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***Flawless: Chimamanda é pop!

Um novo livro que é sucesso, discursos com milhares de visualizações na internet e parceria em música de Beyoncé, Chimamanda Ngozi Adichie é uma escritora sem medo de ser popular.

Renato Cabral
Eduardo Myr
***Flawless: Chimamanda é pop!
Eduardo Myr

O sorriso ilumina e as palavras encantam. Com uma calmaria na fala e um sotaque carregado, Chimamanda Ngozi Adichie é como um imã. Sua simpatia e a sua capacidade de enxergar o mundo enfeitiçam como uma canção. Pode parecer poético demais descreve-la dessa forma, mas poucos autores conseguem aliar a capacidade de serem tão populares, donos de uma escrita de tamanha qualidade e ao mesmo tempo com um discurso tão atual e próximo da sociedade.

Da sua fala “Sejamos Todos Feministas” no TED, recém transcrito em livro, saiu sua participação na música da cantora Beyoncé. Um pouco cansada de ser questionada sobre o uso do trecho de seu discurso, ela apenas cita que fica feliz em ver uma fala que busca a igualdade de gênero sendo levada aos ouvidos de sua sobrinha de 13 anos.

Este vídeo está no YouTube e pode deixar de ser exibido a qualquer momento

A cultura pop parece ter abraçado de vez suas causas e sua obra depois do estouro de “***Flawless”, abraçado como um hino feminista. Com um trabalho forte de conscientização de direitos civis e, principalmente, das mulheres, a escritora nascida na Nigéria conscientiza com sua escrita. Recém lançado no país, “Americanah” é um romance vencedor de diversos prêmios internacionais que faz lembrar que o mundo é modificado de uma maneira orgânica, bem parecida como Chimamanda nos apresenta todas as temáticas sociais nas narrativas de sua literatura, fazendo com que o leitor tenha uma experiência reflexiva.

O livro traz resumidamente de forma superficial, a história de um casal. Tudo começa quando a corajosa Ifemelu decide partir para estudar nos Estados Unidos, enfrentando o que é ser negra em meio a um país de forte cultura branca. Ela logo aguarda a vinda de Obinze, seu interesse amoroso. Porém, após o 11 de setembro, ele decide trocar a América por Londres e ambos perdem o contato. 15 anos depois eles podem se reencontrar, quando Ifemelu decide retornar à Nigéria e Obinze já se assentou novamente no país. Um país agora democrático.

***Flawless: Chimamanda é pop!
Divulgação“Americanah” é lançado no Brasil pela Companhia das Letras

Construído como uma retrospectiva de momentos enquanto Ifemelu embarca para seu retorno ao país, depois de passar mais de 10 anos nos Estados Unidos estudando, o livro ainda destaca o lado blogueira da protagonista. Ela mantém um espaço para comentar sobre os mais diferentes temas sociais, culturais e políticos que acredita serem pertinentes, principalmente para uma nigeriana que vive na América com tantas diferenças culturais e preconceitos por parte da população. Por mais que pareça pesado, devido aos temas, a escrita é bem humorada, leve e seduz muito bem o leitor. Ifemelu é uma das personagens mais interessantes da literatura dos últimos anos.

Em seus romances anteriores, “Hibisco Roxo” e “Meio Sol Amarelo”, também lançados no Brasil pela Companhia das Letras, Chimamanda busca o que tanto discursou em palestras: tratar de histórias que desmistifiquem os padrões ocidentais de histórias exageradamente “brancas” e americanizadas. E representar as mulheres das mais diversas formas e como refletir sobre como são tratadas em seu país, conhecido por um retrocesso social.

A rebelde Chimamanda logo levaria para seus livros como a normatividade “branca” e o único retrato tido como “correto” desgarraria uma família em “Hibisco Roxo”. O velho problema de contarmos uma única história. No livro, um patriarca de uma família nigeriana decide renegar a cultura de seu povo para colocar sua família no que acredita ser o correto ideal cristão-católico culminando em intolerância religiosa. Fato comum até no Brasil. Quem disse que uma história nigeriana não poderia ser universal?

“Americanah” é o que podemos ter como o auge de Chimamanda

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Impulsionado pelos seus discursos, “Americanah” é o que podemos ter como o auge de Chimamanda, isso em apenas quatro livros lançados. Seus discursos apresentados em diversos momentos estão todos diluídos na história. O resgate de temáticas já apresentadas como a religião, a intolerância, a responsabilidade e a cultura.

Sua capacidade primorosa de criar personagens que se materializam facilmente para seu leitor, de abrir portas para apresentar seu país e ainda, tratando de assuntos abandonados pela literatura que sempre destacam personagens brancos e burgueses, fazem com que acompanhar os textos de Chimamanda seja quase um dever.

Escrevendo regularmente para o The New York Times e com “Americanah” sendo levado para as telas com produção de Lupita N’yongo em breve, Adichie continua vivendo em Lagos, na Nigéria, reclamando do ar condicionado que não dá conta do calor e da seguida falta de energia local.

Mas também continua escrevendo sobre amar a imperfeição de onde se vive, mas nem por isso se acomoda, sempre fazendo à sua maneira para ampliar a visão de mundo e direitos sociais através de seus textos e discursos. Até mesmo em uma música de Beyoncé.

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Edição #22
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