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O que estamos comendo?

Mais do que uma mudança na alimentação, o veganismo é um estilo de vida que coloca toda forma de vida em primeiro lugar.

Artur de Francischi
Vic Matos

Você sabe o que é veganismo? Nestas minhas andanças pela vida e pela internet, reparei que muitas pessoas resumem o veganismo a uma “dieta livre de carnes”. Eu mesmo, apesar de ouvir muito a palavra, pouco procurei saber sobre o assunto. Foi após uma “brincadeira” ruim que fiz com um amigo, que percebi meu conhecimento limitado acerca do assunto. Resolvi pesquisar. Não só isso, eu quis conhecer pessoas que me ajudassem a entender o veganismo e por que escolheram seguir um modo de vida diferente daquele aceito socialmente.

“O estilo de vida vegano é aquele que não só deixa de consumir carne, leite e ovos, como também evita o uso e a compra de todo ‘material’ advindo de animais, pois estes produtos acabam incentivando o abuso, abate e sofrimento animal”, explica Jéssica David Dias, enfermeira e doutoranda na Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto/USP. Ou seja, nada de sapatos de couro, suéter de lã ou cosméticos de uma grande multinacional. “Também se evita o consumo de produtos testados em animais,” completa.

O que estamos comendo?
Vic Matos

Jéssica é vegana desde 2010, quando compareceu a um evento na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), onde o documentário “A Carne é Fraca” foi exibido. O filme foi produzido pelo Instituto Nina Rosa, que ofereceu uma palestra no local. As cenas e as informações transmitidas foram suficientes para que ela mudasse de vida. “Na mesma semana, resolvi adotar o estilo de vida pra mim. O evento também me motivou a ir atrás de um grupo de vegetarianos na cidade, pois eu queria encontrar outras pessoas preocupadas com o tema, até para me dar mais forças e ver que não estou sozinha nessa luta”, conta Jéssica.

Fábio Chaves, fundador e infoativista do site Vista-se, maior portal vegano brasileiro, explica que a mudança de hábitos traz muitos benefícios, tanto para o meio-ambiente, quanto para a nossa saúde. “Dados de organizações oficiais e isentas como a ONU, e até o Ministério da Saúde, já mostraram que uma alimentação com produtos de origem animal é mais prejudicial para o meio ambiente”. A carne bovina, por exemplo, colabora diretamente para a destruição das florestas, já que se abre um enorme espaço para a criação de pasto e gado. Uma alimentação livre de carne animal e de derivados dela, além de evitar a devastação das matas, também traz melhorias à saúde.

“Os benefícios [para a saúde] são muitos, a começar pelo consumo naturalmente mais alto de fibras e de nutrientes importantes como o ácido fólico. Mas, como em qualquer tipo de alimentação, se a pessoa não tiver o mínimo de cuidado e só se alimentar de industrializados pobres em nutrientes, pode ter problemas. A vitamina B12 também merece atenção, embora seja barata e fácil de suplementar, caso necessário.”

O ativista possui, além do Vista-se, o site Seja Vegano, que explica o que é veganismo e traz informações úteis para quem quer mudar de vida. Fábio conta ainda que o veganismo é uma filosofia de vida, e não uma dieta, como é popularmente dito. “As pessoas que adotam essa filosofia têm uma dieta vegetariana estrita, ou seja, nada de origem animal. Come-se de tudo, menos, claro, produtos de origem animal.”

E embora hoje muito se fale sobre veganismo, ele começou em 1946, na Inglaterra, com o ativista pelos direitos dos animais, Donald Watson, membro da sociedade vegetariana local, responsável por cunhar a palavra vegan e fundar a Sociedade Vegana. “Ele achou que tratar a questão apenas do ponto de vista alimentício não faria sentido para ajudar os animais. E consumir laticínios e ovos também colaborava para o sofrimento deles,” afirma Fábio.

Um mundo carnívoro
Números sobre o consumo de carne animal no mundo.
Discrepância de valores

8 pessoas poderiam ser alimentadas com uma produção pecuária em 100 hectares.

Uma plantação de milho, utilizando o mesmo espaço, conseguiria alimentar 2.500 pessoas.

70 bilhões

É o numero de animais terrestres mortos anualmente para o consumo humano.

Animais mortos

181 animais são mortos por segundo na pecuária brasileira.

Doenças modernas

70% das doenças modernas são de origem animal, com sua maioria ligada à pecuária.

Mão de obra escrava

A atividade comercial brasileira que mais emprega mão de obra escrava ou em condições análogas à escravidão é a pecuária.

E a preocupação de Donald Watson pela vida animal transformou-se num movimento presente no mundo todo, atraindo diversos adeptos que também se interessam pela preservação da vida dos animais. Rodrigo Benevides é uma dessas pessoas que conheci para a realização dessa matéria. Vegano há quatro anos, o físico conta que era vegetariano durante a adolescência, mas que o veganismo virou seu estilo de vida após decidir reunir pessoas dentro de sua faculdade, ao lado de um amigo, para que pudessem discutir os direitos animais. “Com isso, acabei tomando contato com a temática da libertação animal e do veganismo. Daí pra frente foi questão de alguns poucos meses até eu decidir me tornar vegano definitivamente,” conta Rodrigo.

A transição do vegetarianismo para o veganismo foi fácil para ele, já que tinha amigos veganos. “As pessoas, muitas vezes, pensam que não, mas na verdade veganos adoram comida. E na hora de fazer essa transição é sempre bom conversar com as pessoas, porque você acaba descobrindo muitas possibilidades legais e deliciosas, que provavelmente sozinho você não descobriria,” explica Rodrigo. A transição foi algo interessante nas repostas de todos com quem conversei. Não há um consenso sobre a forma como você deveria iniciar um estilo de vida vegano. E nem deveria, claro. Afinal, pessoas são diferentes e cada uma possui seu timing.

Para Fábio Chaves, ativista e fundador do Vista-se, a mudança de hábitos pode ser feita imediatamente, mas não há uma regra. “Eu indico começar no veganismo de uma vez. Hoje em dia temos mais informação e produtos que podem facilitar nesse início. Se for possível, é bom conversar com um nutricionista que entenda de alimentação vegetariana, mas não é uma obrigatoriedade,” explica.

Para Jéssica Dias, doutoranda na Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, o mais difícil foi largar o leite. “Eu era viciada em café com leite. Então passei por uma saga em busca de um leite vegetal que suprisse o meu gosto por leite. Provei vários, mas nada me agradava, até que finalmente encontrei um que gostei e a partir daí tudo ficou mais fácil,” explica.

Já Micaela Ganzarolli, estudante de Ciências Sociais na UFSCar, Universidade Federal de São Carlos, que tornou-se vegetariana gradativamente ainda na adolescência, a adoção do veganismo como estilo de vida deu-se pela forma como relacionava o seu bem-estar com o que se alimentava. “Como eu poderia amar tanto os animais se me alimentava da carne deles? Que por sua vez vinha de um processo de dor, tortura, sofrimento, sangue. Uma vez que eu despertei para essas relações foi indissipável o veganismo,” diz. “Não se trata apenas de uma decisão, e sim do despertar, do momento em que você não consegue mais compactuar com esse tipo de matança e sofrimento, do momento em que você decide não ser mais corrupto e participar dessa indústria da dor,” finaliza.

Este vídeo está no YouTube e pode deixar de ser exibido a qualquer momento

E se a transição acontece de diferentes formas para cada pessoa, as dificuldades encontradas pelos veganos também variam. Desde a falta de informações na mídia, até a aceitação de outras pessoas e locais onde possam se alimentar. A experiência individual de cada um mostra que a questão da libertação animal está longe de ser resolvida. “É difícil falar sobre dificuldades, porque existem outros fatores como o lugar onde se vive, acesso à informação, uma legislação carente que não está nem um pouco preocupada com o tipo de alimentação que as pessoas têm, e sequer preocupada se elas se alimentam bem,” critica a estudante de Ciências Sociais, Micaela. O governo, também, pouco promove uma discussão sobre a forma como nos alimentamos. “Não temos educação nutricional nas escolas. Esse assunto não é incentivado pelo governo, não é informado em nenhum veículo de grande mídia. O jeito é sabermos tudo o que comermos e irmos em busca de produtos vegans, sejam eles na internet ou em outras grandes cidades,” completa.

O físico Rodrigo Benevides completa dizendo que “muito pior que as dificuldades que eu e outros veganos sofremos para comer, é o sofrimento dos milhões de animais confinados e assassinados diariamente para manter essa (i)lógica de consumo animal, em especial dentro da dinâmica capitalista”. “O veganismo por si só incomoda. Incomoda no sentido de deixar claro pra outra pessoa que ela é parte dessa indústria que maltrata e extermina animais. Incomoda, pois tira as pessoas da zona de conforto, do piloto automático da vida,” finaliza Jéssica.

Um ponto importante é que, a alimentação é somente um aspecto a ser mudado. Por ser um estilo de vida, é preciso alterar outros hábitos. “Não frequentar locais que proporcionam o sofrimento de animais como rodeios. Prestar atenção ao comprar roupas, sapatos e também artigos de higiene e limpeza. É uma mudança no padrão de consumo. É preciso boicotar empresas que não estejam nem aí para os animais,” esclarece o ativista Fábio Chaves. “É muito mais um objetivo de vida. Então, eu não diria que 'o veganismo é isso'. Os veganismos são muitos e acho que o mais importante é o compromisso de cada pessoa com o fim da exploração animal. Em todos os níveis,” completa Rodrigo.

E se você está pensando em adotar esse novo estilo de vida, perguntei se haveria uma forma indicada para realizar a transição para o veganismo. “É preciso ter coragem, e paciência, para remar contra a maré, pois dependendo do ambiente em que a pessoa se encontra, não é nada fácil,” aconselha Jéssica Dias. “Acho que uma boa maneira de começar é ter bem claro pra si mesmo a sua motivação para o veganismo, pois isso é o que irá te manter firme ao longo das adversidades. Também acho que é bom ir aos poucos, apesar de conhecer alguns veganos que conseguiram “veganizar” com sucesso da noite pro dia, para mim foi uma transição bem gradual. Outra coisa que foi muito importante pra mim, o apoio. Ache outras pessoas como você, que têm o mesmo objetivo. E, por último, adquira conhecimento sobre o que você está adotando pra sua vida,” completa. “Concentre-se nas vítimas. Pensem no que passam os animais para que a indústria lucre em cima do corpo deles. Você pode ficar na ponta dessa linha de desmontagem, comprando, ou não”, finaliza Fábio.

Um mundo mais vegano
Informações e curiosidades sobre o universo do veganismo.
Aumento do interesse

Nos últimos cinco anos, o interesse da população brasileira pelo veganismo aumentou em 500%.

Reconhecimento

Segundo o Guia Alimentar Para a População Brasileira, do Ministério da Saúde, lançado no ano passado, reconhece a alimentação vegana como saudável.

Mais saúde

Um estudo publicado no British Journal of Medicine relaciona o consumo de leite a riscos maiores de morte e doenças.

Famosos adeptos

Lea Michele, Natalie Portman, Joaquin Phoenix, Paul McCartney, Jared Leto e Yasmin Brunet são alguns veganos conhecidos mundialmente.

Ao conhecer todas essas pessoas, percebi algo que pode ser óbvio para muitos, mas que passou despercebido por mim: veganismo vai muito além de cuidar da alimentação, mas cuidar do meio ambiente. Você sabia que cerca de 18% dos famosos gases de efeito estufa são provenientes da pecuária? Os meios de transporte, são responsáveis por 13% do CO2 lançado na atmosfera.

“Comer um bife é muito mais poluente do que andar de carro,” colocou Rodrigo durante a entrevista. Ele, a Jéssica, a Micaela e o Fábio, juntos, e ao lado de outras milhões de pessoas, formam um grupo que não querem um mundo melhor somente para nós, humanos, mas para os animais também. Fica aqui um convite à reflexão para todos nós sobre o mundo que queremos viver: liberdade para quem?

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Edição #23
Pelo direito de ser extremista
Editorial

Pelo direito de ser extremista

Murilo Araújo

Nessa vida, a gente precisa de algumas radicalidades. Uma das que escolhi pra mim é fazer tudo que estiver ao meu alcance pra que discursos violentos não tenham mais lugar nesse mundo. Não teremos nenhuma “tolerância” com aquilo que nos agride.

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