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O papel feminino na indústria cinematográfica

Depois de décadas lutando por reconhecimento – dentro e fora das telas -, será que a mulher conseguiu o destaque que merece?

Rafaella Coury
Duds Saldanha
O papel feminino na indústria cinematográfica
Duds Saldanha

A história do cinema está cheia de divas. Sim, é assim que são chamadas grande parte das mulheres que atuaram em filmes de décadas atrás. Sempre bonitas, boas atrizes acabavam sempre representando papeis bem parecidos ao que viviam na sociedade daquela época: donas de casa, esposas, amantes, sedutoras.

Embora o ator principal fosse o mocinho da história, sempre havia alguma personagem do sexo feminino por perto, de forma secundária. Eventualmente, um ou outro filme trazia a mulher no papel principal. Mas suas características, normalmente, eram as mesmas: frágeis, sedutoras e inocentes. Personagens aprisionadas no conceito ideal feminino da época.

As mulheres representam menos de 25% dos protagonistas

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Um caso em destaque é o da belíssima Audrey Hepburn, que quase sempre interpretava personagens delicadas, ingênuas, extremamente femininas. Sim, um deleite para os olhos e uma interpretação impecável. Mas seus papéis tratavam quase sempre do mesmo tipo de mulher que, se não era uma representação da sociedade da época, era o que todas sonhavam em ser. Uma exceção, talvez, seja o filme “Um Clarão nas Trevas”, suspense de Terence Young de 1967. Mas ainda assim, seu filme mais assistido é o “Bonequinha de Luxo”, de 1961, que é a representação perfeita do estereótipo.

Julie Andrews, que esteve presente no Oscar deste ano em uma homenagem aos 50 anos do filme “A Noviça Rebelde”, também era, frequentemente, a protagonista de seus filmes, já na década de 60. Em dois dos maiores marcos de sua carreira, “Mary Poppins” e no clássico cinquentenário, a atriz dá vida a duas babás. Enquanto a primeira encantava a todos por seus poderes mágicos, a segunda se tornou tão querida que acabou entrando para a família. Dois papéis similares em dois anos seguidos.

Analisando de perto estas personagens, é possível ver que, mesmo sendo protagonistas, elas ainda acabam presas aos estereótipos femininos da época, tendo uma importância menor do que os correspondentes masculinos em outros filmes.

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Com o passar dos anos, a mulher passou por grandes mudanças. Agora, os direitos são os mesmos - pelo menos em teoria. Podemos votar, começamos a trabalhar e a sustentar a casa e a família. Isso quando há bocas a serem sustentadas, pois o pensamento retrógrado de que a mulher nasceu para casar e ser dona de casa se perdeu e hoje, caso alguém não queira seguir este “padrão”, já é possível. Embora seja uma atitude criticada por alguns, é possível. A questão aqui é como a postura dessa "nova mulher" passou (ou não) a ser refletida nas telonas.

Inicialmente, é importante perceber a diferença na quantidade de mulheres nos bastidores. Há 50 anos, o principal trabalho feminino por trás das câmeras se limitava a maquiagem, figurino, cabelo e olhe lá. Hoje, podemos dizer que há importantes produtoras, diretoras e roteiristas fazendo um excelente trabalho. Em 2010, Kathryn Bigelow se tornou a primeira mulher - e, até então, a única - a ganhar um Oscar de Melhor Direção por “Guerra ao Terror”. Prêmio que, até hoje, é traduzido erroneamente para o português como Melhor Diretor.

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Mas no Oscar de 2015, por exemplo, não tivemos nenhuma mulher concorrendo às categorias de Melhor Direção, Roteiro Original ou Roteiro Adaptado. É a primeira vez em oito anos que nenhuma mulher apareceu entre as principais categorias - além das de Melhor Atriz. A presença feminina no palco da premiação desta última edição, além das estatuetas dedicadas especialmente a seus papéis, se resumiu a categorias como figurino, maquiagem e curta-metragens.

Todos os filmes com possibilidades de levar o prêmio principal da premiação deste ano trouxeram homens como protagonistas. Ou seja, contam histórias masculinas. O único deles a indicar uma mulher à categoria de Melhor Atriz foi o “A Teoria de Tudo”, com Felicity Jones. As outras concorrentes à estatueta participaram de filmes que contam histórias de mulheres, e mesmo tendo sido muito elogiados, não receberam outras indicações de importância. É o menor índice desde 2003.

Em compensação, algumas mulheres que subiram ao palco da premiação aproveitaram o holofote para trazer atenção a causas importantes. Um destaque foi a atriz Patricia Arquette que, ao receber o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por “Boyhood: Da Infância à Juventude”, pediu direitos igualitários entre homens e mulheres, maior reconhecimento pelo trabalho feminino, e salários iguais. O discurso foi ovacionado pela plateia e reproduzido várias vezes nas semanas seguintes.

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Em relação à presença feminina nos papéis principais, a publicação Preconceito de Gênero sem Fronteiras: Uma Pesquisa sobre Personagens Femininos em Filmes Populares em 11 Países, feita pelo Geena Davis Institute on Gender in Media, a Organização das Nações Unidas (ONU) Mulheres e a Fundação Rockefeller em setembro de 2014, mostra que elas representam menos de 25% dos protagonistas, e 30,9% dos personagens falantes ou nomeados na tela.

Não podemos negar que os papéis sofreram mudanças muito positivas. Em 2014, vimos Katniss Evergreen se tornar a salvação de uma nação em “Jogos Vorazes”. Tivemos Tris em uma jornada de autoconhecimento entre as facções da sua cidade em “Divergente” e a incrível Scarlett Johansson como Lucy, uma mulher que utiliza 100% da sua capacidade cerebral.

Os papéis são diferentes, mais importantes, e talvez - só talvez - sejam menos estereotipados. Mas, em proporções maiores, a quantidade ainda é pequena. Tudo isso sem mencionar a quantidade enorme de mulheres que submetem a papéis menores e, em sua grande maioria, machistas.

A arte não impõe limites a nada.

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Há o argumento de que isso se deve à grande quantidade de filmes de luta, ação e violência que ainda caem facilmente nas graças do público. E que homens são os mais adequados para filmes assim. Sem citar novamente os filmes baseados em obras literárias que trazem mulheres como heroínas, confirmaram recentemente que o icônico “Os Caça-Fantasmas” ganhará um remake e com apenas mulheres como protagonistas.

As atrizes Kristen Wiig, Melissa McCarthy, Kate McKinnon e Leslie Jones foram anunciadas como a estrela da franquia. Uma grande - e ousada - mudança, afinal são mulheres ganhando destaque em um filme conhecido por ter sido interpretado por homens.

Não demorou muito para a notícia ganhar repercussão mundo afora e comentários maldosos começassem a aparecer. Um dos mais frequentes fala da fisionomia do quarteto. Melissa McCarthy, uma atriz incrível indicada ao Oscar em 2012, é uma das mais atacadas, apenas pelo simples fato de ser gorda. Como se não houvesse um gordinho na versão “masculina” do filme. E como se isso significasse alguma coisa relevante.

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Crepúsculo dos Deuses
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Neste drama noir de 1950, Gloria Swanson é Norma Desmond, uma atriz esquecida pela audiência anos depois de ser uma das maiores estrelas de Hollywood. O filme também se destaca por ser um cruel retrato da indústria cinematográfica.

A Noviça Rebelde
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Clichês a parte, Julie Andrews interpreta Maria, uma governanta na adaptação da história real da família Von Trapp, de 1965.

Erin Brockovich
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Julia Roberts é Erin Brockovich, uma mulher real que lutou contra a empresa de energia Pacific Gas and Electric Company (PG&E). A atriz ganhou o Oscar por sua atuação, em 2001.

Um Sonho Possível
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O longa traz Sandra Bullock no papel de Leigh Anne Tuohy, uma mãe de família que começa a cuidar de Michael Oher (Quinton Aaron), um jovem negro e desabrigado. A atuação rendeu à Bullock o Oscar de Melhor Atriz.

Jogos Vorazes
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Jennifer Lawrence é Katniss Everdeen, um dos tributos de Panem a participar dos Jogos Vorazes. Além de ser uma arqueira profissional, é extremamente cautelosa e discreta.

Quando assistimos a um filme, o que procuramos é entretenimento. E qualquer um, qualquer um mesmo, pode representar bem, seja homem ou mulher, gordo ou magro, alto ou baixo, dentre tantas outras características que nos diferenciam uns dos outros. Fisionomia e gênero não definem, necessariamente, a qualidade de uma atuação.

Pode até não combinar com o papel que nós pensamos ser o ideal para outra pessoa - o que, também, não deveria determinar nada -, mas se for bem feito, nos trará o entretenimento que tanto buscamos. Já vimos homens interpretarem mulheres muito bem, sendo reconhecidos com prêmios de renome, assim como também vimos o contrário.

A arte não impõe limites a nada. Esse é o pensamento que deveria imperar. E espero que, em algum momento, ele se reflita verdadeiramente na indústria.

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Edição #22
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