos os seus relacionamentos anteriores tenham sido abusivos, inclusive suas relações familiares,” aponta a psicanalista.

Ainda que digam o contrário, a culpa não é sua

Compartilhe

Anna Carolina explica ainda que os abusos acontecem das mais diferentes formas, não sendo restritos somente à violência física. “Como a própria Jout Jout diz no vídeo, há abuso físico, sexual, verbal e até psicológico. Chantagem e manipulação são formas bem comuns de relação abusiva. Faz-se isso por muitas razões”. Diminuir o parceiro, minar sua autoconfiança e controlar suas ações também são formas de abuso. No entanto, não dá para dizer com precisão por que ele ocorre. “Há quem aja com violência física ou verbal porque cresceu acreditando que isso é o normal. Não existe uma só resposta pra isso,” finaliza.

O abuso psicológico pode destruir uma pessoa por dentro, acabando com sua autoestima. Uma forma de manipulação comum é o gaslighting, que é quando “o parceiro abusivo altera aspectos físicos do ambiente ou narrativas de passado – o que foi dito, quem disse, quando – para confundir e manipular o outro,” esclarece Mariane Messias, editora do site feminista Lugar de Mulher. O gaslighting é uma forma de enlouquecer o outro, para que ele acredite mesmo de que não se está em controle de suas capacidades mentais. Afinal de contas, controla-se melhor uma pessoa com uma visão distorcida do que lhe acontece.

E quando falamos de relacionamentos abusivos com um homem controlando uma mulher, a psicanalista Anna Carolina oferece uma linha de questionamento feita pelo próprio Freud, pai da psicanálise. “Ele reconhecia que o feminino era da ordem de um enigma que escapava ao seu conhecimento e, após estudar o temor de povos primitivos diante da primeira relação sexual das mulheres, em ‘O tabu da virgindade’, Freud conclui que não só a primeira relação sexual era vista como um perigo do qual tinha que se defender, mas a feminilidade como um todo era um tabu,” explica.

Atente-se aos sinais do relacionamento abusivo e peça ajuda

Compartilhe

“Há uma angústia causada pela confrontação com o que é estranho. Podemos pensar se não é o estranho, o enigmático, que se está atacando. Será que quando o homem xinga sua namorada de puta ele não está xingando é o enigmático do desejo feminino, que foge ao seu entendimento e controle?”.

No entanto, apesar de ser comum o abuso acontecer com um homem controlando uma mulher, relações abusivas podem acontecer de forma inversa e em relacionamentos homossexuais. “Pode haver abuso em todos os tipos de relacionamento. Inclusive quando se trata de abuso físico. A questão é que, geralmente, quando um homem agride fisicamente uma mulher, as chances de machucá-la seriamente são maiores do que se uma mulher partir pra cima de um homem, que costuma ter mais força para se defender. Mas todas as direções de abusos podem acontecer. Inclusive, o abuso pode ser mútuo,” afirma Anna Carolina, que cita a teoria do psicanalista francês Lacan, onde ambos os sexos transitam no que ele chama de posição masculina e feminina, sendo a primeira ligada ao ter enquanto a segunda não é reduzida à lógica fálica mas é o mais-além disso.

Em relacionamentos homoafetivos, há ainda outros fatores que pesam, como o fato de ambos – ou um dos envolvidos – estarem dentro do armário, já que pode haver um controle sobre o outro com a desculpa de querer protege-lo, ou até mesmo não ter o apoio de alguém quando se percebe estar em uma situação de abuso. Além disso, a propagação de que esses relacionamentos seriam pautados pela falta de compromisso com o outro, também pode ser uma interferência, pois, submete-se a algo ruim em troca do pouco que se tem, já que acredita-se, muitas vezes, que não há outra pessoa disposta a estar em um relacionamento.

Estou num relacionamento abusivo?
Sinais que podem identificar atitudes abusivas do seu parceiro.
Número 01

A pessoa controla a forma como você se veste?

Número 02

A pessoa decide com quais amigos você pode se relacionar? Ela te afasta deles e de seus familiares?

Número 03

A pessoa ameaça se matar sempre que vocês brigam?

Número 04

E quando vocês brigam, ela sempre está com a razão?

Número 05

A pessoa te diminui ou diminui suas realizações?

Número 06

A pessoa controla quem você pode ser amigo no Facebook?

Número 07

Você já foi forçada a fazer sexo com essa pessoa?

Número 08

A pessoa faz você se sentir um nada sem ela?

E como reconhecer se você está em um relacionamento abusivo? “Acho que notar ciúmes, coações de comportamento, formas de violência verbal e comportamental ou física que nos coloquem sempre em uma posição de inferioridade, compreender o abusador como alguém que tem humores muito facilmente alteráveis, independente de como agimos, então notar que é um processo difícil sair desse tipo de situação,” explica Mariane Messias, editora do Lugar de Mulher.

Suas observações combinam com os sinais explicitados por Jout Jout em seu vídeo. “Esse sujeito está te impedindo de sair com seus amigos? Ou está te colocando contra os seus amigos e os seus familiares? Sempre que vocês brigam, de alguma forma muito estranha, que não é explicada, você está sempre errada? E você sempre acaba pedindo desculpa?”, indaga a youtuber de Niterói.

Uma dúvida que recai sobre muitas pessoas, inclusive sobre mim, é por que essas mulheres e essas pessoas ficam? Por que aguentam esse tipo de violência? Responder a esse questionamento com apenas um motivo, contudo, é impossível, já que as causas variam. “É difícil generalizar isso, mas não raras vezes, a pessoa acredita que merece aquilo,” esclarece Anna Carolina. A autoestima pode estar tão deteriorada, que a ideia de estar sozinho ou de que aquela pessoa te aceita como é, com todos os seus defeitos, que é preciso aceitar calado o que lhe acontece.

“E isso porque temos, dentro de nós, uma instância psíquica chamada supereu (mais conhecido por aí como superego) que funciona como nosso censor interno, observando nossos passos e pensamentos para julgá-los. E o supereu pode ser bastante cruel e sádico, e, sendo um tanto simplista, se satisfaz nos criticando. Ou seja, a cabeça do abusado, algumas vezes, funciona achando que o abusador tem lá suas razões,” explica a Mestre em psicanálise.

Por mais doloroso que seja, liberte-se

Compartilhe

Por exemplo, mulheres abusadas podem acabar ficando porque, muitas vezes, também pode haver algum tipo de ganho. “Existem mulheres que são dependentes financeiramente de seus parceiros e colocam nisso a razão para ficar, mas você pode encontrar uma penca de mulheres bem sucedidas, capazes de sustentar filhos e cachorro sozinhas, e que permanecem em relações abusivas. Porque existe um ganho,” pontua Anna Carolina.

Utilizando Freud, ela sustenta ainda que, muitas vezes, a pessoa abusada pode sentir prazer naquele relacionamento mesmo quando há sofrimento. “O que te satisfaz não necessariamente te faz feliz. É possível obter prazer desde uma posição destrutiva, dolorosa,” continua. Em outras palavras, a dificuldade em desprender-se de outra pessoa não tem a ver, necessariamente, com ela, mas com o prazer em estar em posição inferior. “Há uma satisfação, um gozo que é tirado da posição em que se encontra nessa relação e do qual é difícil abrir mão,” esclarece Anna Carolina.

E a partir de que há um entendimento de que se está em relacionamento abusivo, um passo já foi dado. Contudo, para muitas pessoas, sair dele requer ajuda. “Seja em grupos de apoio, terapia, enfim. Romper o ciclo e o isolamento, já que a maioria das mulheres abusadas acaba se afastando de amizades e família e dependendo física e psicologicamente unicamente do parceiro e abusador, tornando a situação ainda mais complexa,” comenta Mariane Messias.

E o feminismo pode ajudar essas mulheres, conscientizando-as e fortalecendo-as. “As mulheres, mesmo quando fragilizadas pelo abuso, se adquirem a consciência de que são vítimas se tornam mais capazes de enfrentar esse tipo de situação. Além disso, o feminismo ajuda a fortalecer os laços entre as mulheres, e uma boa rede de apoio é uma das melhores formas de, a longo prazo, resistir às idas e vindas desse tipo de relacionamento e conseguir superar essas dores,” completa.

Permita-se ser feliz, ainda que seja sozinho

Compartilhe

É importante ter em mente de que sair de um relacionamento abusivo, por mais difícil que seja, é possível. Se entrar em um relacionamento é uma escolha, sair dele também o é. “Só que escolher sair é um passo e sair é outro. Algumas vezes é preciso descobrir por que se escolhe ficar para poder escolher sair; outras basta que o sofrimento seja maior que a satisfação para a pessoa fazer as malas e partir,” assinala a Mestre em psicanálise Anna Carolina.

Muitas vezes, ajuda é necessária, e isso não tem a ver com fraqueza, apenas que a situação é mais complicada. “Algumas pessoas saem sozinhas, outras precisam de ajuda, e isso não quer dizer que essa pessoa seja mais fraca, como diz o supereu e o namorado abusivo, mas que está mais difícil,” finaliza.

Sair de um relacionamento abusivo não é fácil, mas é preciso reconhecer que se está em tal situação, o que muita gente não sabe ou se nega a perceber, resultando em uma dificuldade muito maior em lidar com o término da relação. Atente-se aos sinais e, se necessário, peça ajuda. E mais importante: a culpa não é sua, por mais que digam o contrário. Colocar um fim é sempre uma opção. Por mais doloroso que seja, liberte-se. E permita-se ser feliz, ainda que seja sozinho.

Comentários
Edição #23
Pelo direito de ser extremista
Editorial

Pelo direito de ser extremista

Murilo Araújo

Nessa vida, a gente precisa de algumas radicalidades. Uma das que escolhi pra mim é fazer tudo que estiver ao meu alcance pra que discursos violentos não tenham mais lugar nesse mundo. Não teremos nenhuma “tolerância” com aquilo que nos agride.

Leia a Matéria
Newsletter

Assine e receba por email as nossas principais atualizações, além de conteúdo exclusivo!