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Dolce, Gabbana e o preconceito dentro do meio LGBT

Dolce, Gabbana e o preconceito dentro do meio LGBT

Muitas vezes, a reprodução desses preconceitos acontece por querer se sentir aceito pelo grupo dominante. Outras vezes, por pura ignorância e falta de informação.

Jones Pelech

É fato de que preconceito é uma realidade vivenciada pela comunidade LGBT. Os que dizem que nunca sofreram com a intolerância vivem num mundo paralelo, quase surreal. Ou então, são as pessoas mais sortudas da Terra. Mas existe um tipo de preconceito que consegue ser mais nocivo do que os demais, o preconceito internalizado. O preconceito propagado por quem, na prática, é quem mais sofre com ele. A problemática desse preconceito se dá pelo simples fato de que quem o pratica está alimentando um sistema de opressão, humilhação e agressão que mais cedo ou mais tarde vai voltar contra si.

Dolce, Gabbana e o preconceito dentro do meio LGBT
DivulgaçãoDolce & Gabbana na capa da revista Panorama: Viva a família (tradicional)

Na edição de março da revista italiana Panorama, o tema da discriminação dentro do próprio meio LGBT ganhou mais destaque do que de costume, devido a afirmação do estilista Domenico Gabbana, que se posicionou contra a adoção ou fertilização por casais gays: “A única família é a tradicional. Sem ‘prole química’ e útero de aluguel: a vida é um fluxo natural, existem coisas que não deveriam mudar”.

Gabbana ainda complementou a fala chamando bebês frutos de fertilização in vitro – técnica que consiste em fecundar o óvulo externamente, para depois o transferir para o útero materno – de “bebês sintéticos”. O episódio gerou a revolta de muitas pessoas, entre elas Elton John e Madonna, que se manifestaram através de suas contas no Instagram. Elton ainda convocou um boicote à grife, recebendo mensagens de apoio de nomes como Victoria Beckham e Courtney Love. Elton John e seu marido, David Furnish, são pais de dois filhos gerados a partir deste método.

Stefano Dolce, sócio de Domenico Gabbana, finalizou colocando uma cereja no bolo, afirmando também através de seu Instagram que Elton John foi “arrogante por não tolerar os que pensam diferente dele”. Essa fala de Stefano pode ser considerada o exemplo máximo de incoerência, uma vez que ele e seu sócio é que deram uma lição de intolerância ao deslegitimar as famílias de outras pessoas.

Vale lembrar que Dolce e Gabbana nasceram e foram criados em famílias italianas, e que a Itália é um país assumidamente conservador. Um país que vive sob a batuta da Igreja Católica e onde minorias como mulheres, negros e gays ainda são vistos quase que como cidadãos de segunda classe, muitas vezes com seus direitos negados e vítimas de um preconceito institucionalizado. Semelhante ao Brasil.

“O opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos”

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Por outro lado, Dolce e Gabbana são personalidades mundiais, dois dos nomes mais influentes da moda contemporânea, e que por isso mesmo deveriam no mínimo ter cuidado com suas opiniões e com o impacto delas. Os dois estão acostumados a transitar entre artistas de diferentes áreas, como atrizes e cantores, além da própria vivência no mundo fashion, um lugar onde gays são um número expressivo. Por isso, mesmo com a cultura conservadora de seu país, é difícil entender que esse tipo de opinião tão embasada na heteronormatividade tenha partido de dois homens gays. Durante 23 anos, eles formaram um casal. Após o término da relação, em 2005, eles continuaram com a sociedade.

Apesar de todas as críticas e polêmica, Stefano Dolce e Domenico Gabbana não são exceções. Quase que o tempo todo, nas conversas, na TV, nos jornais, nos comentários das redes sociais, é possível perceber que muitas pessoas do meio LGBT reproduzem o discurso homofóbico e transfóbico, assim como algumas mulheres reproduzem as ideias machistas e negros repetem ideias racistas.

Essas pessoas, embora não se deem conta, acabam servindo como produto propagador da violência que esses grupos sofrem diariamente. Violência esta física ou verbal, exposta ou velada. Muitas vezes, a reprodução desses preconceitos acontece por querer se sentir aceito pelo grupo dominante. Outras vezes, por pura ignorância e falta de informação.

“O opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos,” escreveu Simone de Beauvoir em “O Segundo Sexo”. Embora o tempo passe, essa máxima continua fazendo sentido e cada vez servindo para mais grupos, que mesmo que sem querer, colaboram para a violação de seus semelhantes.

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Editorial

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Murilo Araújo

Nessa vida, a gente precisa de algumas radicalidades. Uma das que escolhi pra mim é fazer tudo que estiver ao meu alcance pra que discursos violentos não tenham mais lugar nesse mundo. Não teremos nenhuma “tolerância” com aquilo que nos agride.

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