Vestiário

O melhor site de cultura pop e lifestyle gay do Brasil.

Mais amor e tolerância,
por favor

Quando o seu bom nunca é bom o suficiente.

Yhury Nukui
Renan Riso

Lembro-me exatamente da primeira vez que fui perseguido na escola. Naquela época – quem lê até pode pensar que sou velho, mas só tenho 21 anos – não havia o que hoje chamamos de bullying e nem a atenção que se dá para os desdobramentos dessa prática na vida de um adolescente atual. Eu estudava a tarde e ele, pela manhã. As implicâncias começaram sem que eu desse qualquer motivo aparente.

Passei a evitar todo lugar que eu sabia que ele poderia passar e toda vez que isso acontecia, ele parecia adivinhar e subitamente surgia como quem não queria nada para me atacar. Nunca sofri qualquer tipo de violência física dele, apenas verbal. Mas isso já foi o suficiente para que eu nunca esquecesse seu nome, seu rosto e todas as palavras e apelidos dados por ele, que andava sempre em bando e recebia proteção dos amigos que o ajudavam rindo do gordinho.

Mais amor e tolerância, por favor
Renan Riso

Os ataques, no entanto, não diziam respeito apenas a minha aparência, que naquela época não era mesmo das melhores, mas minha sexualidade. E ele, por se julgar mais forte, mais bonito e mais “pegador” do que eu, se sentia no direito de criticar. Nunca reclamei sobre qualquer um dos insultos em casa porque morria de vergonha. Como chegaria ao meu pai para dizer que seu “filho macho” tinha sua sexualidade posta em dúvida nos corredores da escola? Poucos amigos sabiam e não tinham muito o que fazer para me ajudar. O choro era silencioso.

Reclamei com a direção do colégio e o rapaz foi chamado para conversar. E então, os insultos se intensificaram e passaram a ser feitos de longe, mas claros o suficiente para que eu pudesse notar. Até que eles pararam. Alguns anos depois, cheguei ao Ensino Médio, me mudei para o Brasil, entrei numa nova escola e eles continuaram. Dessa vez, os insultos eram feitos às costas e, como num jogo de telefone sem fio, chegavam até mim.

Me mudei (pela terceira vez) para começar a faculdade e, ainda assim, as ofensas não pararam. Mas dessa vez, elas não se limitaram aos corredores da instituição, mas à “vida real”. Numa fatídica quinta-feira, a caminho do trabalho, acordei relativamente feliz e fui recebido no ônibus com um sonoro “viadinho” gritado pelo motorista que, num tom irônico, disse eu “devia sair do Whatsapp com o namorado”.

E então, como naquelas cenas de filmes, passei a reviver todas as palavras duras ouvidas na infância, no Ensino Médio, enquanto a voz daquele motorista, que numa outra ocasião havia me criticado por usar um brinco na orelha, continuava ecoando na minha cabeça.

Me calei durante todo o dia, enquanto recebia uma ode de amor dos amigos nas redes sociais, que me incentivaram a denunciar o homem (como o fiz), mas não consegui me aguentar ao receber apoio de professores e amigos mais tarde, durante a aula na faculdade. E chorei. Chorei pela criança perseguida, pelo adolescente que teve seus passos sempre acompanhados pelos outros, na tentativa de encontrarem “algo suspeito”, e pelo jovem que, quando achou que tinha se livrado de tudo isso, se viu numa cena de violência gratuita.

Minha mãe dizia que eu deveria revidar quando fosse insultado respondendo a altura, nunca de forma física. Mas quando aquilo acontecia me doía tanto que, eu não achava justo que eu o fizesse com o outro. E me calava. E acumulava todos aqueles sentimentos ruins que até hoje me perseguem e acabam reaparecendo quando situações similares acontecem.

Talvez eu não devesse me preocupar tanto com o outro. Talvez fosse mais justo comigo mesmo que eu respondesse aos insultos. Ou talvez o problema não seja eu. Talvez o problema seja essa preocupação louca que todo mundo tem em falar da vida do outro. Em insultar. Em querer obrigar que o outro fale sobre a sua sexualidade quando isso não interessa a ninguém.

A escola é primeiro estágio do que será o julgamento de toda uma sociedade. E se você não tem o cabelinho sempre curto, não tira sarro das menininhas e nem as trata com o desdém que meninos dessa idade crescem achando ser o correto, as teorias e perseguições começam. E não param até que você assuma que eles estavam “certos” o tempo inteiro. Mas certos do que? E a troco do que?

Quem é pisado, nunca se esquece. A autoestima diminui e a autoconfiança é praticamente inexistente. Você se questiona o tempo inteiro se está adequado ao ambiente em que vive e quer, a todo custo, entender onde errou para ser atacado de forma tão rude – mesmo quando você faz de tudo para transmitir coisas muito boas às pessoas que vivem ao seu lado. Você nunca se acha bom o suficiente.

Deixe de pensar. De especular. E seja fiel ao que você pensa ser o correto. Somos o que acreditamos. E se você tem o apoio daqueles que te importam, o resto é só o resto. Não dê as costas para aqueles que um dia te levantaram a mão e nem alimente o ódio. Só vai te fazer mal – e não o levará para lugar nenhum.

Mais tolerância. E mais amor. Por favor!

Comentários
Edição #22
Newsletter

Assine e receba por email as nossas principais atualizações, além de conteúdo exclusivo!