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Pelo direito de ser extremista

Pelo direito de ser extremista

Nessa vida, a gente precisa de algumas radicalidades. Uma das que escolhi pra mim é fazer tudo que estiver ao meu alcance pra que discursos violentos não tenham mais lugar nesse mundo. Não teremos nenhuma “tolerância” com aquilo que nos agride.

Murilo Araújo
Derek Mangabeira

“Nossa... agora vocês veem homofobia em tudo também”. “Calma, cara, eu tava só brincando!”. “Você quer reclamar de preconceito, mas está sendo preconceituoso comigo aqui... você não me conhece, eu não sou racista, meu melhor amigo é negro”. “Essas feministas tão muito radicais, ficam agredindo todo mundo que não concorda com elas!”. “Como é que eles querem respeito se nem eles mesmos se dão ao respeito?”.

“Se você falasse com um pouquinho mais de calma, as pessoas iam te escutar”. “Acho que a gente não pode ser intolerante com a opinião de ninguém, mesmo se for uma opinião preconceituosa, a gente tem que aceitar que é a visão da pessoa”. “Eu não sou nem machista nem feminista, acho que a gente tem que encontrar um meio termo”. “Você não está respeitando a minha liberdade de expressão!”. “Ai, mas pra quê esse ódio todo? Mais amor, gente, por favor!”. “Você devia ir mais devagar com essa sua militância aí”.

“Você tá sendo extremista demais”.

Pelo direito de ser extremista
Oswald Corneti

Se eu parar pra pensar, acho que poderia ficar um bom tempo ainda enumerando essas várias frases clássicas que vivem aparecendo no repertório das pessoas, com uma ou outra mudança aqui ou ali. Frases que são sempre acionadas como resposta pra mim e pra tantas outras pessoas que tenho por companhia na militância. Frases que eu vejo circular nos jornais, frases que figuras públicas soltam nas suas entrevistas na televisão, frases que eu vejo as pessoas soltando no Facebook ou no Twitter, que eu ouço no ônibus, na rua, em casa, ou entre os amigos.

Frases que eu escuto como resposta a cada vez que cometo a ousadia de apontar algo preconceituoso e violento na fala ou na atitude de quem quer que seja. Sendo que a chance de ouvir uma delas aumenta se for uma pessoa próxima, porque elas partem do pressuposto de que se elas te aceitam, é porque já superaram todos os próprios fascismos – e ficam ultrajadas quando você aponta o contrário, mesmo que você esteja apontando justamente por se importar com elas.

Enfrentar essas reações diárias é um desafio constante. E me irrita cada dia mais profundamente que as pessoas me peçam calma. Paciência. Didatismo. Eu até acho que ser didático e paciente é importante, e eu prezo por uma boa pedagogia sempre que possível, porque acredito que o diálogo é um caminho que também funciona, apesar de não ser o único. Acontece que eu definitivamente não posso exigir que todo mundo tenha a mesma paciência que eu tenho de vez em quando, porque tem uma hora que a gente cansa de levar porrada dessa sociedade escrota, e a gente não quer mais baixar a voz.

É preciso entender que o pedido de “paciência” quase sempre carrega a ideia de que eu tenho que conseguir ser bonzinho o suficiente pra convencer as pessoas a simpatizarem comigo e me darem o que eu quero. E a gente perde de vista que não se trata só do que nós queremos; estamos falando de direitos, que nos pertencem, mas que são histórica e sistematicamente negados numa estrutura social desigual.

Pelo direito de ser extremista
Derek Mangabeira/I Hate Flash

A cada 28 horas, uma pessoa LGBT é agredida no Brasil. Entre nós, a expectativa de vida de uma mulher trans é de 30 a 35 anos. Isso é extremo. A cada dois dias, uma mulher – geralmente pobre – morre, e outras milhares são internadas em hospitais, em função de complicações provocadas em abortos clandestinos. Isso é extremo. No Brasil, geralmente nas favelas, jovens negros são vítimas de assassinatos em um número três vezes superior ao de jovens brancos. Quem mata, quase sempre, é o estado, a polícia, que chega atirando e executa antes de julgar. Isso é extremo.

E muitos desses pequenos comentários cotidianos, mesmo os inocentes, de brincadeira e em tom de piada, reiteram esse lugar em que as pessoas podem ser alvo não só de riso, mas também de violência e de morte. O riso da piada afia a faca que vai cortar a garganta da travesti, arma o gatilho do revólver que vai matar um negro pobre na favela. Isso é extremo. Não exijam que sejamos calmos e pacientes quando é a nossa vida que está em jogo. Não peçam que a gente controle a nossa raiva. Não nos peçam para baixar a voz. Calem a boca e escutem o que temos a dizer. E não esperem que a gente se comporte direitinho, pra depois ter que se contentar com as migalhas da sua benevolência hétero, cissexual, branca, rica e cristã.

Nós vamos continuar gritando, sendo radicais, sendo extremistas, e nós vamos gritar mais, nós vamos mostrar mais a cara, nós seremos desagradáveis, nós vamos cutucar os seus privilégios, e nós não vamos perder o nosso tempo tentando “educar” quem não quer ser educado, massageando egos privilegiados com a nossa paciência, com a nossa paz e com o nosso amor, enquanto tantos entre nós permanecem morrendo, tendo acesso apenas à insegurança e ao ódio.

Pelo direito de ser extremista
Thalita Teglas/Acervo pessoal

Não estou falando em ser dogmático, em ser fundamentalista, em se agarrar firmemente a meia dúzia de certezas e segui-las sem nunca se permitir repensar ou problematizar – até porque essa é justamente a prática desses que estão acostumados a nos chamar de “radicais”.

Em qualquer caso, a despeito do peso ruim que eles tentem dar a esse adjetivo, eu estou cada dia mais convencido de que a gente acaba precisando mesmo de algumas radicalidades nessa vida. Aquilo que alguns outros chamam de “princípios”. Um dos que escolhi pra mim é fazer tudo que estiver ao meu alcance pra que os discursos opressivos e violentos não tenham mais lugar nesse mundo. Não teremos nenhuma "tolerância" com aquilo que nos agride.

Nós iremos nos proteger. Raivosamente, se for necessário.

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Edição #23
Pelo direito de ser extremista
Editorial

Pelo direito de ser extremista

Murilo Araújo

Nessa vida, a gente precisa de algumas radicalidades. Uma das que escolhi pra mim é fazer tudo que estiver ao meu alcance pra que discursos violentos não tenham mais lugar nesse mundo. Não teremos nenhuma “tolerância” com aquilo que nos agride.

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