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Dilma, impeachment

e o ódio dos outros

Uma coisa é certa: caso Dilma sobreviva e saia por cima de toda essa fúria rasa, ela fará por onde, mais uma vez, ser chamada de Coração Valente.

Jones Pelech
André Pacheco

Não é de hoje que o PT desperta a fúria de grande parte da população. Mesmo no executivo desde 2002, quando Lula foi eleito pela primeira vez, está cada vez mais perceptível que para o Partido dos Trabalhadores se manter no poder será necessário cada vez mais esforço.

Dilma, impeachment e o ódio dos outros
André Pacheco

Com foco numa política social, em prol da população mais pobre e carente, aos poucos o governo foi despertando a ira da parcela mais conservadora da sociedade, que viu neste tipo de política uma ameaça aos seus privilégios. Mas, mesmo com todo ódio direcionado para Lula durante seus dois mandatos, raras foram as vezes que o nível de insatisfação (e ódio) dessa parcela da população se fez tão presente, como agora, no segundo mantado da presidenta Dilma.

A justificativa usada para essa insatisfação são os casos de corrupção que envolvem partidários do PT e algumas vezes membros do governo. Mas na verdade, as razões para o ódio podem ser claramente percebidas como machismo, conservadorismo e uma clara revolta com o resultado das últimas eleições, que dividiu o país nas urnas.

Desde 2003, o governo federal criou mecanismos de controle para combater a corrupção, como a criação da Controladoria Geral da União (CGU) naquele ano, e, em seguida, em 2004, a criação do Portal da Transparência. Essas medidas foram de extrema importância para a posterior investigação do caso de corrupção do Mensalão, que acabou punindo membros do próprio governo.

Investigar casos de corrupção onde o governo e seu partido estivessem envolvidos nunca foram algo recorrente no Brasil durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, que presidiu o país por oito anos. No governo FHC, grandes casos de corrupção, como o da Pasta Rosa, dos Precatórios e da polêmica compra de votos no Congresso para a viabilização da reeleição presidencial, foram esvaziados sem muito alarde. Até hoje permanecem sem punição.

Chega a ser engraçado, ou trágico, como a grande parte da sociedade que hoje se manifesta contra Dilma Rousseff, devido o caso de corrupção da Petrobrás estar sob os holofotes, enxerga no PSDB de FHC um exemplo de honestidade. O mesmo PSDB de Aécio Neves, que já foi investigado por construir, com dinheiro público, um aeroporto nas terras de um tio. O mesmo Aécio que já tentou calar jornalistas e blogueiros mineiros quando foi governador de Minas Gerais.

O fato é que não existem provas do envolvimento de Dilma com o caso de corrupção na Petrobrás – nem em nenhum outro. Porém isso não foi suficiente para evitar que milhares de pessoas saíssem as ruas no dia 15 de março para pedir o impeachment da presidenta. Alguns, mais alucinados e envoltos pelo “espírito democrático”, pediam a volta da ditadura. No dia 12 de abril aconteceu outra passeata, só que flopada, apesar do esforço da grande mídia para fazer parecer que ela, assim como a anterior, foi um sucesso de público (e audiência).

Sair às ruas para reclamar da situação governamental e demonstrar sua insatisfação é justo. É um sinal de que as pessoas são cientes de seus direitos enquanto cidadãs. O que não faz sentido algum é pedir a cabeça de uma presidenta, que na pior das hipóteses, tem sido incompetente. E incompetência – caso Dilma seja apontada por isso, devido a maneira que está conduzindo esse início de segundo mandato – não é motivo para que uma governante seja escrachada e massacrada, como tem sido por seus opositores, por alguns que se dizem “aliados” e pela grande mídia, que parece ter visto nessa onda de ódio inconsequente uma oportunidade de colocar seu candidato favorito numa posição de destaque e liderança.

Dilma, impeachment e o ódio dos outros
ReproduçãoBonecos representando Lula e Dilma apareceram enforcados e pendurados em um viaduto durante manifestação de Jundiaí.

A mídia internacional, por outro lado, entendeu as manifestações de raiva são fruto de uma onda conservadora, que enxerga numa presidenta mulher e num partido de esquerda, perigos eminentes à democracia. “Centenas de milhares de brasileiros predominantemente brancos e de classe média tomaram as ruas ontem,” disse o The Guardian sobre a micareta do dia 15 de março. Teve quem entendeu isso como um elogio.

Desde que assumiu seu segundo mandato, Dilma tem feito escolhas na área econômica e trabalhista que desapontaram a ala esquerda da população e os movimentos sociais, que foram essenciais para sua reeleição. Escolhas essas como a restrição de direitos trabalhistas e o aumento de impostos.

Também se questiona a escolha ministerial, que colocou, entre outros, Kátia Abreu (PMDB) no Ministério da Agricultura, o ex-governador do Ceará, Cid Gomes (PROS) no Ministério da Educação, onde não se encontra mais, e o liberal Joaquim Levy no Ministério da Fazenda. Escolhas essas que são reflexo de um governo de coalizão, importante para a permanência do poder, mas que se mostra cada vez mais desgastado, uma vez que os partidos aliados parecem falar uma língua diferente da do governo.

Dilma, impeachment e o ódio dos outros
ReproduçãoBabá distrai criança para uma selfie com os pais durante a manifestação

Importante observar que, seja na área econômica ou na área trabalhista, Dilma tem feito um caminho parecido com o que seria adotado pelo seu concorrente nas eleições, e que portanto, não daria margem para tanto descontentamento por parte da parcela conservadora da população. Mas mais uma vez, o ódio sem argumentos é tão grande, que impede as pessoas de raciocinar sobre o que estão reclamando e pedindo nas ruas, cumprindo assim um belo papel de massa de manobra.

A reforma política, que seria, ao que parece, uma boa medida para combater a corrupção em todas as esferas, é jogada para escanteio, diante do esquizofrênico pedido de impeachment. Mas uma coisa é certa: caso Dilma sobreviva e saia por cima de toda essa fúria rasa, ela fará por onde, mais uma vez, ser chamada de Coração Valente.

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Edição #23
Pelo direito de ser extremista
Editorial

Pelo direito de ser extremista

Murilo Araújo

Nessa vida, a gente precisa de algumas radicalidades. Uma das que escolhi pra mim é fazer tudo que estiver ao meu alcance pra que discursos violentos não tenham mais lugar nesse mundo. Não teremos nenhuma “tolerância” com aquilo que nos agride.

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