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O som de favelado que domina o mercado

O funk é mais um exemplo de um produto antes marginalizado que passou por um processo de adaptação de sentido, mas ainda não é aceito como identidade nacional.

Jean Carlos Gemeli
Renan Riso

“Eu? Gostar de funk? Nunquinha”. Mas é só tocar o primeiro acorde de “Beijinho no Ombro”, ou a buzina de “Show das Poderosas”, que fazem a coreografia completa, rebolando até o chão.

O som de favelado que domina o mercado
Renan Riso

Falar uma coisa, e fazer outra, só contribui para continuar com o preconceito que engloba o funk. O ritmo que vem dos morros cariocas é adorado pela sua musicalidade característica, mas desvalorizado por não ser considerado “de elite”.

A solução para esse “problema” foi adaptar o funk carioca para outras partes do Brasil, adequar e massificá-lo. Esse processo é o que chamamos de ressignificação cultural. O termo pode até parecer um grande monstro para tirar proveito de uma cultura e jogar para o mercado, mas podemos ver de dois lados.

E para exemplificar, é só olhar para dois exemplos vindos dos Estados Unidos, o R&B e o hip-hop. O rhythm and blues, nascido na década de 40 como uma mistura feita entre o soul e o gospel da música negra, acabou – ironicamente – estourando com o Rei do Rock, Elvis Presley. Um homem branco que sabia dançar e cantar como um negro. Com o passar do tempo, o ritmo foi se adaptando ao mercado e expandido como um produto, e hoje volta a ter o significado original.

O mesmo aconteceu com o hip-hop, que começou na década de 70 no subúrbio de Nova York, Bronx, o ritmo é um conjunto de três manifestações: DJing, breakdance e o graffit. Retirado do guetos, foi transformado em produto musical e hoje volta à polêmica com o assunto de apropriação cultural, como falamos aqui.

No Brasil não é muito diferente. Se analisarmos tanto o samba, quanto o sertanejo, os ritmos foram retirados das regiões em que começaram e espalhados pelo país. Atualmente, ambos os gêneros se dividem em várias vertentes, dentre elas uma dita de raiz e característica, outra mais popular e urbana.

E chegamos ao ponto de destaque, transformar um ritmo em pop, e não apenas no sentido de popularização, mas sim nas características do gênero. É transformar a estética desse conteúdo, mudar de contexto, e amplificar. Mas como fazer esse processo em um país gigantesco como o Brasil? Já que temos uma grande extensão, cada região tem as suas marcas culturais próprias, refletindo nos produtos que elas exportam, e na receptividade também. Por isso é necessário um agente intermediador que adapta os produtos para massificá-los.

Mestranda em Comunicação e Cultura na Universidade Federal do Paraná, Luciane Belin acredita que o processo de ressignificação é o ponto chave dessa transformação. “Nasce um produto com características próprias para refletir a cultura de uma determinada região, e passa por esse processo, para que outras regiões também o aceitem como produto. Escutem, e reproduzem aquele mesmo ritmo com as outras características,” explica Luciane.

O som de favelado que domina o mercado

O funk está passando por essas adaptações no espaço midiático, tanto nas letras, quanto nas mudanças estéticas dos artistas. Assim ele, como ritmo, é acaba sendo mais aceito em uma sociedade branca elitista – embora o Brasil seja majoritariamente negro. Por isso, o papel das gravadoras e assessorias ainda se mantém essenciais nesse processo. São elas que adéquam o artista para que o produto produzido chegue a determinado círculo social, ampliando e expandindo esse processo de ressignificação.

No entanto, não podemos apenas olhar a parte negativa. “Se o funk não tivesse essas pessoas como Anitta, Valesca, MC Guimê, mesmo que elas não sejam 100% representativas para aquela população, talvez ele não chegasse ao mainstream e não abrisse espaço para outros funkeiros”, pondera Luciane.

Vocês lembram o episódio de estreia do programa “Música.doc” na MTV Brasil com a Anitta? Umas das chamadas que mais despertaram a atenção do público foi com a seguinte fala da cantora: “Então a música brasileira reconhecida e boa é só a MPB?”.

Dentro do documentário, a cantora dá uma aula sobre reconhecimento e respeito cultural para o brasileiro que subjulga o funk. “O que seria das noites cariocas, das boates, se não fossem as músicas dançantes? Então, nas noites do Brasil só iriam tocar música internacional dançante, porque a música dançante brasileira não é de qualidade. E aí você vai desvalorizando a sua cultura”.

Além dessa parte cultural, é necessário pensar o funk no contexto social em que ele está inserido. O papel governamental, por exemplo, com as políticas públicas, principalmente da esfera federal, nos últimos anos, contribuiu para a saída desses estilos, antes marginalizados nas favelas. Esse grupo social em específico teve ascensão na sociedade, conseguiu ter poder econômico mais elevado, e o ganhou da autoestima.

E chegamos ao um ponto importante. Essa saída foi ajudada pela Internet. Com ela, podemos escolher o que ouvimos, e então passamos a ser automaticamente produtor de conteúdo, é a própria pessoa que exerce o papel de editor/curador do produto acessado. E quem analisa o mercado percebe e investe nesses artistas que dominam a rede digital.

A produtora artística cultural e mestranda em Comunicação e Linguagens, Amanda Valentini, conta que antigamente a TV, junto com a rádio, tinha um papel essencial para o estouro do artista. “Hoje não precisamos ser tanto filhos de Francisco, pois pela internet e as redes multiplataformas, conseguimos selecionar o que ouvimos e amplificar,” conta Amanda. A TV entra como uma segunda etapa no alcance, apenas é reprodutora do que desponta Internet.

Eles é quem mandam
Quem domina o funk de hoje no Brasil?
Valesca Popozuda
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A letra que todos cantamos. Cheio de peculiaridades, “Beijinho no Ombro” virou febre e a cantora aproveitou muito bem e se mantém firme no mercado.

Anitta
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A coreografia que o Brasil aprendeu a fazer. Estourou com “Show das Poderosas”, mas com um bom planejamento, a cantora é o principal nome do segmento funk pop

Ludmilla
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Com um funk pop totalmente dançante, a faixa “Hoje” é hit certeiro da cantora.

Dream Team do Passinho
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Misturando letra fácil, e coreografia característica, a música “De Ladin” é a aposta do grupo.

Mc Guimê
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O maior representante do funk ostentação ganhou uma grande ajuda quando Neymar entrou para a jogada.

Lexa
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A novata do estilo e com produção da ex-empresária de Anitta, a Kamila Fialho

O ponto essencial é a adaptação do produto. Para o som da favela sair, ele tem que deixar o a musicalidade do funk mais Pop. “Primeiro, a música tem de se adequar ao mercado, depois o mercado acaba se adequando a ela, ampliando os horizontes”, afirma Amanda. Para ela, se pegarmos a Anitta e o MC Guimê como exemplos, percebe-se que as referências deles fogem um pouco do funk de raiz, e mesclam com referências internacionais.

Quem também compartilha essa análise do funk como produto marginalizado, é o professor da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Micael Herschmann. Segundo ele, o ritmo se expandiu para um sucesso mercadológico e invadiu a cena urbana, mas teve que passar pelas gravadoras, e agora abre espaço para selos independentes.

“Anitta chegou ao Brasil inteiro,” afirma Ninna. No entanto, a produtora ainda acredita que falta muito para o funk ser aceito como identidade nacional. Ainda há preconceito, um problema social mesmo, e o funk irá enfrentar. “Não tem jeito, o pessoal gosta sim da musicalidade, mas não quer assumir, fica cheio de pudores e se paga por cult,” lembra.

Já para a mestranda Luciane, tudo depende do público, pois essa ideia de “identidade nacional” muda de país para país. “Temos a dificuldade de ver que a característica da nossa música é a pluralidade. Talvez, lá fora eles não saibam diferenciar o funk melody do pop, ou de raiz, para eles será tudo funk brasileiro,” lembra.

Podemos sim discutir o assunto por um viés de apropriação cultura. No entanto, podemos também analisar esse processo de ressignificação como ampliador. Levar uma cultura que por si só não chegaria a outras.

O maior exemplo continua sendo o refrão da música “Som de preto” de Amilcka e Chocolate. “É som de preto, de favelado, mas quando toca, ninguém fica parado”. No entanto, só foi popularizado com o DJ Marlboro, conhecido por ter dominado a picape no programa da Rede Globo, “Caldeirão do Huck”. Clássico exemplo de ressignificação cultural do funk carioca já no início.

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Murilo Araújo

Nessa vida, a gente precisa de algumas radicalidades. Uma das que escolhi pra mim é fazer tudo que estiver ao meu alcance pra que discursos violentos não tenham mais lugar nesse mundo. Não teremos nenhuma “tolerância” com aquilo que nos agride.

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