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Sobre meninos,
sorvetes e unicórnios

Seja irmã das mina, leia as mina, respeita as mina.

Ana Paula Penkala
André Pacheco

“Woman is the nigger of the world”, disseram John Lennon e Yoko Ono numa música de 1972. “Nigger”, “crioulo”, é uma forma de fazer um paralelo entre a marginalização e violência que os negros sofrem num mundo dominado por brancos e a mesma relação entre as mulheres e o mundo dominado por homens.

Sobre meninos, sorvetes e unicórnios
André Pacheco

O termo remonta o tratamento dado aos escravos nos EUA e a música fala justamente da escravidão feminina. A hegemonia discursiva e prática é equivalente. Na época em que a música foi feita, os EUA estavam explodindo com movimentos pelos direitos civis que lutavam contra essa hegemonia. Eram as classes de “cidadãos de segunda categoria”, gays, negros e mulheres. Mas em algum lugar entre o final dos anos 70 e os dias atuais ocorreu alguma mudança no mundo que desviou o esperado avanço dessas lutas para um modo de vida que esvaziou essas marchas. Essas bandeiras foram alegorizadas e tornadas abstratas até que seu sentido concreto e vivo sumisse.

Se considerarmos especialmente o modelo social, econômico e cultural da globalização, talvez tenhamos uma resposta para esse fenômeno. Em tese, a globalização atravessa o mundo todo e é capaz de unificar vivências, de permitir o trânsito de culturas e bens, de facilitar a troca social. Na prática, a globalização difunde um modo de viver e pensar hegemônico, fazendo com que outras culturas assimilem quase sem se dar conta ethos e habitus de um imperialismo discursivo contido, entre outras coisas, na cultura popular e em seus meios e bens.

Essa assimilação se dá a um custo altíssimo e um de seus efeitos colaterais é a aparente aceitação das diferenças e a noção de que lutas antigas, atribuídas provavelmente ao modelo do estágio anterior do capitalismo, não são mais necessárias uma vez que estão ultrapassadas e superadas. Traduzindo em miúdos: não é mais necessário discutir ou lutar contra o racismo, o machismo e a homofobia porque as coisas não são mais como antigamente.

É próprio desse terceiro estágio do capitalismo, um estágio onde cultura e economia estão embricadas, que se mantenha ora uma aparência de que as grandes questões estão superadas porque todos seríamos iguais perante a cultura global, ora uma noção – difundida pelo que manda na globalização, que é o mercado - de que essas questões atrapalham o progresso. Gays, mulheres e negros são considerados dentro de uma lógica de mercado. Enquanto forem consumidores, tudo vai bem. Uma vez que saem dessa zona, seus direitos, e a luta por eles, tornam-se em estraga prazeres ou ameaças. Por que nos chamam de feminazis? Porque somos empedernidas, intransigentes com nossos direitos, chatas e insistentes, tão gritonas e nem sequer damos uma ajeitadinha no visual!

Não devemos globalizar o feminismo como o homem branco que escraviza o negro

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É conveniente ao capitalismo avançado que as grandes lutas das mulheres do século XX sejam obliteradas e ser feminista não seja considerado mais que uma pequena idiossincrasia individual. A política, em tempos de globalização, fica esvaziada de seus referenciais, e restrita ao espaço burocrático e diplomático. Isso construiu uma geração de privilegiados reclamando de seus proto-problemas diante de grandes tragédias humanas. Meninos hegemônicos mimados chorando pelo sorvete roubado por aquela feminazi. Pior que isso: criou uma geração de minorias sem consciência de classe. Isso nos colocou em franco retrocesso, e se há uma coisa global nisso tudo, essa coisa é a misoginia pandêmica que mantém mulheres escravas de uma lógica tão século XIX, mas consumidoras do mercado do século XXI.

Um dos objetivos da globalização, ou de um certo nivelamento e obliteração das diferenças em favor de tornar-nos todos consumidores, é evitar que se construa a consciência de classe. E o feminismo hoje passa por uma crise que me parece o cerne da sinuca de bico ideológica. Estamos longe de resolver a hegemonia patriarcal porque se perdeu, em grande parte, a dimensão política dessa luta para o que seria a experiência de um feminismo academicista e de Instagram. As grandes bandeiras dessa terceira (ou quarta, segundo certa literatura) onda do feminismo são empoderamento, luta contra a cultura do estupro, sororidade, representação e talvez a própria luta interna, que é dimensionar a questão de classe e sistematizar uma política femininja.

A globalização quer evitar que se construa a consciência de classe

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Empoderar duas mulheres em vez de explicar feminismo para um homem é um ato político, talvez o mais revolucionário de todos. Sem consciência de nossa própria força, seremos escravas da assimilação do discurso e da prática misógina. Empoderar mulheres significa fazer com que se compreendam enquanto classe oprimida, a origem dessa opressão e como não se deixar socializar enquanto escravas de um sistema de valores que foi criado por homens para benefício dos homens com base nas vivências masculinas.

Esse é o ato revolucionário que servirá de turning point para uma cultura que é, definitivamente, abusiva. Que nos vende “50 Tons de Cinza” como uma fábula romântica sobre como uma mulher aparentemente frágil e abusada se torna aquela que controla o controlador original. Empoderar mulheres significa ensinar a elas que representação faz diferença, sim, e que enquanto a cultura popular continuar nos propondo enxergar violência, abuso e manipulação emocional como amor, devoção, erotismo, continuaremos achando natural nos submetermos a relacionamentos e situações abusivas. Isso é cultura dos estupro.

A naturalização da figura da mulher como objeto, da desumanização feminina, somada ao conjunto de valores que aprendemos em nossa socialização, nos cria a certeza dessa falta de valor e a norma de que “meninos serão meninos” e que é natural meninos fazerem/pensarem certas coisas. Meninos criados por mulheres não conscientes de sua classe crescem como incapazes de compreender o limite humano do outro, de reconhecer o outro como um igual, de suportar frustrações; direcionados apenas para a satisfação de seus instintos básicos.

Mulheres criam filhas como criam filhos? Não, de modo algum. Porque mulheres são criadas e socializadas para servir a um propósito, enquanto homens são criados e socializados para serem aqueles a quem se serve – ou é assim que as designações de gênero construíram. Muitas mulheres apenas repetem o que acreditam ser natural e normal.

Uma ode ao feminismo
Filmes com mulheres fortes ou com histórias que seriam consideradas feministas existem, e aos montes, mas os dedicados ao ativismo são mais difíceis de se encontrar.
Norma Rae
Dir. Martin Ritt, 1979, EUA
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Este é daqueles filmes norte-americanos que a gente vê e se admira, porque parecem mais cabeça aberta e mais progressistas que os feitos nos últimos 10 ou 15 anos por lá.

“Norma Rae” fala sobre a luta trabalhista do ponto de vista da trabalhadora de chão de fábrica, normalmente aquela mulher pobre de quem dependem filhos e às vezes até o marido. Um clássico do gênero “luta social de pessoas normais da era pré-Reagan”.

A cor púrpura
Dir. Steven Spielberg, 1985, EUA
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Se a luta feminina é difícil, imagina a luta feminina para uma mulher negra do início do século XX! Esse filme belíssimo e muito triste fala sobre auto-estima, opressão machista e racista, sororidade e, mais do que tudo, sobre a forma cruel com que o mundo trata as mulheres negras.

Uma das cenas mais bonitas celebra a sororidade no tom da música popular que o mundo herdou dos negros dos EUA e a quem deve muito hoje.

Rosa Luxemburgo
Dir. Margarethe von Trotta, 1986, Alemanha
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Filme biográfico sobre uma parte da vida (e luta) de um dos nomes mais importantes da luta social, uma filósofa e economista marxista.

Rosa, como membro do Partido Comunista da Alemanha, foi presa em 1919 e, segundo investigações concluídas apenas em 1999, foi assassinada a mando do governo, que era social-democrata.

Olhos azuis
Dir. Bertram Verhaag, 1996, EUA
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Em 1970, Jane Elliott, socióloga e professora norte-americana, fez um documentário chamado “Eye of the Storm”, onde aplicava um teste de racismo em uma turma de crianças de terceira série.

O experimento – que consistia em separar as pessoas na sala pela cor dos olhos e provocar situações em que os de olhos azuis se sentissem descriminados – voltou a ser documentado em 1985, em “A class divided” e foi discutido novamente em 96.

Este documentário, dirigido por Verhaag, entrevista a professora, mostra imagens dos documentários e experimentos antigos e apresenta a experiência comendada por Elliott em oficinas ministradas em todo país.

Miss Representation
Dir. Jennifer Siebel Newsom, 2011, EUA
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Esse filme fala da representação feminina, uma das questões nevrálgicas do feminismo hoje e tema central de uma problemática que envolve mídia, política, direitos civis e pedagogia.

Como ter mulheres na política se meninas não acham que podem crescer para serem presidentas? Como parar com a violência contra a mulher num mundo em que videogames, filmes e músicas naturalizam essa violência? Documentário obrigatório pra esta discussão.

É bom mostrar pras meninas em sala de aula!

A identidade de gênero já vem num kit pronta para ser usada e isso é extremamente útil para um mercado que cresce conforme mantém padrões muito claros em mente. Mas não é apenas por ser mais fácil vender que os consumidores são separados em gêneros estanques. É porque aquele que atravessa a fronteira ou que desconstrói o desígnio é aquele que tem poder sobre sua identidade, auto-estima e sobre a forma com que o mundo o afeta. Se urge ao mercado empoderar homens porque assim se ganha mais dinheiro, urge igualmente manter mulheres em uma redoma protetiva de fragilidade e passividade. A publicidade conhece a máxima de que mulheres frustradas e com baixa auto-estima compram mais. Todos conhecemos.

Somos dignas, somos iguais, exigimos respeito.

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Uma das grandes tragédias da socialização feminina é a mítica que nos ensina que somos inimigas umas das outras. A cultura popular não faz questão de mudar esse padrão, uma vez que até as “músicas de empoderamento” falam em invejosas, recalcadas e inimigas. A verdadeira revolução de poder é pisotear essa figura malévola na busca de uma sororidade, que é a consciência de classe em toda a sua potência.

A revolução está em compreender a outra como devemos compreender a nós mesmas. Assim, conversamos e trocamos informações. Não somos rivais porque nosso objetivo não é servir aos homens. Como animais, queremos evoluir e multiplicar tanto quanto os machos da nossa espécie. Mas evoluir é uma conquista nossa e multiplicar não significa necessariamente ser escrava de um sistema reprodutivo de castas que nos coloca como encubadoras.

Se conversássemos como irmãs, saberíamos que as outras estão fazendo abortos, que estão sofrendo violência obstétrica, que estão indo em busca de sonhos pessoais sem precisar de um homem ou de filhos, que também gostam de mulher, que pariram de forma natural porque seus corpos são fortes, que estão amamentando. Se conversássemos como irmãs, saberíamos mais das nossas dificuldades e questões do que de como não machucar os egos masculinos ou de como servir de prêmio a eles.

Empoderar mulheres significa ensinar que representação faz diferença.

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Vão nos dizer que esse conluio de mulheres é bruxaria ou, hoje, um conchavo misândrico. Misoginia existe, e ela arde nos nossos corpos todos os dias. Misandria, não. Me custou muito tempo para entender por qual motivo misandria não existia. Misandria é tipo um unicórnio. Existe um conceito, e existe até uma forma. Mas no mundo real, na prática, não existe. Misandria seria o ódio sistematizado pelos homens. Tem mulher que odeia homem? Tem (e homem também). Mas esse homem não é odiado como classe por uma classe com um ódio concreto instituído por práticas, normas, valores. Para esse unicórnio existir é preciso sistematização do ódio.

É preciso que a classe homem fosse odiada e cada um dos indivíduos homens sofresse por conta daquilo que é direcionado a essa classe. Seria preciso tornar a mulher enquanto classe (e não a individual) como odiadora de homens e a classe de homens em objeto de um ódio orgânico que atravessa o tempo, as fronteiras geográficas, a cultura, a representação, a socialização e os desígnios de gênero e chega à própria classe, fazendo com que ela se perceba menos empoderada, menos capaz, menos digna. Seria preciso inverter a hegemonia.

A misoginia existe, mas misandria é apenas uma figura mítica viva no ego ainda não formado dos homens que assimilam o discurso de sua classe. Qual o discurso de empoderamento da classe masculina? Somos superiores, exigimos tudo, exigimos . O discurso de empoderamento feminino luta por igualdade. Somos dignas, somos iguais, exigimos respeito.

Não somos rivais porque nosso objetivo não é servir aos homens.

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A dimensão política do feminismo está em tomar a vez na máquina de sorvete, colocar irmãs no lugar de inimigas e ter modelos poderosos que nos representem e em quem possamos nos espelhar. Como irmãs, devemos compreender as vivências umas das outras e não globalizar o feminismo como o homem branco que escraviza o negro. A sororidade será anti-racista, anti-homofóbica, anti-transfóbica e anti-classista ou não será. Se a mulher é o crioulo do mundo, a mulher negra é o que?

A mulher negra, pobre, trans ou lésbica tem ainda mais lutas a travar porque a hegemonia ainda é eurocentrada, elitista e heteronormativa. É dever de toda feminista lutar por uma representação dessa mulher também. Uma representação que se faz pela personagem forte, pela professora inspiradora, pela filósofa articulada, pela militante destemida.

Não leiam sobre os 50 tons de abuso de um homem branco rico e controlador. Ouçam o tom de voz de Chimamanda Ngozi Adichie e de Malala Yousafzai. Não só porque não são a mulher branca que é mais privilegiada que a maioria das mulheres, mas porque essas, sim, encontraram força em meio à violência e subverteram o empoderamento do abuso para chamar suas irmãs à luta.

Leiam as mina, mas não as que reforçam a hegemonia. Leiam as mina que roubam o sorvete. Leiam as femininjas. Transformem as femininjas em cultura pop.

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Edição #22
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