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A dor dos outros

A dor dos outros

Não importa o quanto tentemos, nunca saberemos o que se passa na cabeça das pessoas ao nosso redor. E isso pode ser muito perigoso.

Rafaella Coury
André Pacheco

Acredito que um dos principais motivos para as estatísticas existirem é que com números tudo parece mais palpável, mais fácil de ser compreendido e mais próximo de nós. Pois bem, vou começar com algumas delas: o mais recente relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS), referente a 2014, afirma que mais de 800 mil pessoas cometem suicídio todos anos, o que equivale a uma morte a cada 40 segundos. Além disso, ele também afirma que o Brasil é o oitavo país com a maior taxa de suicídios no mundo, e que essa taxa aumentou 10,4% entre 2000 e 2012.

Essas estatísticas, mesmo que sejam poucas, estão aí para provar que este assunto é sério, é real, e é diário. Isso que elas apenas tratam do suicídio completo, digamos assim. Outras estatísticas, talvez ainda piores, apontam que ocorrem aproximadamente 16 tentativas para cada suicídio. Ou seja, em uma comparação besta, a cada 40 segundos uma pessoa comete suicídio e outras 16 tentam.

O Brasil é o oitavo país com a maior taxa de suicídios do mundo

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O fato deste assunto ainda ser um tabu, ser tão pouco tratado na mídia e no entretenimento em geral, e ser rigidamente condenado pelas religiões, só piora estas estatísticas. Mesmo que mais notícias tragam o tema, normalmente de forma indireta, não podemos considerar algo comum. Não se fala sobre suicídio. É um assunto velado que não deve ser discutido. E fim. Mas esquecemos que justamente a falta dessa discussão é o que pode agravar ainda mais o tema.

Lemos as notícias e conhecemos as estatísticas, e eventualmente pensamos coisas como “mas o que eu tenho a ver com isso? As pessoas ao meu redor estão bem”, e talvez este seja um dos problemas. A gente nunca sabe se essas pessoas realmente estão bem. Quando o Robin Williams se matou, em agosto do ano passado, muitas pessoas procuraram racionalizar o ocorrido, encontrando um motivo lógico. Afinal, ele tinha dinheiro, uma carreira sólida e admirada, uma família boa e feliz. Por que ele iria querer tirar sua própria vida? Este pensamento pode fazer sentido, mas prova que a gente não entende, a gente nunca entende. Nós não estamos dentro da cabeça das outras pessoas para saber o que elas pensam, como elas se sentem, e a gravidade que isso tudo pode ter.

Nós não podemos desmerecer o sofrimento dos outros. O que para nós poderia ser uma besteira, para muitos é o fim do mundo. É o motivo para eles desistirem. É o fim da esperança. Em vez de julgar quem desistiu, apenas tente se colocar no lugar dele, mesmo que seja relativamente impossível. Tente entender que se alguém chegou a este ponto é porque teve seus motivos. Não, não acho que seja egoísmo. E a única coisa que deveríamos fazer é tentar ajudar, é tentar enxergar que mesmo aquela pessoa que parece estar muito bem, pode não estar se sentindo assim de fato, e ela pode estar sem esperanças a ponto de fechar a porta para sempre. Isso é muito mais um ato de coragem do que de qualquer outra coisa que escutamos por aí.

A gente nunca vai entender a dor do outro

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Como nem sempre é fácil entendermos como pode funcionar a cabeça de alguém que decide colocar um ponto final desses, uma alternativa é ver o outro lado, o lado de quem fica. Imagina quão difícil deve ser amar alguém e saber que esta pessoa se matou. Que ela desistiu, que você não pôde, não conseguiu ou não sabia que devia ajudá-la. Imagina a sensação de saber que alguém que você ama tentou se matar, mas não conseguiu. Imagina visitá-la no hospital após a ingestão de remédios que poderiam tê-la matado. Ver as marcas no seu pescoço ou nos seus pulsos.

Afinal, os métodos estão aí, todos nós os conhecemos de cor, mas enquanto eles fazem apenas parte dos livros, das músicas ou dos filmes, está tudo bem. E quando eles se aproximam de nós? E quando somos o personagem secundário da história derradeira de alguém que tanto nos vale? Talvez nunca estejamos preparados para um momento assim. Talvez, hoje, agora, eu poderia escrever que agiria de tal e de tal formas. Mas, na hora, a gente nunca sabe. Talvez medo, raiva, impotência, dor. Só que, se o personagem secundário já se sente desta forma, imagina o principal. Quem sabe assim comecemos a entender que não é uma atitude covarde.

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A ordem era clara. Eu quase cometi o maior pecado do mundo, e por isso eu deveria me tornar uma pessoa angustiada pra todo sempre e tirar essa ideia egoísta da cabeça!

A gente nunca vai entender a dor do outro. E mesmo se entendêssemos, jamais poderíamos julgá-lo por isso. Cada um sente da sua forma. Mesmo os sentimentos bons. Algumas pessoas amam de forma intensa e outras amam de forma comedida, e jamais podemos dizer que um amor é menor do que o outro. Com a dor, imagino que seja a mesma coisa. A mesma dor nunca é sentida da mesma forma por duas pessoas. E é por isso que jamais podemos desmerecer a dor alheia. Diminuí-la. Dizer que é exagero. Fazer parecer pouca coisa, ou tratar como se não fosse nada. Em uma dessas, alguém com quem você se importa pode tomar uma atitude definitiva para parar de sentir essa dor. Uma solução permanente para algo que até poderia ser temporário, mas que chegou a um limite.

Além de não entender, muitas vezes não vemos a dor dos outros. Muitas vezes eles não são sinceros ao falar da dimensão do seu sofrimento. E muitas outras vezes nós até ouvimos, mas preferimos não escutar. Afinal, temos os nossos próprios problemas, não? Tão maiores, mais urgentes e importantes… E deixamos de dar atenção a alguém que talvez possa estar realmente precisando de nós. Se algo assim acontecesse, não consigo imaginar o peso com que eu ficaria.

Por todos esses motivos, acho que sempre devemos ser o melhor com as pessoas ao nosso redor, principalmente com aquelas que amamos. Não custa nada dar um abraço ou um sorriso a mais. Não custa nada demonstrar seu amor de qualquer forma possível, seja dando atenção, estando presente, ou até com palavras mesmo. Muitas vezes são as menores coisas que nós fazemos que estão mudando o dia das pessoas ao nosso redor. Que estão melhorando a vida das pessoas as quais queremos bem.

Por mais clichê que isso soe, não deixe de ser a sua melhor versão no maior tempo possível. Quando uma pessoa amada partir e, principalmente, se tiver sido por decisão própria, você irá se arrepender de tudo o que não disse ou deixou de fazer. Isso, sabemos que é óbvio. Mas nem sempre parecemos saber o quanto nossas boas atitudes podem estar salvando um pouco o interior das pessoas ao nosso redor. E, muito menos, o quanto isso pode fazer toda a diferença.

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